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sexta-feira, 25 de junho de 2010

original é voltar às origens - estudo de poesia através do não-aprendizado

A primeira aula de poesia começou assim:
o professor entrou na sala cumprimentando os alunos
"adeus, tchau"
tirou do bolso um giz negro
e escreveu no quadro:
"NADA"
em letras garrafais e ilegíveis.

Sentou-se em pé
e perguntou:
"o que vocês estão lendo aqui?"

um nerd com dados de rpg nas mãos disse
"NADA!" e abriu um sorriso desprezível

ao que o professor:
"sai de sala
e sai da aula
você não está apto"

o nerd chutou os dados no chão
de raiva
e deu 6 - 6 - 6.

o professor perguntou, então, para a menina
cricri
chatonilda, aquelas cricri que responde tudo antes
ao que ela disse:
"está escrita uma palavra, fessor"
e abriu um sorriso sem mostrar os dentes
e fez o tique nervoso dela
que era piscar os olhos borboleteando.

o professor a expulsou também
ela saiu chorando
dizendo que ia processar a escola e o professor.

o professor tô nem ai.

até que por livre e expontânea avontade
um maluco doidão lá da turma
aqueles que não penteiam o cabelo
e toma banho só aos domingos
pra paquerar as moças
esse maluco levantou o braço altão lá
querendo responder o fessor.

"diga ae, aluno, sabe a resposta?"

"sei sim fessor"

"então, qualé?"

então o maluco se levantou pra dizer
como todos faziam para responder as perguntas
mas
simplesmente ficou calado.

é, calado. num falou porra nenhuma.

nesse instante a cabeça, o olho e o coração de todos os outros alunos
explodiu de gozo, de raiva, de medo, de fome.

o professor abriu um sorriso suburbano
e disse:

"você não deu a resposta. parabéns."
ao que se matou, pegando um poema e cortando sua garganta.

o aluno doidão
sozinho na sala
com os cadáveres
lembrou daquelas aulas de português do primário
onde falaram de uma tal antropofagia.
intão tá, comeu o célebro do fessor.
o olho de um colega seu cego
e o coração da menina que gostava.


foi assim que nasceu o primeiro poeta.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Exercício de poesia 3

vamos trabalhar a inspiração.

a inspiração tem 2 movimentos:
- o poeta se isola de si-mesmo.
- o si-mesmo se isola do poeta.

poeta é um bicho de -7 cabeças.
lhe faltam 7 cabeças.
lhe faltam mundos.
lhe faltam coisas.

si-mesmo é a sétima nota da escala musical.
é também um espelho de vidro enviesado engolido
que só reflete sombra.

pra se isolar de si-mesmo
o poeta tem que prender o seu canto num arame farpado
e deixar sangrar o líquido alcóolico de suas utopias
e de seus erros

deixar a palavra embriagada de nada.

para o si-mesmo se isolar do poeta
é preciso que o poeta adquira olhar de uma nota musical
de um canto
adquira vertigens de música
e passe a não ocupar lugar no espaço
passe a dançar conforme as poeiras em contato com o bafo do sol
passe a desrespeitar as normas da física newtoniana
e vestir uma máscara feita para desmostrar rostos
o poeta precisa se desensimesmar
para que o si-mesmo se isole dele

pronto.
agora, com a poema devidamente interminado,
será preciso deixar ele ao sol
secando
pegando um bronze
ouvindo os sonhos da cidade
como quem escuta mp3 na praia.

deixar o poema respirar pra dentro.

inspiração:

segunda-feira, 10 de maio de 2010

exercício de poesia 2

agora, vamos trabalhar a resistência ideológica.

- abra o jornal de amanhã.
- recorte a figura de um mendigo. (por favor, utilize palavras afiadas para a tarefa)
- cole na parede da sala, ao lado da televisão.
- pixe a palavra "FOME" por de cima da figura.
- vá até a geladeira e veja se tem comida.
- volte para a sala, e veja se a figura ainda está lá. (e se sorri ou chora)
- se estiver, experimente lançar um punhado de farinha, e ver se adere na imagem.
- se não estiver, mastigue a figura, sem bebida. (não vale juntar saliva)
- agora saia nas ruas de madrugada.
- tire fotos de olhos vermelhos. (com flashback)
- utilize o vermelho para trocar o seu sangue.
- agora durma, tentando lembrar de quando você foi ninado.
- pronto, agora que o o poema está devidamente inacabado, acorde de sol maior.

aquilo que você não lembrou precisa então, ser colocado num papel ou tela.

é preciso treinar todos os dias essa resistência.
treinar até se tornar irresistível.
ela dará fôlego para não desistir da poesia.
e não desistir de uma sociedade melhor.
e não desistir.
de existir
exit
ex
x

terça-feira, 4 de maio de 2010

exercício de poesia 1

a poesia também pode ser uma ginástica, ela também deixa em forma.
para ficar em forma de poesia, há muitos exercícios práticos, como uma ginástica.
deve ser praticada todo dia, 30 minutos, no mínimo.
na ginástica física, trabalham-se os grupamentos musculares, a resistência, a respiração.
na ginástica poética, trabalha-se, especificamente, o músculo cardíaco, a resistência ideológica e a inspiração.
começemos pela primeira série, dedicada ao músculo cardíaco:

- apaixone-se.
- feche os olhos e veja a cor que aparece.
- coloque a cor complementar a essa no papel ou na tela.
- masturbe-se.
- utilize seus fluidos para desenhar alguma palavra no papel ou na tela.
- descanse.
- depois de 3 dias, observe o papel ou tela, veja se algum inseto instalou-se ali.
- entreviste-o.
- anote as respostas em forma de canção popular.
- cante em voz alta na frente do espelho do banheiro.
- durma.
- assim que acordar, tente lembrar da canção.

pronto. o que você lembrou, os fragmentos mais memoráveis, podem ser descartados.
escreva o que você não lembra.
o exercício de poesia 1 está incompleto agora.

pode alongar o pensamento contando 20 segundos para cada lado.

o músculo cardíaco estará mais fraco para os próximos exercícios.