----------(resposta ao poema - http://limitedapalavra.blogspot.com/2009/02/onde.html )
----------No tempo em que estagiei na Ancine, apenas seis meses, o que mais me intrigava era a poesia. Foi pouco tempo mas tempo suficiente para muitas coisas. O prédio da agência está localizado em frente ao Palácio Gustavo Capanema, o marco modernista por onde sempre gostei de pegar uma brisa. Drummond trabalhou lá. O Ministério da Educação nos anos Vargas era baseado ali. Gostava de ficar imaginando como seria voltar ao passado e encontrar pelas esquinas do Rio, pelos bares do centro, os poetas que tanto admiro - Drummond, Vinícius, Murilo Mendes, Manoel de Barros (sim, o "poeta do pantanal" morou muitos anos no Rio), Gullar, Bandeira... - assim como o Woody encontrou em filme os seus ídolos no "Midnight in Paris".
----------Do meu escritório burocrático, do meu cubículo, a realidade só poderia fazer sentido não fazendo nenhum sentido, ou seja, através da poesia. Foi o período mais fértil poéticamente falando. Ou período mais prolixo (onde eu produzi e incentivei a produção de mais lixo). Escrevi em torno de 40 poesias por mês. A razão ou desrazão é simples. O trabalho era organizar planilhas no Excel, um típico trabalho de estagiário. Não havia nenhum desafio, nenhuma necessidade específica, nenhum requerimento intelectual. Talvez ensinando chipanzés a mexer no Excel, se sairiam melhor que os humanos - apenas, é claro, ofertando uma banana para cada planilha consolidada. Minh`alma de poeta não poderia se contentar com esse tipo de batente. Até porque a poesia precisa ser inútil. (Se bem que, pensando agora, todo burocrata do serviço público tem grandes chances de se tornar poeta - já que seu trabalho, em grande parte, se resume a buscar formas de não-trabalho, formas de ser inútil. Vai ver uma das razões de grandes nomes da literatura nacional pertecerem a esse tipo de emprego - Drummond, Vinícius, Guimarães Rosa, João Cabral... a lista continua).
----------Até que um dia, por incrível que pareça, realmente encontrei Drummond andando pelas ruas da Cinelândia. De início achei que apenas um sósia. Mas não. Era ele mesmo. O poeta por excelência. Aquele que a gente estuda no ensino fundamental e médio. O mundo mundo vasto mundo. O e agora josé. Drummond andava como quem procurava algo. Sem saber o que perguntar, como abordá-lo, apenas cutuquei seu ombro esquerdo, por sinal ossudo como conhecia em fotografias. Ele virou atordoado. Era ele mesmo. Perguntei se ele gostaria de tomar um chopp e conversar sobre poesia. Para minha surpresa, não só aceitou como mostrou-se animado para a conversa. Ou para o chopp. Eu disse que pagaria.
----------Foi então que todos os dias, eu encontrava algum poeta. Andando pelas ruas da Cinelândia, como o Drummond. E em cada encontro conversava sobre poesia, sobre o processo de cada poema, sobre o que inspira, o que é importante para o poeta... Eram conversas deliciosas. Aprendi muito nesse tempo. Ir para o trabalho já não era tão maçante, porque eu sabia que no fim do expediente, encontraria um poeta, tomaria um chopp com ele, e dividiria estórias, poemas, causos, coisa que sempre sonhei.
----------Vinícius era um grande parceiro. Fazia questão de pagar os chopps. Que eu tomava, já ele admirava um bom scotch. Fomos ao puteiro juntos. Nunca me esquecerei. Uma mulata, até bem bonita, sentou-se no colo do poeta. Cantou uma canção, supondo ser de Vinícius. Ele riu, e fingiu que era mesmo dele. Um verdadeiro poeta. Na saída, ele pegou na minha mão e disse: o melhor remédio para a dor é o whisky. o segundo melhor é uma mulher. o problema é misturar os dois. a dor fica maior.
----------Já com o Manoel foi diferente. A gente costumava pregar peças nos outros poetas. Coisa de traquinagem mesmo, criancice. Ele era um fanfarrão, mas muito tímido. Numa vez pusemos tachinhas na cadeira do João Cabral. Dizem que depois ele escreveu sobre o lance da palavra pedra. O Manoel gostava mesmo de brincar. Mas tímido que era, precisava de alguém como eu para concretizar o que imaginava, as artemanhas. Ficava olhando os cantos sujos da parede, atrás de lixos e conversa com mendigos e bêbados da rua. Gostava muito do Sêo Tonho - um bêbado que morava ali perto do Capanema. Costumava pagar uma pinga para ele, depois do expediente. Uma vez o poeta me disse: o Tonho é fazedor de mentiras. gosta de inventar coisas com o lixo para poder ser poeta. o Tonho é capaz de criar um automóvel a partir de uma lata. Ele até já se jogou na frente do bonde só para teatro. Ser artista é esse ato suicida.
----------Foram tardes e noites incríveis. Grande parte do que escrevo hoje é só de memória daquele tempo. Outro dia fui na Biblioteca Euclides da Cunha (BEC - que fica no Capanema) e achei um pequeno bilhete dentro de um livro bem velho do Drummond:
- "Pagar o chopp que devo para o Taiyo."
----------O poeta é um ser de princípios, po.
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domingo, 26 de junho de 2011
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Memórias 3
Me lembro de algumas coisas da festa da Paulinha no Clube Federal, Alto Leblon.
Estava todo mundo da escola. A gente chegou numa van. Foi mó zuera na van. Cantamos mamonas assassinas, andré-roubou-pão-na-casa-do-joão, jogamos papel na cabeça do outro. Era um dia bem quente de verão. O sol. A primeira coisa que eu me lembro é de que o clube era bem grande, com espaços amplos e que quando a garotada chegou saiu correndo e gritando e pulando pelas cercas e bancos que tinham na frente. Rolou um fute. Uma cabeçada tremenda, devia ter uns 25 dentro de um campinho de areia. O André, se não me engano, fez um gol, meio de perto do gol. Era muita engraçado, porque todas as meninas estavam jogando junto também, então era aquele negócio de ir uns 6 disputar uma bola, as meninas chutando as canelas de todo mundo e a gente rindo, dando drible da vaca ou ovinho nelas. Eu até fiz um gol. A bola veio rolando e eu chutei que nem um maluco, de antes do meio de campo. Foi gol. Vibrei e soquei o ar como pelé. Logo depois, numa correria danada, escorreguei e me ralei todo. A gente estava jogando sem camisa. Me ralei na areia. Mas tudo bem.
Depois eu me lembro da gente curtindo uma piscina. Era uma piscina bem grande e o sol batendo nela refletia uma luz e eu deitei numa dessas cadeiras reclináveis de plástico branco e peguei os óculos escuros de alguém emprestado, me sentindo um cara de filme americano, olhando as meninas em seus biquínis e, se não me engano, pensei ou falei alto ou baixo: ê vida ruim.
Aquela calmaria durou apenas alguns instantes, quando começou uma gritaria: alguém tinha pego o enchimento de algodão de alguma garota e elas começaram a brigar, puxar o cabelo, numa cena bonita de se ver, tão bonita que juntou todo mundo e eu até pensei na hora, poxa, bem que poderiam me dar um guaraná e uma pipoca aqui, estou no paraíso. Antes, quando eu tava nadando naquela piscina, bem que eu tinha avistado uns dois chumaços de algodão, mas não imaginava que aquilo era o enchimento de alguma menina. Impressionante né. Naquela época a menina ter peito grande nem era tão grande coisa assim para mim, para os meninos. Como representantes exemplares do pensamento masculino brasileiro, ainda éramos (e somos) adeptos da verdadeira paixão nacional: bundas e pernas.
Depois daquela confusão, me lembro de pouca coisa...O Bruno me mostrando como andar de skate. Deve ter rolado brincadeira tipo verdade-consequencia. Não lembro de mais outra coisa não.
O que ficou mesmo foi aquela sensação, de olhar pra piscina, num belo dia de sol, e pensar que, anos depois, eu mais velho, lembraria daquela imagem, daquele som, daquele cheiro, pensando:
ê vida ruim.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Memórias 2
Eu continuo bom no totó. Ou pebolim, nome científico. Mas na época da escola eu era mais treinado. O recreio estremecia quando se formava uma dupla forte pra caramba: o Sperling no gol e eu no ataque. (se bem que só o Sperling no gol já seria suficiente para ganhar, afinal, ele era o melhor na parada)
As regras podiam ser: normal ou "da rua".
Normal: não vale roletar. melhor de 3. gol de golero vale 2.
"da rua": vale tudo. inclusive roletar.
O lance de roletar era para previnir aqueles babacas apelões, do tipo que ficam mandando haduken sem parar no street fighter, ou que ficam em cima da linha da área da bandeira no pique-bandeira, ou o que fica guardando caixão em qualquer pique. Tinha uns muleques sem-noção que ficavam roletando direto e achavam graça. Roletar na frente do golero é sacanagem. Lembrei o nome de um, inclusive, mas não vou falar por motivos éticos.
O Sperling além de esculachador, gostava de tirar onda. Chegava perto da mesa, no começo do recreio:
- Ei, babacas. Eu só vou comprar um xis ali no zé, aproveitem ai, porque quando eu voltar vou ficar na mesa até acabar o recreio.
Filho da mãe.
E ficava. Era ótimo jogar no ataque com ele. Eu só precisava chatear as jogadas dos adversários, e, quando o Sperling dominasse a bola com o goleiro, eu esperava o chute dele e levantava todos os meus jogadores. Era gol, daqueles de cair a bola no chão. Não dava pra ver a porra da bola! Nego ficava chateado e o rodízio de de-fora ia rodando. Acabava o recreio e a gente ainda estava lá. O Sperling deixava o xis em cima da mesa e ia comendo. Eu também. Era legal. Tirava mó onda com as garotas. Nem tanto. Mas tirava.
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