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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O Muro (Capítulo 5)

230788 estava com 13 anos. Tinha acabado de chegar, refugiado do Rio de Janeiro. Instalou-se na ala Norte da Favela, a área mais turbulenta, mais densamente povoada. Trazia em seu chip interno apenas as coisas que achava mais preciosas na vida: as fotografias digitalizadas. Gostava de observar-se criança. Gostava das fotos de sua cidade, mesmo que antes da Grande Inundação ela fosse uma das mais anti-higiênicas do censo 2048. Não importava para ele. Era bom do jeito que era. Pelo menos era. O refugiado 130579 ouviu aquelas confissões e deixou cair uma lágrima, lembrando o tempo em que gostava de pegar Sol no parque, em sua terra natal, Pernambuco, hoje totalmente submersa. Os dois se abraçaram mesmo algemados, e juraram naquele instante que sairiam das celas para entrar para a História.

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Muro (Capítulo 1)

2108. Brasília. Depois da Grande Inundação de 2049, onde as principais cidades litorâneas mundiais foram alagadas pelo elevamento do nível marítmo, a capital nacional torna-se um campo de refugiados vindos de todo o litoral brasileiro, como também das Guianas e Suriname. A população é elevada ao cubo. Para melhor funcionamento das atividades burocráticas, os cidadãos foram separados em apenas duas classificações: oficiais e refugiados. Os oficiais trabalham e residem no que originalmente era a cidade de Brasília, fundada em 1960. Os refugiados, em muitas rebeliões e na maior delas, o "Dezembro de Sangue", foram definitavemente banidos dos limites da cidade original. Na tentativa de assegurar a integridade dos edifícios e dos próprios oficiais, ergue-se o Muro, em 2058, separando a cidade modelo da grande favela de refugiados. Com 30 metros de altura, altamente reforçado por guardas e dispositivos de defesa, o Muro tornou-se o símbolo da cidade, como também do Brasil, pela grandiosidade de sua estrutura, e pela média impressionante de abatidos: 117 por dia. Hoje, aniversário de 50 anos da criação do Muro, na ala norte da Favela (a mais próxima do Muro), o refugiado n: 230788, esconde algo na vestimenta e dirige-se para o Muro. A Revolução já começou.

domingo, 30 de novembro de 2008

Capote (não é o Truman, mas é verdade)

, e quando a gente é criança ficam umas imagens na nossa cabeça. Às vezes eu fico pensando: como é que eu pensava quando era criança? Como que eu enxergava o mundo? Como eu pensava? E nessa intriga, lembro de quando sofri um acidente automobilístico. Começo dos anos 90. Eu tava indo, não, eu tava voltando de um sítio? Era algo como um sítio, uma casa de campo-praia, algo no interior, é, praia não era. Podia ser em Petrópolis. Na serra. Ou no interior fluminense. Estávamos voltando pela estrada. Não sei por que, mas ao pensar nessa época lembro tão somente da "fada do dente". Pois é, meio gay, mas as imagens nebulosas que vêm são da minha mão achando um brinquedo que minha mãe colocou debaixo do travesseiro. Na noite anterior um dos meus dentes tinha caído. Ou foi arrancado amarrando um fio dental na maçaneta da porta. Uma prática comum naquela era histórica. Pois era um carrinho. Um carrinho daqueles de brinquedo, pequeno, que talvez tinha um mecanismo de rodas que quando você atritava ele para trás e ficava repetindo isso, depois soltava, ele saía correndo e batia no pé da sua mãe. Ou entrava naquele lugar escroto debaixo do sofá. Era uma bosta. Tinha que ir até a cozinha e pegar uma vassoura para tirar o carrinho dali. Estávamos voltando pela estrada, de noite. Tava a minha mãe, o namorado e eu. O carro parece que subiu num morrinho, não sei direito como, acho que estávamos em alta velocidade. O carro subiu e voltou capotando, girando, girando. Minha mãe, ninjamente pulou pela janela antes de capotar. Incrível. Acordei com as porradas, os estrondos. Mas não no momento do estrondo. Parecia que eu acordei, e comecei a ouvir os estrondos, depois que eles tinham acontecido. Um troço muito doido, pensei agora. Parecia que eu estava ouvindo um som já passado. O som do capote. Aconteceu o seguinte: o porta-malas caíu em cima de mim enquanto eu dormia. Não presenciei nada, apesar de ter. Acordei já de cabeça pra baixo, intacto. Intacto? O namorado da minha mãe ficou machucado, pois se arrastou por entre os cacos para me pegar. Intacto? Chorei no princípio. Chorei um pouco mais do que estou falando. Mas o choro não foi um choro comum. Foi um choro diferente. Um choro silêncioso. Respeitoso. Intacto? Algo, além de mim, capotou naquela noite. Um brincar de carrinho, pegar o carrinho com a vassoura. Acho que agora o meu carrinho tinha um novo motorista. Um pouco mais prudente. Ou não,

sábado, 22 de novembro de 2008

Comentário amigo sobre "Uma Brincadeira chamada Amigo"

Abro aqui um espaço para a interatividade. Pedi para meu amigo Diogo que escrevesse algo sobre o texto que publiquei aqui no blog "Uma Brincadeira chamada Amigo". Ele escreveu e aí está, na íntegra:

"Quando você pediu para que eu fizesse a crítica ao seu texto, uma dúvida tão logo veio-me à mente: por que tal texto, se há tantos outros. Foi só avançar um pouco na leitura para de imediato dar-me conta de que se tratava de um tema que tangencia toda a história que, de uma forma ou de outra, estará presente em meu curta. Isso tudo, é claro, com uma diferença básica: no caso do filme a maré parte de rios que possuem a mesma fonte; no caso da sua história, é o contrário: a maré separa o que não se une senão por acaso ou, o que a torna mais interessante, por inocência.Vou falar um pouco da forma do texto; e para fazer uma redundância necessária, comecemos pelo início. Ao modo de um argumento de um filme, você inicia o texto com uma data: 1994. De modo a conferi-la concretude, isto é vida e vivência, você faz apelos a extratos mnemônicos de ordem cognitiva. É o Leblon, é o Senna, é o Dragão Chinês. Mas não para por aí: logo em seguida trás – o que em minha opinião importa mais – as impressões sensíveis. Aí é o esfarelar com os pés, a surpresa das joaninhas (as fumigas), o charme, o efeito do sol, o que importa. Por meio dessas duas estratégias você reconstituiu o lugar.Depois de montado o cenário, você traz à tona a frase que vai permear toda a história: “a maré sempre leva, e a gente não percebe”. A própria história não deixa de ser, ela mesma, levada pela maré da memória, do afeto e da percepção. Aí entra um outro ponto em torno do qual a frase vai ganhar todo o seu sentido: a brincadeira ‘Amigo’. É pelo amigo, pela amizade (ainda que circunstancial e fugidia) ali criada, que a história nos leva à inocência infantil. Sim, o menino que hoje você “chamaria de pivete”, o que implica não apenas uma categorização da ordem dos fatos, mas um juízo de ordem normativa – o qual incute dentro de si uma série de atribuições pré-reflexivas atinentes à periculosidade do referente –, conseguia ser apenas um menino. A amizade implica, ainda que tacitamente, uma inocência, que engendra uma relação de incondicionalidade. O amigo, amigo mesmo, a gente aceita de modo intransitivo; e a criança é o ser que, devido a sua ainda não inculcação e incorporação dos padrões e taxionomias sociais, ainda consegue escapar ao que para um adulto é óbvio. Por isso, a criança é instrumental e utilitária: ela usa, por mera adequação, o que ela entende adequar-se ao que precisa; e ela também é amor: o amigo é aceito, e pronto.Só mais tarde, a gente aprende que o garoto é pivete. E que por ele podemos – sobretudo devemos – ter dois sentimentos: o asco e a pena. O problema é que isso não para por aí. Aquele menino também aprende que ele próprio é um pivete. Afinal, ele não é olhado apenas pelas crianças que com ele brincam de modo gratuito; os adultos também os vêem; e ele se vê através dos adultos. E não é senão por meio desse olhar que esse menino, o pivete, vai – também – ser conduzido. Agora o pivete cresceu, tornou-se efetivamente isso. O olhar o transformou, o transfigurou. E agora? A questão é perguntar: será que é possível ainda nutrir por esse menino afeto e consideração? Será que é possível buscar nele alguma complementaridade que não seja aquela da assimetria incutida pela pena? Se a justaposição dos dois corpos, do seu e do dele, ocorrerá novamente um dia, não sei. Fato é que acontecerá em outras circunstâncias.Agora é a hora de voltar ao meu curta. A história que ali eu apresento reflete de alguma formas duas trajetórias, uma certa continuidade de onde para sua história. Mas para não cair em um determinismo que a idéia da “maré que nos leva” pode deixar entender, vou tentar fazer pesar o outro lado, ou o mesmo, só que de outra forma. Aqui, fico com Sartre: o que vale a pena ser contado é o que cada um fez com o que a maré fez de vocês.
Abs.
Diogo."

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Uma brincadeira chamada "Amigo"

1994. Senna ainda estava vivo. A seleção, não me lembro bem, era tetra, ou não. O que eu me lembro é do Leblon. O Leblon tinha um charme, uma coisa praiana, picolé Itália de côco, com pedacinhos da fruta perto do palito. Tinha o cara do Dragão Chinês, com sua voz inconfundível. Tinha o cara das balas com o "teleque-teque", aquele pedaço de madeira com um metal que faz barulho. Eu morava pertinho da praia. Era um japonês moreno, ensolarado, quase um havaiano. O legal era brincar na areia e no mar. Gostava de pisar naquelas areias que ficam duras, quebradiças. Era gostoso, aqueles quadradinhos, tipo gelos de areia, para esfarelar com os pés e com as mãos, com a surpresa de talvez encontrar uma daquelas joaninhas de areia, que eu chamava de fumiga. Geralmente eu ia com a minha mãe. Mas gostava de ficar meio solto. Corria um pouco. Me perdia às vezes. Tinha que achar o salva-vidas, já chorando, com o coração na boca. É porque a maré sempre leva, e a gente não percebe. A melhor brincadeira era o "Amigo". Antes de falar sobre essa brincadeira, me lembrei de outra, que foi uma espécie de protótipo da "Amigo". Era uma espécie de videocassetada, tinha um apresentador de tv, que era eu mesmo, falando sobre o mar. Ele ficava um pouco antes de onde as ondas quebram, falando sobre o mar naquele dia. Como se fosse uma mulher do tempo dos telejornais, só que era um homem, falando das ondas. Fingindo que não estava vendo, ia falando que o mar estava tranqüilo, até ser engolido por uma onda, e levar caixote. Geralmente eu engolia areia. Em vezes mais extremas, levava uns arranhões. Era engraçado. Como se tivessem filmando aquele momento e flagraram um repórter sendo pego pelas ondas. Na época era engraçado. A brincadeira "Amigo" era semelhante. Mas tinha uma diferença crucial: necessitava de outra criança. De preferência, um menino de rua, ou pobre, mal vestido. Um daqueles meninos que hoje eu chamaria de pivete. Pois é, eu geralmente brincava com eles. Eram os que aceitavam brincar. Consistia no seguinte: ou eu, ou o outro, íamos para frente do mar. Esperávamos a onda chegar. Quando estivesse bem próxima, com o perigo inevitável do caixote, gritávamos: "AMIGOOOOOOOOOOOOOOO!!!". O que gritou tomava o caixote e, enquanto estava tomando-o, o outro que observava de longe teria que salvá-lo, como num resgate desses que se vê no cinema. Não me lembro muito bem o que acontecia depois. Mas sinto que depois de umas três ou quatro vezes ficávamos cansados. Sem se despedir direito, e talvez nem sabendo o nome do outro, cada um ia pro seu canto. Brincar na praia. Será que nos encontraremos de novo, "Amigos" diversos? Cruzaremos por uma rua dessas, seremos colocados numa situação extrema? Necessitaremos da ajuda um do outro? Uma coisa é certa: cada um foi para o seu lado. A maré sempre leva, e a gente não percebe.