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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

sentinelas da noite escondidos em nuvens

sentinelas da noite escondidos em nuvens
um silêncio afogando os prédios
cães em outro bairro debatem o tempo
mães em silêncio sonham no passado

gatos brigam na beirada de muros
algum grilo desaparece de si mesmo
no japão já é outro dia
coração ainda bate acelerado
era pra cidade dormir agora
mas os prédios insistem em sonhar

uma moça tira o sutiã
coloca o pijama
e desliga o computador

parece algum alarme de carro
lá no final da rua
ou será minha respiração?

nessa noite tão escura
escondem no asfalto preto dessa rua
um suave leito da visão

pareceu um navio atrás do morro
e nem estou dormindo
sonho acordado submerso em vida
ou a vida sonha com o verso findo?

escuto meu coração batendo fora de mim
nas paredes e no teto
bate também por entre os prédios
é com o coração que arquiteto

sonhos sólidos
metro a metro
até chegar

longe do perto



sábado, 18 de agosto de 2012

voa pensamento

vôa na madrugada um pensamento
passeando apressado
por entre acordes de piano
e cidadãos indo dormir

a cidade calma, serena, espera o sol
na solidão dos poucos carros
das luzes coloridas
dos papéis que se arrastam ao vento
um olho de gato brilha
um homem dorme envolto em papelão
meu coração se aproxima do mundo
como se fosse o próprio vento
um bafo de algo maior, mais profundo
mas é apenas o vento

o pensamento, voando
pousa de passagem
nas asas de algum sonho
que alguém deixou por sonhar
na beira da cama

parece um filme antigo
em preto e branco
mas não
é a própria história da humanidade
encarcerada na vontade de ser feliz
e de voar pensamentos
e num breve momento
o pensamento se olha em reflexo
e ri desse espelho maluco

a imagem se desdobra em relógios
pendurados no pescoço de santos
que se multiplicam na paisagem dormente
cercando a cidade num ataque aéreo
os ponteiros jogam pequenas bombas de tempo
e os segundos vão caindo
acordando os homens
e adormecendo as crianças
envelhecendo as mulheres
e as plantas que vivem em busca da luz

o pensamento não pára
e continua voando
seus olhos agora pesados
pestaneja, chega a dormir
e num sonho
parece que acorda ao som de acordes de piano

na madrugada uma sinfonia de luzes coloridas
e pequenos fragmentos do vento
de outros tempos, muito tempo atrás
vêm distorcendo a cidade, as ruas, os homens
os sonhos das crianças

andando no asfalto vazio
o pensamento vê uma asa cortada
metade de uma asa
metade de um sonho
sente um desconforto na coluna
e repara, é sua outra metade da asa

não é sangue que se esvai
é um rolo de filme mudo
envolto não pelo vento
mas por alguns acordes no piano
de algum sonho perdido
do século passado
o filme se desenrola em guerras em danças e músicas mudas
rolando ladeira abaixo na cidade
rolando ladeira abaixo no equador
dando a volta na Terra e se encontrando novamente com o pensamento
que se vê enrolado

mumificado em ser humano
condenado a ser livre

fica todo coberto
completamente submerso em ficção
até os olhos cobertos começarem a sonhar
as imagens
pequenos fragmentos de tempo
cortados como frases
que alguém balbuciou
em algum sonho
que alguém deixou por sonhar
na beira do mundo
na beira do dia
que já acorda a cidade
pronta para sonhar
com novas madrugadas
novos ventos
de tempos atrás

dorme o pensamento
mumificado em cotidiano
condenado a ser livre
pronto para sonhar
com novas madrugadas
novos ventos
tempos atrás




segunda-feira, 6 de agosto de 2012

lapso

eu achei o amor em todas as coisas
achei um mosquito numa garrafa de cerveja
os raios estão poesiando no céu em letras japonesas

segunda-feira, 2 de julho de 2012

estilo

escrevo com uma caneta de borracha. as letras vão apagando a realidade.
escrevo com a ponta do meu pênis. as letras ora gozam ora mijam os muros da cidade.
escrevo com uma corda bamba. as letras vão equilibrando sonhos nas mãos.
escrevo com um sorriso no rosto. as letras vão espalhando feijões na paisagem branca.
escrevo com você. as letras são nossos corpos numa dança invisível.
escrevo com o ar. as letras são nuvens ciganas.
escrevo com os pés. as letras são pegadas apagadas pelo mar.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

puro barato

percorro
teu corpo
palavra
escorrego
pela sala
num canto
do pescoço

esqueço
o tempo
sussurrando
vento
num fio
de cabelo
arrepiado

as mãos
assumem
o corpo
num toque
torto
enquanto
o mundo
gira
ao redor
da tua camisa
lisa
solta

espera
um pouco
o gozo
preso
solto
na ponta
da boca
morna

e morde
a carne
quente
na suave
violência
de tornar
o corpo
um só

envolve
o ar
num gesto
bruto
seiva
elaborada
com o nosso
suor

escorre
sujo
um sonho
fundo
um deus
de carne
um louco
som

e presa
na parede
como
presa
como
ventre
livre
dentro
como
a tua pele
e pêlo
ímpar

descreve
com o dorso
interroga
a curvatura
da cintura
com cintura
consentindo
em sufocar
o grito
gemido
ao dar

a cara
à tapa
a nádega
a faca
a esfera
ocular
o eclipse
lunar
a própria
terra
enterrada
em seu
gozar

espera
mais um
pouco
e eu já
rouco
arranho o
corpo
com os
dentes
enquanto
torce
a cama
o tempo
o espaço
sideral

invade
em movimento
vulcão de dentro
percorre o corpo
palavra
torto
invade o tempo
por entre as carnes
por entre as pernas
invade os mares
as primaveras
e vem de um tempo
que nem era tempo
e vem com força
invade a moça
transforma tudo
inventa um corpo
de um só corpo
inventa um som
maior que o om
inventa a espera
o esperma
fecunda a terra
inventa o verde
que não se perde
fazenda viva
inventa a vida
em forma vulva
e vem molhando
em seiva sangue sublimado
em sonho já sonhado
inventa um corpo em rima
em cima um do outro
se faz de outra
inventa ruas
por entre as pernas
e grita nua
palavras xulas
inventa a puta
se faz de muitas
inventa um jeito
se dá sem medo
entrega o seio
a minha língua
inventa rimas
e num crescendo
aumenta o ritmo
o corpo inventa
caminhos vivos
em meio a líquidos
e superfícies
descobre a pele
desperta vícios
alucinados
o olhar em branco
lençol molhado
o sol é lua
no céu nublado
o ventre uiva
a céu aberto
invade o músculo
em tempestade
inventa o corpo
e parte em arte
cada pedaço
teu corpo arde
em brasa fria
e na barriga
eu bebo e paro
avanço e bebo
o nosso oásis
até os pêlos
dos teus cabelos
invento redes
invento tardes
e deito e canso
descanso e deito
e durmo e acordo
e acordo e sonho
em tuas redes
invento o grito
do teu gemido
parece um mito
de muito tempo

...

agora dorme
agora pulsa
transborda tudo
e ri de tudo
inventa a carne rubra
até o umbigo
e vibra a nuca
em ondas livres
o corpo em pane
um tsunami
passou por dentro
agora dorme
agora pulsa
dragão mais lento
sorrindo leve
inventa um sono
inventa um corpo
agora sem corpo
agora livre
depois do ato

puro barato


sábado, 17 de março de 2012

um poeta morreu

soube que um poeta morreu. toda vez que morre um poeta nasce uma prosa. uma rosa no apartamento, ou no asfalto. em breve serei eu a morrer também. e você que está lendo (ou não) o que escrevo (ou não). assim como a morte é a certeza da vida, a poesia é a incerteza. a morte de um poeta é uma espécie de buraco negro.  suspensas as leis do universo, emanam-se do escuro infinito as leis do verso. como que cega, a noite tateia as montanhas. a cidade parece dormir. ao fundo, bem no fundo da paisagem, consigo ouvir os sonhos da cidade que dorme. uma sinfonia de lembranças, riscando o céu negro com perfumes doces. mais ao fundo, uma criança tem um pesadelo. tem medo de morrer. acorda seu pai, assustada. minha filha, tudo não passou de um pesadelo, vai dormir. o cão também dorme. sonha com pulgas e ossos. as pulgas do cão sonham com circos na china. a china está já acordada, no horário do almoço. um moço na china escreve um poema. desenha um poema com ideogramas. idéias sem peso. não há gravidade na china. e aqui está tão noite que as palavras também dormem. as palavras sonham com poetas.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Processo criativo - reflexões sobre fazer poesia (ou ser desfeito por elas)

A vontade de escrever não é necessariamente a vontade de poesiar.
Ela é no sentido de compartilhar com o mundo (primeiramente consigo mesmo)
um sentimento, uma sensação, um insight, algo completamente vago, ou concreto,
como atravessar uma rua ou pensar em deus.

Quando escrevo um poema, não há um processo único, pelo contrário.
Cada poema é um processo. E cada processo experimentado gera um poema.
Pode-se começar pelo poema, ou pelo processo do poema.
Quando digo começar pelo poema digo por uma frase. Geralmente é uma frase.
Às vezes imagens. Imagens precisam ser torcidas em palavras até sair um líquido
espesso chamado egosma. A gosma que é só minha.

Depois dessa frase, algo vai seduzindo a imaginação e a sensibilidade, em direção ao caminho que a poesia vai tomando.

A vontade de poesiar tem mais a ver com um momento de beleza, de silêncio, de iluminação.
Nem sempre temos um papel ou computador a mão. Nesses momentos, eu prefiro tirar fotografias mentais, para depois, observando-as com cuidado, elaborar os poemas como descrições objetivas de fotos que não tirei.

A questão básica de um poema, pra mim, é o seu impulso inicial.
Ele começa com um impulso, algo propulsiona a primeira leva de frases e versos.
É uma força que precisa ser incontrolável. No começo. Depois vai sendo domesticada pela
razão enviesada que é essa da releitura e reescrita dos poetas (que eu não tenho bem desenvolvida).

Algo que me persegue é essa minha voz interna ditando as poesias para mim enquanto escrevo.
Essa voz é de um ator teatral, interpretando o texto, que eu psicografo de mim mesmo. O ator sou eu também, assim como o público que está ouvindo.

Às vezes um poema vem como canto, ouvimos a melodia dele. Nesse caso, o trabalho maior é não perdê-la da memória e ir inventando harmonias com as palavras para compor o resto da música.

Tenho uma mania de terminar com frases fortes, de efeito, algo com cara mesmo de conclusão.
Deve ser mania de quem pensa dramaticamente os textos. Finais cíclicos são interessantes, mas geralmente são melhores quando fecham o ciclo um pouquinho diferentes de como o abrem. Não sou muito fã de poemas bem estáticos, onde não há transformação. Nesse caso, sigo o jodo quando diz que a arte tem que ser um remédio e não um veneno. Mesmo que o remédio seja amargo e mostre a miséria do mundo.

Quem diz não conseguir fazer um poema está mentindo.
Não se consegue fazer um poema.
O poema, a poesia, fazem-te.

Portanto o problema principal dos que dizem não serem poetas, ou não terem coragem de mostrar os escritos é uma vaidade tremenda: acham que estão construindo, quando na verdade estão sendo fecundados.

É preciso se fazer mulher para poesiar. Alargar o ventre e a vagina para as palavras duras entrarem e jorrarem seus prazeres. Todo o poeta é meio viado.

Já tentei muitos processos de fazer poema, e continuo tentando.
Pensar em estruturas musicais.
Pensar em linguagem cinematográfica.
Pensar em alegorias.
Pensar em ponto de vista.
Pensar holisticamente.
Pensar em não pensar.

A poesia é um labirinto. Que não tem centro. Nem saída.
O desafio é continuar tentando não sair desse labirinto.

Descobrir a paz de ser
que a passagem de um estar

não procuro saída para a poesia.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

primeiro homem

em algum momento
o primeiro homem do mundo
fez um poema
e tudo foi partindo dali
a energia
condensada num gesto
desforme primavera
espalhando sêmen
nas coisas primitivas
e trazendo deus
no florescer das estações

e desse vento
vindo vivo vasto e verbo
inventou a primeira mulher
já com lágrimas
sexo
e perdão

essa mulher era ele mesmo
fantasiado de real
era seu próprio sonho
acordado
era de sua carne
intocável
era eva
hera
erva
feita do mais puro negro
de de dentro de si mesmo
uma sombra com luz

e quando os gestos se completaram
a incompletude do humano
em ambos
fez-se divindade

e nasceu o sol

e uma flor

e eu sorri

sábado, 7 de agosto de 2010

Paraty

Não sou Manoel de Barros.
Não posso ser Manoel de Barros.
Não posso querer ser Manoel de Barros.

À parte isso, tenho em mim sonhos molhados de peixes e vaginas.

Queria ter 7 anos, mas tenho.
Admiro cães vadios que se lambem sem dar bom-dia.
Sou irresponsável para ser vadio.

Poesia pra mim já nasce com recheio de minhas porcarias.
Seria preciso enxugá-las com minha reza e meu orgasmo.
Mas tenho preguiça de não fazê-lo.
Acabo começando sem começos, como aquele mágico decadente tira papel infinitamente da boca: sou prolixo e pró-lixo.

Ontem me chamaram de prolixo.
Chorei
de emoção.
Os poetas que eu mais admiro sempre foram profissionais de lixo:
são os maiores consumidores daquilo que a civilização descarta.

Prefiro um cão que um fernando henrique cardoso.
Prefiro um doido sem botas que um acadêmico.
Prefiro um churros no chão que um charuto cubano.

Palavra que não se faz de trouxa não merece meu desrespeito verbal.
Eu gosto quando elas vem rebolando, se insinuando todas, mexendo seus quadris silábicos.
As palavras são assanhadas para poema.
As imagens roçam suas vergonhas em mim procurando acasalar com minhas palavras duras.
Eu só digo sim.
Sou facinho pra poema.

O silêncio que vem de mim fica cantando música caipira numa viola sem corda.
(talvez por isso eu fico rouco)

Não posso fugir dos seres que não sou.
Só me resta recolher na beira de meninas os amores que perdi
e fazer um pequeno barco de papel para conquistar cangotes e américas.

Não posso fingir que me sou.
Palavra de poema é quase de teatro: tem que ser ridícula pra falar de amor
e tem que amar a vida pra falar de tragédia.
Quem não tem rima só pode rir de si mesmo.



sexta-feira, 25 de junho de 2010

original é voltar às origens - estudo de poesia através do não-aprendizado

A primeira aula de poesia começou assim:
o professor entrou na sala cumprimentando os alunos
"adeus, tchau"
tirou do bolso um giz negro
e escreveu no quadro:
"NADA"
em letras garrafais e ilegíveis.

Sentou-se em pé
e perguntou:
"o que vocês estão lendo aqui?"

um nerd com dados de rpg nas mãos disse
"NADA!" e abriu um sorriso desprezível

ao que o professor:
"sai de sala
e sai da aula
você não está apto"

o nerd chutou os dados no chão
de raiva
e deu 6 - 6 - 6.

o professor perguntou, então, para a menina
cricri
chatonilda, aquelas cricri que responde tudo antes
ao que ela disse:
"está escrita uma palavra, fessor"
e abriu um sorriso sem mostrar os dentes
e fez o tique nervoso dela
que era piscar os olhos borboleteando.

o professor a expulsou também
ela saiu chorando
dizendo que ia processar a escola e o professor.

o professor tô nem ai.

até que por livre e expontânea avontade
um maluco doidão lá da turma
aqueles que não penteiam o cabelo
e toma banho só aos domingos
pra paquerar as moças
esse maluco levantou o braço altão lá
querendo responder o fessor.

"diga ae, aluno, sabe a resposta?"

"sei sim fessor"

"então, qualé?"

então o maluco se levantou pra dizer
como todos faziam para responder as perguntas
mas
simplesmente ficou calado.

é, calado. num falou porra nenhuma.

nesse instante a cabeça, o olho e o coração de todos os outros alunos
explodiu de gozo, de raiva, de medo, de fome.

o professor abriu um sorriso suburbano
e disse:

"você não deu a resposta. parabéns."
ao que se matou, pegando um poema e cortando sua garganta.

o aluno doidão
sozinho na sala
com os cadáveres
lembrou daquelas aulas de português do primário
onde falaram de uma tal antropofagia.
intão tá, comeu o célebro do fessor.
o olho de um colega seu cego
e o coração da menina que gostava.


foi assim que nasceu o primeiro poeta.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Parábola do Cágado e do Elefante

............................................................texto da mitologia tailandesa encontrado dentro de uma ostra
............................................................parte do texto se perdeu ao longo do tempo
............................................................devido a ação das marés e de poetas.
............................................................recompilo aqui os trechos que consegui ler por ilegíveis.
............................................................as palavras que aqui não estão serviram de alimento para
............................................................pérolas escuras, de tão puras.

............................................................havia também uma ilustração junto com o pergaminho
............................................................onde o texto era exemplificado, e onde se pode ver
............................................................perfeitamente nada. foi elaborado pelos cagos de peixes.
............................................................coloco, em anexo ao final, na íntegra, a ilustração.*


um cágado atravessa uma auto-estrada.
sentado em seu casco, um elefante toca tuba.
a música reorienta o ritmo do cágado,
que passa a correr bem devagar.

ao tropeçar num edifício por engano,
o cágado capota, lançando o elefante e sua tuba
que entram numa carona de um caminhão
enquanto o cágado, imóvel, com o casco no asfalto,
fica preso na sua visão livre
do mundo ao contrário.

balançando as patinhas, desesperado, o cágado
só enxerga elas pisando os céus azuis
e pensa estar se afogando
naquele mar.

o elefante, a salvo, com sua tuba,
toca, então, um requiem bem bonito
para aquela morte imaginária.



*Ilustração:

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sábado, 1 de maio de 2010

Precisão poética

preciso pegar uma imagem e torcer em palavra.
até sair água suja.
até chover.
até fazer sol.
até fazer som.
até ontem.

depois, preciso relembrar o amanhã.
com uma navalha imaginária
tecer o corte de um sorriso
nos olhos fechados do leitor.

até sair sombra.
até sair samba.
até entrar sonho.
até nunca menos.

finalmente, preciso
imprecisar as não-coisas
com poesia, vírgula: dois pontos
e sonhar concretamente
sonhos feitos de
nada (............. ).

domingo, 25 de abril de 2010

Exercício de Desentranhamento da Vida - 1 (sem revisão)

pessoas elaboram fazendas
fazendo poemas de coisas pequenas
enquanto o sol se põe
e põe na memória um desejo

poemas fazem pessoas
na minha cabeça
nascem bebês rindo

foi nas paredes da escola?
foi nas paredes da creche
escalar os muros da memória
e morrer um centímetro a cada salto

seria preciso desenverter os fatores do tempo
pular e pular e pular a cada invento
cada brincadeira dança das cadeiras
dança

eu te vejo com olhos abertos e mãos desembaraçadas
girando no pátio
segurando um sanduiche
driblando as minhas promessas de juventude

cachorro quente
a gente foi feito num jogo
onde o vencedor num tem

a moça do cachorro quente
a moça da cantina
a fala errada
silêncio lambuzando nossas mãos
saudade gritada com uniforme suado
você me olhando de lado
enquanto o beijo se possuia

era você ou era ela
era menina era mulher
pegar a areia com as mãos
pegar nas mãos cobertas de incertezas
e fabricar sonhos sólidos

eu só queria a lua
o sol
as estrelas

você só queria um beijo
uma transa
uma gozada
duas gozadas
três gozadas

teus olhos filmam o meu tato
fogo fato feto filosofia fado
virgem sem vírgula
vagina aberta insígnia
virgo

as palavras percorrem o sangue
derretido
seria um gosto de sol
uma fibra do coração
involuntariamente
sentido

você explodiu a minha cabeça
jimihendrix na guitarra preta e branca
volume máximo de volúpia
grita e geme e grita e geme e pula e treme
e trina o canto o canto da boca e louca e brusca
a buça ofusca a fuça a tua música e minha musa
a brisa nua que a janela refletia
em teu seio surdo aos meus apelos
e pelos e pulgas
e primas sinas e sonhos

quero ver o teu sorriso encharcado de sol

era na holanda era?
ou era a tua dança solitária no quarto escuro de olhos fechados e mudos
era uma flutuação dos planos
era um engano na tarde sangria
o sol mijando na cidade
e cidade inteira dormia

briga de galo na piscina
na vagina
na piscina da casa da amiga
briga de galo com as mãos nas coxas
ainda moças ainda nossas
ainda roxas de frio de calor de calafrio
eu apalpava tuas carnes
e vocês nem gemiam ainda
briga de galo e de galinhas
espumas flutuantes dentro das pequenas fotografias
minhas mitologias
briga de galo
festa de gala
poesias
ice kiss na janela da sala e professora velhinha
a gente escondia os sorrisos dentro de papéis de bala
e ficava apertado não mijar na sala

paredão solidão
no pátio de baixo eu pari um jogo
no mesmo lugar que você perdeu o jogo
no mesmo lugar que eu dormia no chão
no mesmo chão que você corria descalça
na mesma calça que sua bunda enchia
na mesma companhia de sempre e de nunca
no mesmo nunca de sempre

fernando pessoa pegando fogo com o pau na mão na sala de estar
previnindo a todos de que ele não estava lá
nem era ele nem o eu lírico
era um espírito
um fantasma edifício
apaixonadamente eu mordo o teu poema
e sinto o sangue palavral fluindo e escorrendo no meu corpo aberto
em pus em porra em pintura pollockiana
ferocidade ferro cidade pelo cimento desse poema vou construir uma revolução

nem a bíblia nem a história
foi a poesia que trouxe o big bang
um universo numa casca de nós mesmos
filho da puta do pessoa
das pessoas todas
que usaram esse corpo português feito de mitos mentiras e palavras
eu te soco
e te estupro lentamente
como quem escreve um poema com prego nos dentes

fogo muito fogo
era quando aquela
menina
a gente se via se comia
no play do prédio no play da peça na brincadeira de criança adulta
explorar os sentidos
ver com olhos ouvir com as mãos

nos plays das festas americanas
os passos se impregnavam das lembranças
das crianças que a gente iria ser quando senhoras e senhores
aqui estão todas as suas dores
aqui é o lugar de expôr as promessas do mundo
todas as memórias todas as mulheres do mundo
na pista de dança

seria uma coreografia
uma geografia nua
não consigo ouvir
não consigo escutar de tanta música
não consigo entender quem eu sou que você é
quem você somos
quem somos eu

seria uma coreografia nossa
o que dançamos embriagados pelo vento de maio
destruidos pelo fogo do inferno
pelo rock
pelados

eu assustei você de tanto eu
mas pode abrir os olhos agora
o mundo acabou
somos só simplesmente os mesmos

crianças aprendendo a nascer

sexta-feira, 5 de março de 2010

o menino

naquele tempo de mandar papelzinho de bala ice-kiss
e escrever recados num pedaço de caderno
você sorria

jogava paredão

se escondia nas pilastras

se jogava no chão e
chegava com o uniforme todo sujo de chão

no pátio da goiabeira
falar besteira
lutar kung-fu com flauta-doce
e apertar as bundas das meninas

pedia um xis do zé
que alguém até um dia encontrou uma piaçava de vassoura

dançava o claudinho e buchecha fazendo elefantinho com os braços pulando
como um doido

dançava música lenta nas festinhas
com o rosto colado
mas vergonha de beijar

escrevia poesias metafísicas de alto-nível
e teorias revolucionárias para mudar o mundo
enquanto algum professor
explicava a teoria de báscara

tocava a música do titanic no teclado
para impressionar as meninas
que gostavam do leonardo dicaprio

aliás, no bate-papo da uol
todos os meninos eram Jack
e as meninas Rose

mas ninguém sabia o que era cu


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Felina

deita na cama
estica o corpo
vira e me chama
com olhar torto
joga o cabelo
gira os quadris
faz um gelo
pede bis
deita e aproxima
puxa meu braço
mia em rima
ri do que faço
vira de costas
puxa o lençol
sei do que gostas
puxo o anzol
arranha meu peito
torce o pescoço
vira de um jeito
arrepio no dorso
contorce e me quer
mia um pedido
felina mulher
que dorme comigo

domingo, 10 de maio de 2009

Mãe

Saí do seu ventre
para entrar para a História
você é o começo da minha memória

Fiquei na sua barriga
comendo a sua comida
sem ajudar na conta

ouví o que você ouvia
sentí o você sentia
e até sonhei seus sonhos

nosso coração bateu junto
no pulso da nossa alegria
de meu vir-ao-mundo

às vezes quando te vejo
percebo que você se vê
no meus (teus) olhos

às vezes quando sinto medo
eu guardo um pequeno segredo:
chamo o teu nome baixinho

desculpa se não comprei presente caro
não foi falta de carinho
sou apenas um estagiário

pra mim também só tem sentido
se o presente for sentido
como um poema espontâneo (especialmente criado)

você me deu a luz
nos sentidos infinitos dessa palavra
espero dar-te, então

o brilho dos meus olhos
ao viver na tua sombra

quarta-feira, 6 de maio de 2009

As Meninas

no fundo do ônibus da escola
você me pediu pra namorar com você
eu perguntei:
- o que que eu preciso fazer?
você me falou:
- ah, a gente tem que andar de mão dada, e você me dar presente.
- então tá.

desde aquele dia
aquele dia de sol que cega a gente de tão sol
as meninas não eram mais meninas

eram coisas que queriam que a gente fizesse alguma coisa
pra ficar junto delas

um ano depois
dentro da cabine do banheiro da escola
uma outra me deu um beijo na boca
as amigas dela subiram nas privadas
das cabines ao lado
pra olhar

cinco segundos depois
a menina e as amigas tinham ido embora
e eu lá

acho que eu to parado
naquela cabine do banheiro
até hoje

tentando entender
as meninas

terça-feira, 24 de março de 2009

Quântica

você caminha na calçada:
a cidade improvisa um jazz
com seu corpo

goza a catarse dos teus cadarsos livres
você pula um cocô de cachorro
com a plasticidade de um Nijinski

e quase não toca os pés no chão
nem de força, nem de suavidade:
é pura juventude

o tempo brinca de esconde-esconde
nos intervalos de seus saltos
no terreno entre teus seios
o desequilíbrio do mundo se ajusta
e eu perco o juízo das coisas

as ruas fazem um solo de silêncio e luz
a noite escorrega na tua camisa
o movimento, não conseguimos medir

sem alterar

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Onde?


abro a janela do escritório

e vejo o palácio antigo

e ainda moderno

por onde andaram poetas

poetas-burocratas

e penso


será preciso estar preso

nos afazeres de Estado

para atingir o estado fértil

de poesia libertária

do espírito

já que o corpo

reitera o escritório

e papéis?


daqui de cima a cidade

anda formiga

corre brinquedo

e a cabeça-coração

voa poesia


onde andam os poetas?

que mistificavam a cidade

os bares, os chopes

onde andam os poetas?

a cidade precisa de vocês

eu preciso de vocês

mas parece que todos morreram

fugiram, não nascem mais poetas?


poetas públicos

poetas de Estado

de terno e gravata

discutindo poesia

na hora do almoço


vejo o palácio antigo

por onde Drummond deve ter escrito

"A Rosa do Povo", e outros

vejo e me sinto só

dentro desse escritório

com olhar-condicionado

que às vezes escangalha


sinto falta daquele tempo

que não vivi

tempo de partido

de homens partidos em dois

poetas/burocratas

redigindo as leis flexíveis da poesia

e fazendo poesia de atos administrativos


devia existir algo no ar

que instigasse esses homens

algum impulso tremendo

alguma poesia

algum claro enigma

alguma libertinagem

algum eu


o tempo devia ser mais amplo

como a arquitetura moderna

do palácio que vejo na janela

o tempo devia fluir sereno

embora para os poetas

essa noção fosse impossível


só há contemporaneidade

os poetas falam no presente

a poesia é no presente


mas sinto saudade nas paredes

vejo fantasmas que aparecem depois

somem, e alguns papéis voando no

vento que o os carros alimentam

vejo os vultos mas eles fogem de mim


é um paradoxo temporal

se eu tocar-lhes

a poesia sofre o risco de desaparecer

assim como cada lambe-lambe

assim como o retrato do Getúlio

o poema-pílula esquecido

em cima da mesa do bar

escrito em guardanapo


não procuro mais a poesia

aprendi com os senhores

procuro os poetas

cadê poetas?

poetas? poetas?


os camelôs estranham

aquele garoto magro e míope

correndo maratona, pulando lixo

e gritando a plenos pulmões:
poetas! poetas!


e mais ali na frente

esbarra num mendigo

que dorme e sonha

com um prato de comida

cai, tomba, aplica o rolamento de judô

quebra o prato do sonho

quebra o aro do óculos


e vê o mundo distorcido

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Dentro

Tenho o corpo mortal
mas algo dentro de mim sonha.
Sei o que é o bem e o mal
mas fabrico diariamente um veneno
aplico-me peçonha.

É um vício matinal
e algo dentro de mim, sombra.
Espelho de faces, um portal
por onde entro grande, saio pequeno
uma outra pessoa.

Sou um descendente
do primeiro vivente
que questionou as coisas

sou um parente
do primeiro poeta
que apontou a Lua

tenho o corpo mortal e isso não me incomoda
as coisas passam, mas sonhos persistem
por que eu teria medo e por que seguiria moda
se as coisas passam, mas os sonhos persistem?

Tenho o sonho imortal
de amar você, simplesmente
sem discurso e sem moral
no decurso dos rios da gente
sem final

Meu corpo é de carne
que apodrece: não-poema.
Sou torpor, e cantar-me
só pode valer a pena