Mostrando postagens com marcador memórias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador memórias. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Memórias 3

Me lembro de algumas coisas da festa da Paulinha no Clube Federal, Alto Leblon.
Estava todo mundo da escola. A gente chegou numa van. Foi mó zuera na van. Cantamos mamonas assassinas, andré-roubou-pão-na-casa-do-joão, jogamos papel na cabeça do outro. Era um dia bem quente de verão. O sol. A primeira coisa que eu me lembro é de que o clube era bem grande, com espaços amplos e que quando a garotada chegou saiu correndo e gritando e pulando pelas cercas e bancos que tinham na frente. Rolou um fute. Uma cabeçada tremenda, devia ter uns 25 dentro de um campinho de areia. O André, se não me engano, fez um gol, meio de perto do gol. Era muita engraçado, porque todas as meninas estavam jogando junto também, então era aquele negócio de ir uns 6 disputar uma bola, as meninas chutando as canelas de todo mundo e a gente rindo, dando drible da vaca ou ovinho nelas. Eu até fiz um gol. A bola veio rolando e eu chutei que nem um maluco, de antes do meio de campo. Foi gol. Vibrei e soquei o ar como pelé. Logo depois, numa correria danada, escorreguei e me ralei todo. A gente estava jogando sem camisa. Me ralei na areia. Mas tudo bem.
Depois eu me lembro da gente curtindo uma piscina. Era uma piscina bem grande e o sol batendo nela refletia uma luz e eu deitei numa dessas cadeiras reclináveis de plástico branco e peguei os óculos escuros de alguém emprestado, me sentindo um cara de filme americano, olhando as meninas em seus biquínis e, se não me engano, pensei ou falei alto ou baixo: ê vida ruim.
Aquela calmaria durou apenas alguns instantes, quando começou uma gritaria: alguém tinha pego o enchimento de algodão de alguma garota e elas começaram a brigar, puxar o cabelo, numa cena bonita de se ver, tão bonita que juntou todo mundo e eu até pensei na hora, poxa, bem que poderiam me dar um guaraná e uma pipoca aqui, estou no paraíso. Antes, quando eu tava nadando naquela piscina, bem que eu tinha avistado uns dois chumaços de algodão, mas não imaginava que aquilo era o enchimento de alguma menina. Impressionante né. Naquela época a menina ter peito grande nem era tão grande coisa assim para mim, para os meninos. Como representantes exemplares do pensamento masculino brasileiro, ainda éramos (e somos) adeptos da verdadeira paixão nacional: bundas e pernas.
Depois daquela confusão, me lembro de pouca coisa...O Bruno me mostrando como andar de skate. Deve ter rolado brincadeira tipo verdade-consequencia. Não lembro de mais outra coisa não.
O que ficou mesmo foi aquela sensação, de olhar pra piscina, num belo dia de sol, e pensar que, anos depois, eu mais velho, lembraria daquela imagem, daquele som, daquele cheiro, pensando:
ê vida ruim.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Memórias 2

Eu continuo bom no totó. Ou pebolim, nome científico. Mas na época da escola eu era mais treinado. O recreio estremecia quando se formava uma dupla forte pra caramba: o Sperling no gol e eu no ataque. (se bem que só o Sperling no gol já seria suficiente para ganhar, afinal, ele era o melhor na parada)

As regras podiam ser: normal ou "da rua".

Normal: não vale roletar. melhor de 3. gol de golero vale 2.

"da rua": vale tudo. inclusive roletar.

O lance de roletar era para previnir aqueles babacas apelões, do tipo que ficam mandando haduken sem parar no street fighter, ou que ficam em cima da linha da área da bandeira no pique-bandeira, ou o que fica guardando caixão em qualquer pique. Tinha uns muleques sem-noção que ficavam roletando direto e achavam graça. Roletar na frente do golero é sacanagem. Lembrei o nome de um, inclusive, mas não vou falar por motivos éticos.

O Sperling além de esculachador, gostava de tirar onda. Chegava perto da mesa, no começo do recreio:
- Ei, babacas. Eu só vou comprar um xis ali no zé, aproveitem ai, porque quando eu voltar vou ficar na mesa até acabar o recreio.

Filho da mãe.

E ficava. Era ótimo jogar no ataque com ele. Eu só precisava chatear as jogadas dos adversários, e, quando o Sperling dominasse a bola com o goleiro, eu esperava o chute dele e levantava todos os meus jogadores. Era gol, daqueles de cair a bola no chão. Não dava pra ver a porra da bola! Nego ficava chateado e o rodízio de de-fora ia rodando. Acabava o recreio e a gente ainda estava lá. O Sperling deixava o xis em cima da mesa e ia comendo. Eu também. Era legal. Tirava mó onda com as garotas. Nem tanto. Mas tirava.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Memórias 1

Inauguro hoje, dia 17 de dezembro de 2009, uma espécie de autobiografia de coisas que eu lembro, e de lembranças inventadas. Se você leitor quiser saber ao certo a veracidade desses fatos e memórias, só posso responder citando o Manoel de Barros: “só dez por cento é mentira: o resto é invenção.”.

Uma das minhas lembranças mais remotas e a sensação de tocar na areia pela primeira vez. Não sei se é uma lembrança da sensação ou se é apenas uma sensação imaginada pelo jeito que minha mãe contou o ocorrido.

Era um dos meus primeiros dias numa creche, quando decidiram me mostrar o parquinho, onde tinha aqueles brinquedos e o chão todo de areia. Pensando hoje, parece que a areia é uma forma de evitar que as crianças se machuquem ao cair. Uma boa idéia. Pois sempre caem, é inevitável.

Eu devo ter pisado na areia e estranhado. Que coisa esquisita...o chão agora não é duro como os outros chãos...Deve ter sido curioso. E com aquelas perninhas tortas eu tentei andar um pouco na areia.

Pelo pouco que me lembro, eu devo ter estranhado tanto, que decidi sentar na areia e analisar aquele chão esquisito, com as minhas próprias mãos, numa atitude claramente experimental, de um futuro homem da ciência, instigado pelo conhecimento. Exagerei um pouco, mas ficou legal. É melhor guardar as imagens e sons com um pouco de exagero nas partes legais, nas partes que animam. Juntando tudo, a vida parece mais viva na memória.

----------------------------------------------------

Quando eu fiz 13 anos decidi mudar minha vida completamente. Já não era mais o mesmo Taiyo. Ou não queria ser. Definitivamente, estava entrando na adolescência. O primeiro passo foi na escolha do presente de aniversário.

Fui para uma livraria dessas enormes que vendem de tudo, direto para a seção de música, cds, dvds. Já tinha algo em mente. Dois cds: um do Jimi Hendrix que eu tinha lido sobre na revista Playboy, e outro do Black Sabbath...acho que era Black Sabbath ou AC-DC.

Segurei os cds nas mãos, todo confiante, e peguei uma daquelas maquininhas para tocar e ouvir o disco no fone de ouvido. Epifania: sem saber, deixei o volume no máximo. Sorte ou não (nada é por acaso), a primeira música do disco do Hendrix começava justamente com uma porrada na guitarra, uma palhetada forte pra cacete, muito alta e distorcida.

Aquele som fudeu qualquer neurônio da criança que existia em mim.

No natal, pedi uma guitarra:

“Igual a do Jimi Hendrix”.

Agora sim, a criança estava morta, e um longo período conhecido como adolescência estava para começar, com muito rock (Hendrix, Sabbath e Zepellin, drogas (guaraná, açaí e paçoca) e sexo (solitário). É triste mas é alegre.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Uma brincadeira chamada "Amigo"

1994. Senna ainda estava vivo. A seleção, não me lembro bem, era tetra, ou não. O que eu me lembro é do Leblon. O Leblon tinha um charme, uma coisa praiana, picolé Itália de côco, com pedacinhos da fruta perto do palito. Tinha o cara do Dragão Chinês, com sua voz inconfundível. Tinha o cara das balas com o "teleque-teque", aquele pedaço de madeira com um metal que faz barulho. Eu morava pertinho da praia. Era um japonês moreno, ensolarado, quase um havaiano. O legal era brincar na areia e no mar. Gostava de pisar naquelas areias que ficam duras, quebradiças. Era gostoso, aqueles quadradinhos, tipo gelos de areia, para esfarelar com os pés e com as mãos, com a surpresa de talvez encontrar uma daquelas joaninhas de areia, que eu chamava de fumiga. Geralmente eu ia com a minha mãe. Mas gostava de ficar meio solto. Corria um pouco. Me perdia às vezes. Tinha que achar o salva-vidas, já chorando, com o coração na boca. É porque a maré sempre leva, e a gente não percebe. A melhor brincadeira era o "Amigo". Antes de falar sobre essa brincadeira, me lembrei de outra, que foi uma espécie de protótipo da "Amigo". Era uma espécie de videocassetada, tinha um apresentador de tv, que era eu mesmo, falando sobre o mar. Ele ficava um pouco antes de onde as ondas quebram, falando sobre o mar naquele dia. Como se fosse uma mulher do tempo dos telejornais, só que era um homem, falando das ondas. Fingindo que não estava vendo, ia falando que o mar estava tranqüilo, até ser engolido por uma onda, e levar caixote. Geralmente eu engolia areia. Em vezes mais extremas, levava uns arranhões. Era engraçado. Como se tivessem filmando aquele momento e flagraram um repórter sendo pego pelas ondas. Na época era engraçado. A brincadeira "Amigo" era semelhante. Mas tinha uma diferença crucial: necessitava de outra criança. De preferência, um menino de rua, ou pobre, mal vestido. Um daqueles meninos que hoje eu chamaria de pivete. Pois é, eu geralmente brincava com eles. Eram os que aceitavam brincar. Consistia no seguinte: ou eu, ou o outro, íamos para frente do mar. Esperávamos a onda chegar. Quando estivesse bem próxima, com o perigo inevitável do caixote, gritávamos: "AMIGOOOOOOOOOOOOOOO!!!". O que gritou tomava o caixote e, enquanto estava tomando-o, o outro que observava de longe teria que salvá-lo, como num resgate desses que se vê no cinema. Não me lembro muito bem o que acontecia depois. Mas sinto que depois de umas três ou quatro vezes ficávamos cansados. Sem se despedir direito, e talvez nem sabendo o nome do outro, cada um ia pro seu canto. Brincar na praia. Será que nos encontraremos de novo, "Amigos" diversos? Cruzaremos por uma rua dessas, seremos colocados numa situação extrema? Necessitaremos da ajuda um do outro? Uma coisa é certa: cada um foi para o seu lado. A maré sempre leva, e a gente não percebe.