a cada três esquinas encontro a mim mesmo
nesse mundo e no outro
cada descoberta de América é um segredo
um mar entre os rostos
as cores explodem na minha boca
e começo a cantar uma dança
escrita nas paredes da escola
um, dois, três milênios atrás
o sorriso da mona lisa no estandarte
aparece com um feijão no dente
com a miséria do mundo
nos dentes
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
terça-feira, 25 de agosto de 2009
aprendi como se é preso
em filmes
bebi coca cola
e decorei as paisagens de nova iorque
em todas as décadas
corrijo na rua um assalto amador
com os movimentos que aprendi
de bandidos
dos estados unidos
sei jogar beisebol
e cantar o hino que o jimi hendrix tocou em woodstock há
40 anos atrás
uso jeans
do james dean
e gosto de samba de raiz
em filmes
bebi coca cola
e decorei as paisagens de nova iorque
em todas as décadas
corrijo na rua um assalto amador
com os movimentos que aprendi
de bandidos
dos estados unidos
sei jogar beisebol
e cantar o hino que o jimi hendrix tocou em woodstock há
40 anos atrás
uso jeans
do james dean
e gosto de samba de raiz
sábado, 22 de agosto de 2009
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
"A vida é um ringue onde não há oponente mais forte que a sua própria sombra."
Foi o que ele me disse, depois de cuspir o sangue da boca.
Minha mão estava doendo.
Foi a última vez que o vi.
Depois disso, larguei tudo. Foi como se tudo o que eu tinha construído até aquele momento não significava nada. Eu precisava sentir o vento na cara.
Na estrada as coisas ficam mais leves. O vento na cara ajuda a limpar as sujeiras da cabeça, as sujeiras que não saem no banho.
"A vida é um ringue...". Idiota. Por que? Por que? Se ele ao menos tivesse falado comigo. Mas agora é tarde. Mais um, garçom. Bares são iguais em qualquer parte. Homens idiotas e bebidas. Só os garçons tem mães. "Só os garçons...". Sem querer eu repito todas as frases dele. Dizem que até o jeito de andar, de falar, é igual. Quando falam isso me dá nojo. Dá vontade de sumir. Saí sem pagar a conta. O segurança encostou em mim. Agora ele vê dois de todo mundo.
Antes eu não faria isso. Agora, já não tenho nada a perder. Vou perder o que?
A estrada é uma coisa bonita. Hoje eu chorei, olhando a estrada. As coisas que passam, as casas ferradas, as crinças ferradas, os pneus furados, os cadáveres de cachorros. Isso me emociona. Não sei por que. Isso me emociona.
Foi o que ele me disse, depois de cuspir o sangue da boca.
Minha mão estava doendo.
Foi a última vez que o vi.
Depois disso, larguei tudo. Foi como se tudo o que eu tinha construído até aquele momento não significava nada. Eu precisava sentir o vento na cara.
Na estrada as coisas ficam mais leves. O vento na cara ajuda a limpar as sujeiras da cabeça, as sujeiras que não saem no banho.
"A vida é um ringue...". Idiota. Por que? Por que? Se ele ao menos tivesse falado comigo. Mas agora é tarde. Mais um, garçom. Bares são iguais em qualquer parte. Homens idiotas e bebidas. Só os garçons tem mães. "Só os garçons...". Sem querer eu repito todas as frases dele. Dizem que até o jeito de andar, de falar, é igual. Quando falam isso me dá nojo. Dá vontade de sumir. Saí sem pagar a conta. O segurança encostou em mim. Agora ele vê dois de todo mundo.
Antes eu não faria isso. Agora, já não tenho nada a perder. Vou perder o que?
A estrada é uma coisa bonita. Hoje eu chorei, olhando a estrada. As coisas que passam, as casas ferradas, as crinças ferradas, os pneus furados, os cadáveres de cachorros. Isso me emociona. Não sei por que. Isso me emociona.
domingo, 16 de agosto de 2009
Fazendo uma poesia
Hoje, depois do almoço, estava com muito sono.
No entre-sono, quase-sono, escrevi alguns versos.
Comecei assim:
"Eu quero a ausência de um domingo"
foi a frase inicial que me veio. isso acontece de vez em quando.
uma frase vem. e dela o resto nasce. como se a frase fosse a semente da poesia.
continuei
"Eu quero a ausência de um domingo
e só"
às vezes ficamos procurando as palavras. às vezes ficamos perdendo as palavras.
então escrevi algo que estava procurando sentir. isso acontece também. você escreve como uma forma de sentir
"Eu quero a ausência de um domingo
e só
chegar ao ponto de não pensar
na vida
na morte"
às vezes você de certa forma desiste daquele caminho
"Eu quero a ausência de um domingo
e só
chegar ao ponto de não pensar
na vida
na morte
natural só um satélite feito a Lua
que é mais feio do que você"
essa última frase me trouxe o que eu realmente queria falar.
isso acontece bastante na poesia. você fala muitas coisas para conseguir achar o que realmente quer falar. aquilo então é a poesia.
a última frase me trouxe uma coisa infantil, que eu estava buscando. tenho buscado bastante uma espécie de libertação do pensamento, do jeito de pensar 'normal'. tenho tido vontade de falar como falava criança. então a verdadeira poesia começou e veio numa tacada só. com velocidade.
geralmente acontece isso. quando se sabe o que vai falar. quando você sente que ali tem petróleo, que o chão é fértil, a poesia vem acelerada.
veio assim:
----------------------------------------------------
eu sou pequeno
mais menor do que um pedaço de unha
caído no canto da sala que tem uma
dona aranha cuidando
com suas patinhas e teias
eu sou bem pequeno
menor do que o brilho que tem
nos seus olhos
quando você chora ou sorri
eu sou muito pequeno
que quase sumo
quando você pisca
enquanto você lê
enquanto
essas palavras
também somem
e só restam
os sonhos, os amores, as promessas do mundo
------------------------------------------------------
não sou de reescrever poesia.
pode ser um grande erro, de principiante.
ou talvez seja o meu jeito de errar.
aprender com os erros.
é difícil se criticar. O blog está ai pra isso também.
Gosto de saber opiniões, dúvidas, sentimentos dos leitores.
Ainda estou procurando a poesia.
e nunca vou achar. Ainda bem.
No entre-sono, quase-sono, escrevi alguns versos.
Comecei assim:
"Eu quero a ausência de um domingo"
foi a frase inicial que me veio. isso acontece de vez em quando.
uma frase vem. e dela o resto nasce. como se a frase fosse a semente da poesia.
continuei
"Eu quero a ausência de um domingo
e só"
às vezes ficamos procurando as palavras. às vezes ficamos perdendo as palavras.
então escrevi algo que estava procurando sentir. isso acontece também. você escreve como uma forma de sentir
"Eu quero a ausência de um domingo
e só
chegar ao ponto de não pensar
na vida
na morte"
às vezes você de certa forma desiste daquele caminho
"Eu quero a ausência de um domingo
e só
chegar ao ponto de não pensar
na vida
na morte
natural só um satélite feito a Lua
que é mais feio do que você"
essa última frase me trouxe o que eu realmente queria falar.
isso acontece bastante na poesia. você fala muitas coisas para conseguir achar o que realmente quer falar. aquilo então é a poesia.
a última frase me trouxe uma coisa infantil, que eu estava buscando. tenho buscado bastante uma espécie de libertação do pensamento, do jeito de pensar 'normal'. tenho tido vontade de falar como falava criança. então a verdadeira poesia começou e veio numa tacada só. com velocidade.
geralmente acontece isso. quando se sabe o que vai falar. quando você sente que ali tem petróleo, que o chão é fértil, a poesia vem acelerada.
veio assim:
----------------------------------------------------
eu sou pequeno
mais menor do que um pedaço de unha
caído no canto da sala que tem uma
dona aranha cuidando
com suas patinhas e teias
eu sou bem pequeno
menor do que o brilho que tem
nos seus olhos
quando você chora ou sorri
eu sou muito pequeno
que quase sumo
quando você pisca
enquanto você lê
enquanto
essas palavras
também somem
e só restam
os sonhos, os amores, as promessas do mundo
------------------------------------------------------
não sou de reescrever poesia.
pode ser um grande erro, de principiante.
ou talvez seja o meu jeito de errar.
aprender com os erros.
é difícil se criticar. O blog está ai pra isso também.
Gosto de saber opiniões, dúvidas, sentimentos dos leitores.
Ainda estou procurando a poesia.
e nunca vou achar. Ainda bem.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Diálogos Catárticos - cena I
- Fui eu.
- Não acredito.
- Pode acreditar.
- Como pode?
- Não sei.
- E agora?
- Não sei. Não sei. Eu nunca...
- A gente tem que limpar tudo. A gente tem que limpar essa sujeira toda.
- Minha camisa tá com sangue.
- Eu não acredito! A gente tinha combinado outra coisa!
- Meu tênis também...
- Você tá me ouvindo! Não era esse o combinado!
- Não grita comigo não! Você não tava lá! Você não tava lá! Você não viu os olhos dele, você não tava lá e olhou, de frente, olhou bem nos olhos dele!
- Pára!
- Isso, chora, você num ia aguentar um segundo olhando os olhos dele.
- Não era pra ter sido assim. A gente falou que não ia...
- Foi um acidente!
- Como pode? Como pode? O Juninho, porquinho preferido do Dudu...
- Não sei...
- E o que eu digo pro Dudu? "Papai matou o Juninho"?"Hoje vamos comer porco, Dudu"?
- Diga a verdade. Ele já é grande.
- É. Já está quase um homem.
- Quando eu tinha a idade dele, já tava matando, e não era porco não, era gente mermo.
- Eu lembro.
- Então. Vai dizer?
- Tá. Mas pelo amor de Deus, limpa isso ai. Mais em cima.
- Eu te amo.
- Sei.
- Dudu? Você tava ai?
- Dudu, meu filho! Você tá ai há muito tempo?
- Dudu! A arma do papai! Coloca no ch...
- Gomes!!! Ahhhhhh!!!
- Mãe, fica quieta.
- Meu Deus!!!
- Fica quieta!
- AHHhhhhh...
- Agora sim. Já falei pra não mexerem no meu porquinho. Eu sempre falei pra não mexerem no meu porquinho! Vocês mexeram no Juninho, porra!!! Vocês não tinham o direito!!! Ouviu mãe, ouviu?
- Não acredito.
- Pode acreditar.
- Como pode?
- Não sei.
- E agora?
- Não sei. Não sei. Eu nunca...
- A gente tem que limpar tudo. A gente tem que limpar essa sujeira toda.
- Minha camisa tá com sangue.
- Eu não acredito! A gente tinha combinado outra coisa!
- Meu tênis também...
- Você tá me ouvindo! Não era esse o combinado!
- Não grita comigo não! Você não tava lá! Você não tava lá! Você não viu os olhos dele, você não tava lá e olhou, de frente, olhou bem nos olhos dele!
- Pára!
- Isso, chora, você num ia aguentar um segundo olhando os olhos dele.
- Não era pra ter sido assim. A gente falou que não ia...
- Foi um acidente!
- Como pode? Como pode? O Juninho, porquinho preferido do Dudu...
- Não sei...
- E o que eu digo pro Dudu? "Papai matou o Juninho"?"Hoje vamos comer porco, Dudu"?
- Diga a verdade. Ele já é grande.
- É. Já está quase um homem.
- Quando eu tinha a idade dele, já tava matando, e não era porco não, era gente mermo.
- Eu lembro.
- Então. Vai dizer?
- Tá. Mas pelo amor de Deus, limpa isso ai. Mais em cima.
- Eu te amo.
- Sei.
- Dudu? Você tava ai?
- Dudu, meu filho! Você tá ai há muito tempo?
- Dudu! A arma do papai! Coloca no ch...
- Gomes!!! Ahhhhhh!!!
- Mãe, fica quieta.
- Meu Deus!!!
- Fica quieta!
- AHHhhhhh...
- Agora sim. Já falei pra não mexerem no meu porquinho. Eu sempre falei pra não mexerem no meu porquinho! Vocês mexeram no Juninho, porra!!! Vocês não tinham o direito!!! Ouviu mãe, ouviu?
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Primeira namorada
A festa estava rolando.
Mas eu sentei no banco que tinha ali
depois de andar um pouco
o som abafado
de festa no longe
Sentei e pensei
na vida
nas palavras que não saíram da minha boca
quando ela sentou do meu lado
o silêncio sempre me acompanhou
quando eu estava sozinho
o silêncio foi minha primeira namorada
Mas eu sentei no banco que tinha ali
depois de andar um pouco
o som abafado
de festa no longe
Sentei e pensei
na vida
nas palavras que não saíram da minha boca
quando ela sentou do meu lado
o silêncio sempre me acompanhou
quando eu estava sozinho
o silêncio foi minha primeira namorada
sábado, 8 de agosto de 2009
Saudade
Eu comecei catando latas. Depois transformava-as em arte. Esculturas, objetos de decoração. Quem me falou sobre isso foi o tio Roberto. Ele disse que as coisas podiam se transformar em tudo aquilo que a gente quiser, que a gente imaginar.
Então eu me transformei. Dei-me asas. Voei ao redor do mundo. Percebi que o mundo cabe na palma da visão. Percebi que a Terra tem mais água que terra. Percebi que as pessoas vivem amontoadas, tem muito espaço vazio sobrando. Bateu uma saudade. De quando eu não sabia nada.
Então eu me transformei. Cortei-me as asas. Escolhi um pequeno círculo de terra para viver. Estrategicamente escolhido, havia água, terra, sol, vento. Percebi que existe uma força maior do que podemos entender. Isso me intrigou. Decidi imaginar o que seria essa força.
Então eu me transformei. Dei-me a força. Criei, da água, da terra, da lama, um homem. Não sabendo ao certo como fazê-lo, fiz minha própria fisionomia. Terminei e contemplei. Faltava algo.
Faltava a saudade que batia em mim. Criei uma saudade feita de passarinho. Coloquei no coração do homem. O homem então chorou. Fiquei feliz.
Então eu me transformei. Cortei-me a força. Fiquei nu. Decidi virar algo inútil, pequeno, frágil, sem valor. Virei uma lata. O homem ainda vai me catar. Quando isso acontecer, passarinho vai voar do coração e pousar de novo da minha mão. Pra saudade voltar pra mim.
Então eu me transformei. Dei-me asas. Voei ao redor do mundo. Percebi que o mundo cabe na palma da visão. Percebi que a Terra tem mais água que terra. Percebi que as pessoas vivem amontoadas, tem muito espaço vazio sobrando. Bateu uma saudade. De quando eu não sabia nada.
Então eu me transformei. Cortei-me as asas. Escolhi um pequeno círculo de terra para viver. Estrategicamente escolhido, havia água, terra, sol, vento. Percebi que existe uma força maior do que podemos entender. Isso me intrigou. Decidi imaginar o que seria essa força.
Então eu me transformei. Dei-me a força. Criei, da água, da terra, da lama, um homem. Não sabendo ao certo como fazê-lo, fiz minha própria fisionomia. Terminei e contemplei. Faltava algo.
Faltava a saudade que batia em mim. Criei uma saudade feita de passarinho. Coloquei no coração do homem. O homem então chorou. Fiquei feliz.
Então eu me transformei. Cortei-me a força. Fiquei nu. Decidi virar algo inútil, pequeno, frágil, sem valor. Virei uma lata. O homem ainda vai me catar. Quando isso acontecer, passarinho vai voar do coração e pousar de novo da minha mão. Pra saudade voltar pra mim.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Pequenos tesouros
Há vinte anos eu não caminhava por aqui. O chão mudou, a parede. E mesmo mudados, consigo ver e pisar e tocar no que foram. É como se tudo estivesse miniaturizado. Na verdade, eu é que cresci. Os olhos das crianças já me dizem mais coisas sobre o mundo do que diziam quando, com eles, eu olhava o mundo. Não tem mais inocente.
Olha, era aqui nesse pedaço de chão que a gente costumava sentar. Eu gostava de dormir no chão. Dormir em qualquer lugar. A camisa da escola era branca, mas ficava cinza, encardida, suja de chão. O que estou fazendo aqui? Nada do que eu pensar vai trazer de volta aquele tempo e principalmente aquele espaço. Olha, era ali a parede onde a gente jogava bola. Ainda tem algumas marcas de bola. Eu as toco.
Eu sempre pensei que acharia tesouros escondidos. Eu deveria ter escondidos alguns. Talvez agora os achasse.
Aqui era o refeitório. Como estão pequenas as mesas e as cadeiras. Foi aqui que o Pedro declarou o seu amor pra Manu. Aqui eu imitava o Jim Carey. A mulher que servia a gente tinha um problema de fala. Ela não falava "frango", falava "fagango". Coitada. A gente zoava ela. Pedia pra ela repetir qual era a comida do dia, só pra ouvir ela falar "fagango".
E de repente, reconheço um menino. Ele vem caminhando na minha direção. Sou eu mesmo. Ele pede que eu o siga. Sigo. Entro num lugar meio escondido, no almoxarifado antigo, muita poeira, pedaços de madeira. Por entre os escombros, uma pequena porta. O menino, eu, entra e fecha a porta. Das frestas da porta vejo uma luz. Coloco a mão na maçaneta. Abro-a.
Acordo num quarto. O quarto é vazio, tem apenas um colchão, uma escrivaninha velha, de madeira, o quarto é escuro, as paredes são de madeira escura. Da porta do quarto, escuto uma música. Parece uma flauta, daquelas árabes. Um som estranho. A porta é de vidro fosco, e consigo ver a silhueta de um corredor. Das frestas da porta entra uma névoa, uma fumaça. Um cheiro estranho. Talvez um incenso. Oriental.
Abro a porta e lá está o corredor. A música aumenta. Eu nunca ouvi essa música na minha vida. Eu sempre ouvi essa música na minha vida. Sinto-me envolvido por forças desconhecidas. Não há necessariamente gravidade, nem as leis da física nesse local. Sinto como se estivesse num espaço artificial, criado pelas circunstâncias da minha mente, seguindo apenas as maleáveis convenções dos sonhos.
Acordo em meu quarto. Estou paralisado. Meu corpo está completamente paralisado. Tento gritar, a voz também não sai. Há vinte anos eu não caminhava.
Dormindo em qualquer pedaço de chão, estava ele. O menino sorriu e me mostrou um senhor, deitado no chão. Ao perceber em seus olhos a vida que sonhava, pedi para o senhor que me seguisse.
Fui até a porta. Abri.
Eu sempre procurei tesouros escondidos, nos olhos das pessoas.
Olha, era aqui nesse pedaço de chão que a gente costumava sentar. Eu gostava de dormir no chão. Dormir em qualquer lugar. A camisa da escola era branca, mas ficava cinza, encardida, suja de chão. O que estou fazendo aqui? Nada do que eu pensar vai trazer de volta aquele tempo e principalmente aquele espaço. Olha, era ali a parede onde a gente jogava bola. Ainda tem algumas marcas de bola. Eu as toco.
Eu sempre pensei que acharia tesouros escondidos. Eu deveria ter escondidos alguns. Talvez agora os achasse.
Aqui era o refeitório. Como estão pequenas as mesas e as cadeiras. Foi aqui que o Pedro declarou o seu amor pra Manu. Aqui eu imitava o Jim Carey. A mulher que servia a gente tinha um problema de fala. Ela não falava "frango", falava "fagango". Coitada. A gente zoava ela. Pedia pra ela repetir qual era a comida do dia, só pra ouvir ela falar "fagango".
E de repente, reconheço um menino. Ele vem caminhando na minha direção. Sou eu mesmo. Ele pede que eu o siga. Sigo. Entro num lugar meio escondido, no almoxarifado antigo, muita poeira, pedaços de madeira. Por entre os escombros, uma pequena porta. O menino, eu, entra e fecha a porta. Das frestas da porta vejo uma luz. Coloco a mão na maçaneta. Abro-a.
Acordo num quarto. O quarto é vazio, tem apenas um colchão, uma escrivaninha velha, de madeira, o quarto é escuro, as paredes são de madeira escura. Da porta do quarto, escuto uma música. Parece uma flauta, daquelas árabes. Um som estranho. A porta é de vidro fosco, e consigo ver a silhueta de um corredor. Das frestas da porta entra uma névoa, uma fumaça. Um cheiro estranho. Talvez um incenso. Oriental.
Abro a porta e lá está o corredor. A música aumenta. Eu nunca ouvi essa música na minha vida. Eu sempre ouvi essa música na minha vida. Sinto-me envolvido por forças desconhecidas. Não há necessariamente gravidade, nem as leis da física nesse local. Sinto como se estivesse num espaço artificial, criado pelas circunstâncias da minha mente, seguindo apenas as maleáveis convenções dos sonhos.
Acordo em meu quarto. Estou paralisado. Meu corpo está completamente paralisado. Tento gritar, a voz também não sai. Há vinte anos eu não caminhava.
Dormindo em qualquer pedaço de chão, estava ele. O menino sorriu e me mostrou um senhor, deitado no chão. Ao perceber em seus olhos a vida que sonhava, pedi para o senhor que me seguisse.
Fui até a porta. Abri.
Eu sempre procurei tesouros escondidos, nos olhos das pessoas.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
terça-feira, 21 de julho de 2009
Poesia sobre São João del Rey
perdi um papelzinho de caderno
onde estava uma poesia
sensacional
falando de São João Del Rey.
então vamos fazer o seguinte:
pense nessa poesia.
eu quero que você invente essa poesia
do jeito que você quiser
o importante é falar de São João Del Rey
ser bonita, sabe, uma poesia bem bonita
isso.
onde estava uma poesia
sensacional
falando de São João Del Rey.
então vamos fazer o seguinte:
pense nessa poesia.
eu quero que você invente essa poesia
do jeito que você quiser
o importante é falar de São João Del Rey
ser bonita, sabe, uma poesia bem bonita
isso.
Numa Igreja em São João Del Rey
depois do casamento
quase é possível ver
as pessoas antigas
com suas roupas antiquadas
a formosura
as crianças brincando
um cheiro perfumado
de perfume barato
sabonete desses de farmácia
do interior: pharmácia
todos em seus melhores trajes
a vida acontecendo
em cada sorriso - o sino badala -
os sapatinhos da menina
brilham na noite
uma festa colorida
de pretos, brancos, mulatos,
brasileiros
o que quer que seja brasileiro
as coroas bem cuidadas
- deve ser o friozinho
a comida
a vida, enfim
o ritmo da vida
que pulsa mais lento
procisão
feliz
quase é possível ver
as pessoas antigas
com suas roupas antiquadas
a formosura
as crianças brincando
um cheiro perfumado
de perfume barato
sabonete desses de farmácia
do interior: pharmácia
todos em seus melhores trajes
a vida acontecendo
em cada sorriso - o sino badala -
os sapatinhos da menina
brilham na noite
uma festa colorida
de pretos, brancos, mulatos,
brasileiros
o que quer que seja brasileiro
as coroas bem cuidadas
- deve ser o friozinho
a comida
a vida, enfim
o ritmo da vida
que pulsa mais lento
procisão
feliz
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Cenas
ele andou pela calçada da praia
abriu as calças
e fez xixi na areia
escrevendo a palavra
"amor"
na areia
do outro lado da cidade
a mulher dele
chorava no chuveiro
depois de ter tomado
vários remédios
e uma garrafa de vinho
barato
no apartamento do lado
não tinha ninguém
só o johnny
o cão da família
na varanda
olhando o passarinho que pousou
e depois voou
abriu as calças
e fez xixi na areia
escrevendo a palavra
"amor"
na areia
do outro lado da cidade
a mulher dele
chorava no chuveiro
depois de ter tomado
vários remédios
e uma garrafa de vinho
barato
no apartamento do lado
não tinha ninguém
só o johnny
o cão da família
na varanda
olhando o passarinho que pousou
e depois voou
segunda-feira, 13 de julho de 2009
A vida tem algumas coisas que eu acho interessantes. Na verdade, ela toda é.
a vida na prática
é impraticável
a luz na piscina
me lembra um filme
seus olhos
distantes
como se fossem os meus
um cão late ao fundo
passa um avião
estou sozinho
com você no coração
rimou,
mas não era pra ter
rimado
é impraticável
a luz na piscina
me lembra um filme
seus olhos
distantes
como se fossem os meus
um cão late ao fundo
passa um avião
estou sozinho
com você no coração
rimou,
mas não era pra ter
rimado
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Lavagem Nasal com Soro Fisiológico
a sinusite parece você
um catarro dentro da minha cara
uma força atrás dos olhos
impregnando os brancos com um tom de Ré diminuto
sinto seu corpo dentro da minha cara
nos passos redondos de uma doença
a dança de catarro entope o próprio torpor
transformando o travesseiro em crença
a sinusite parece você
por mais que eu insiste
a sinusite, parece você
um c
........a
..........t
.........a
............r
...........r
.............o
um catarro dentro da minha cara
uma força atrás dos olhos
impregnando os brancos com um tom de Ré diminuto
sinto seu corpo dentro da minha cara
nos passos redondos de uma doença
a dança de catarro entope o próprio torpor
transformando o travesseiro em crença
a sinusite parece você
por mais que eu insiste
a sinusite, parece você
um c
........a
..........t
.........a
............r
...........r
.............o
sábado, 4 de julho de 2009
Quero dormir nesse orvalho
.
quero dormir nesse orvalho
eu não valho nem uma gota caída
e a saída de mim mesmo dá trabalho
quero dormir nesse orvalho
e num ato falho reviver o que sou
quero dormir nesse chão
e de tão cansado acordar
tomo ar como alimento
respirando o vento que pousou
quero dormir nesse orvalho
e virar só sono
virar o orvalho
dormindo em mim
quero dormir nesse orvalho
eu não valho nem uma gota caída
e a saída de mim mesmo dá trabalho
quero dormir nesse orvalho
e num ato falho reviver o que sou
quero dormir nesse chão
e de tão cansado acordar
tomo ar como alimento
respirando o vento que pousou
quero dormir nesse orvalho
e virar só sono
virar o orvalho
dormindo em mim
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Tem alguma coisa
acordei com a vontade de dormir o novo
entregando os lençóis ao mar, num fio de Sol
repousando as mãos por de sobre o mundo
o vento bateu asas nos meus olhos
e eu enxerguei o futuro
o futuro teve que tirar os quatro sisos
de uma só vez
o céu de açaí brotou
e a memória correu maratonas
1- longe, bem longe, quase consigo ver a palma da minha mão voando
5- existe um lugar, perto do nunca, que eu nunca fui
Gomes relata:
- Era noite. Na Urca nem um gemido. O mar batia nas pedras. O meu carro atravessou, rápido, como um tiro. Matei a cidade. Menos eu sobrou vivo.
A Imprensa informa:
- Escândalo revelado! foi encontrada uma poesia com 3 tiros.
3- "Parte de mim se vai no infinito"
acordei com novas páginas nos olhos.
entregando os lençóis ao mar, num fio de Sol
repousando as mãos por de sobre o mundo
o vento bateu asas nos meus olhos
e eu enxerguei o futuro
o futuro teve que tirar os quatro sisos
de uma só vez
o céu de açaí brotou
e a memória correu maratonas
1- longe, bem longe, quase consigo ver a palma da minha mão voando
5- existe um lugar, perto do nunca, que eu nunca fui
Gomes relata:
- Era noite. Na Urca nem um gemido. O mar batia nas pedras. O meu carro atravessou, rápido, como um tiro. Matei a cidade. Menos eu sobrou vivo.
A Imprensa informa:
- Escândalo revelado! foi encontrada uma poesia com 3 tiros.
3- "Parte de mim se vai no infinito"
acordei com novas páginas nos olhos.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Preto ou Branco
girando, girando
na luta contra o tempo
você corria pra frente
andando pra trás
nem homem, nem mulher
nem preto, nem branco
nem adulto, nem criança
mas tudo e ao mesmo tempo
nada
na luta contra o tempo
você corria pra frente
andando pra trás
nem homem, nem mulher
nem preto, nem branco
nem adulto, nem criança
mas tudo e ao mesmo tempo
nada
terça-feira, 23 de junho de 2009
Passeio
.
.
foi nas paredes da creche
foi nas paredes da creche
que eu escrevi um poema
em canetinha colorida
acho que era da cor azul
não tinha internet
e a Altaíza catava piolho da gente
escrevi um poema
falando das coisas que eu não sabia
o poema era em desenho
eu não me lembro bem
mas eu acho que era bonito
desde daquele dia
eu exagerei nas palavras que eu via
nas paredes das creches e da minha casa
e da minha cidade
do meu planeta
nunca mais usei a cor azul
para exagerar o mundo
começei a contar piadas
depois de ver filmes de comédia americana dublados
eu aprendi a fazer caretas vendo filmes
e fazia careta pras meninas rirem na hora do recreio
na hora do almoço também
ai eu me apaixonei por um silêncio
que morava no pátio da escola
que tinha um árvore chamada goiabeira
lá tinha aula de teatro
em que eu fazia o papel de um relâmpago
e corria de um lado pro outro
rápido pra caramba
eu também comecei a escalar as paredes de pedra
talvez com a intenção de encostar no azul do céu
e/ou rabiscar o céu com outra canetinha
e ver se dava pra apagar passando a Lua
quer ver: tinha o André, o Guilherme Estragado, o Diego, o Albieri, o Komatsu,
o Heitor, o Pedro Pereira, tinha a Manuela, Heloísa, Yabrudi, Nycia, Amanda,
pra falar da galera que jogava paredão
o Freihof ficava me sacaneando na pista de dança da Vogue
quando tocava macarena
acho que ele não gostava porque não sabia dançar direito
é meio complicado guardar os movimentos da macarena
tinha cada um jeito
tinha um que gostava de dinossauros, queria ser paleontólogo
tinha outro que queria ser jogador de futebol
(tinha uma porrada que queria ser jogador de futebol)
eu queria ser famoso
talvez um astro de rock
acho que isso se deve muito por causa do jimi hendrix, do black sabbath e do led zepellin
rolava show de rock dentro da kombi do marcos
a gente colocava música alto pra cacete e ficava pulando de cadeira em cadeira
se jogando
e tinha vezes que a gente passava pelo leblon e eu jogava papel do caderno de aula
fazendo uma bola de papel e tacava na cabeça de algum careca
as pessoas foram saindo do colégio, indo para outros
eu acho que ainda estou lá
um pouco nas paredes e no chão
e nos corredores
e nas pessoas que foram saindo
eu me multipliquei antes de saber multiplicar
já tinha lido fernando pessoa com 12 anos
apesar de não entender nada
só sentir que aquilo era uma coisa muito importante
tinha algo naquele pocket book
que eu sabia que iria gosta, sentir, entender mais no futuro
quando eu fosse grande
imagina isso:
ler fernando pessoa aos 12 anos
só podia ter dado merda
domingo, 14 de junho de 2009
terça-feira, 9 de junho de 2009
pombas!
.
o pombo estava lá perto do meio-fio.
na verdade,
........................o......p........b
.................................om........o
todo estraçalhado no meio-fio.
o rapaz passou
.......................pu
...........................lou
........................................................rápido
o senhor de relógio prateado
esbarrou o sapato nas penas: tinhapenagrudadanoasfalto.
e eu também passei: tinha um pombo estraçalhado
tinha um pombo que passou: olhou o pombo estraçalhado
e viu: pombas! quem estava estraçalhado era eu
segunda-feira, 8 de junho de 2009
paredes do vento
.
nas paredes do vento peguei carona
.............................até a estrada que tinha dentro dos meus olhos
não tinha ponto final, só exclamação.
.................a vida era um bolo decorado
e eu não tinha nenhuma rima decor
a vida tinha cor
de corda bamba.
subir paredes do vento era pegar carona em invento
que o amigo inventou anteontem
e escalar as paredes da menina
era driblar os zagueiros da menina
que tinha ela nos olhos
...........................................procurar um canto escuro para abrir o sol
de de dentro dos rostos sorrir um sol e um sim
......................ilumiar.
era mais de três metros de corredor
e a maratona podia durar séculos
na brincadeira da gente
..........................................................mangueira que cai manga não ensina gravidade
nem menina grávida aparecendo ensina gravidez
eu tive que aprender na poesia
pra saber o que era viver
segunda-feira, 1 de junho de 2009
mar
.
o barulho de rio
ou de mar
me faz lembrar
o vazio
que é existir
sem amar
o brilho do mar
é uma constelação
no céu refletido
o meu rosto, meus olhos
pequenas estrelas
distantes de tudo que existe
e perto de tudo que ama
a chama trêmula no mar insiste
em espalhar sonhos
de amantes
o mar dança no silêncio do meu quarto
que dança no mar do meu silêncio
uma valsa invisível sobre o tempo
o barulho de rio
ou de mar
me faz lembrar
o vazio
que é existir
sem amar
o brilho do mar
é uma constelação
no céu refletido
o meu rosto, meus olhos
pequenas estrelas
distantes de tudo que existe
e perto de tudo que ama
a chama trêmula no mar insiste
em espalhar sonhos
de amantes
o mar dança no silêncio do meu quarto
que dança no mar do meu silêncio
uma valsa invisível sobre o tempo
domingo, 31 de maio de 2009
pontos
.
.
hoje eu fechei os olhos e entendi o Sol
entendi que as coisas são feitas eternas
e que só hoje posso brindar o futuro
meus olhos passeiam pela vida com a certeza
de alcançar os rios mais bonitos do planeta
e tocar os pés no encontro de águas
chorar
e navegar em qualquer embarcação
para qualquer porto
porque o rio que passa na minha aldeia
são todos os rios do mundo
e nenhum rio do mundo
eu não tenho nenhum rio que passe em minha aldeia:
ela já é o rio
eu já sou a aldeia
ah! essas músicas idiotas não me saem da cabeça
não se pode mais fazer nada
um copo de chopp, cigarros, eu inventei promessas
e os futuros continuam os mesmos
somente o presente mente
só
eu seguro, então, nos seus braços
e juntos vamos contemplar a transitoriedade das coisas eternas
olhando o Sol, os prédios
a vontade de ser livre
o pombo atropelado no meio da rua
e o silêncio que de dele emana
antes eu saberia fazer rimas
e juntaria palavras como ímãs
mas hoje não sou mais poeta
perdi o alvo, a reta, a seta
estou nú diante de Deus (diante de mim mesmo)
lá vai aquele homem vestindo sua couraça
de pobreza e sorriso
eu daria um pão
eu daria minha vida
se não fosse pobre de espírito
se não pedisse migalhas de poesias
pelas ruas, pelos rios, tentando decifrar a natureza
cometemos muitos erros ao tentar decifrar a natureza:
a poesia se perde, como agora.
eu poderia dar pontos nos nós
dizer pra que vim ao mundo
falar a Verdade.
mas eu olho os olhos das crianças no metro:
elas não tem olhos, tem espelhos.
.
hoje eu fechei os olhos e entendi o Sol
entendi que as coisas são feitas eternas
e que só hoje posso brindar o futuro
meus olhos passeiam pela vida com a certeza
de alcançar os rios mais bonitos do planeta
e tocar os pés no encontro de águas
chorar
e navegar em qualquer embarcação
para qualquer porto
porque o rio que passa na minha aldeia
são todos os rios do mundo
e nenhum rio do mundo
eu não tenho nenhum rio que passe em minha aldeia:
ela já é o rio
eu já sou a aldeia
ah! essas músicas idiotas não me saem da cabeça
não se pode mais fazer nada
um copo de chopp, cigarros, eu inventei promessas
e os futuros continuam os mesmos
somente o presente mente
só
eu seguro, então, nos seus braços
e juntos vamos contemplar a transitoriedade das coisas eternas
olhando o Sol, os prédios
a vontade de ser livre
o pombo atropelado no meio da rua
e o silêncio que de dele emana
antes eu saberia fazer rimas
e juntaria palavras como ímãs
mas hoje não sou mais poeta
perdi o alvo, a reta, a seta
estou nú diante de Deus (diante de mim mesmo)
lá vai aquele homem vestindo sua couraça
de pobreza e sorriso
eu daria um pão
eu daria minha vida
se não fosse pobre de espírito
se não pedisse migalhas de poesias
pelas ruas, pelos rios, tentando decifrar a natureza
cometemos muitos erros ao tentar decifrar a natureza:
a poesia se perde, como agora.
eu poderia dar pontos nos nós
dizer pra que vim ao mundo
falar a Verdade.
mas eu olho os olhos das crianças no metro:
elas não tem olhos, tem espelhos.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
beijo torto
um beijo torto
colocou o mundo no lugar
o beijo ainda existe
no lugares do meu amor
um beijo torto
que existe apesar do chão
da gravidade
azulejos
espelho do banheiro
escada
todo mundo passa
correndo
mas eu vejo
câmera-lenta
colocou o mundo no lugar
o beijo ainda existe
no lugares do meu amor
um beijo torto
que existe apesar do chão
da gravidade
azulejos
espelho do banheiro
escada
todo mundo passa
correndo
mas eu vejo
câmera-lenta
domingo, 24 de maio de 2009
sábado, 23 de maio de 2009
A poesia nem existe
.
.
como faltou água hoje na descarga do banheiro
enchi um balde com água e desinfetante
depois que defequei.
joguei de uma vez só
e a minha sujeira desceu toda.
pouco tempo atrás eu estava pedindo
para alguém me limpar.
mas eu sei que o tempo não existe
do jeito que achamos que existe:
o que chamamos tempo
pode ser somente o acontecimento simultâneo
de eventos.
eu aqui jogando o balde com água e desinfetante
na privada
e os ponteiros do relógio do meu pulso
marcando 19:50.
o que eu gosto na poesia
é sincronizar
imagens
e
sons
que nunca existiram juntos.
desse jeito
ao ler a poesia
conseguimos viver no presente atemporal
de toda a nossa eternidade e efêmeridade
através de todas as banais ações e eventos
conseguimos viver a poesia
sem dimensões.
ler uma poesia assim
talvez seja
por um tempo indefinido (pois não há de fato)
ser o que se é,
sem metáforas
sem rimas
sem fim,
.
como faltou água hoje na descarga do banheiro
enchi um balde com água e desinfetante
depois que defequei.
joguei de uma vez só
e a minha sujeira desceu toda.
pouco tempo atrás eu estava pedindo
para alguém me limpar.
mas eu sei que o tempo não existe
do jeito que achamos que existe:
o que chamamos tempo
pode ser somente o acontecimento simultâneo
de eventos.
eu aqui jogando o balde com água e desinfetante
na privada
e os ponteiros do relógio do meu pulso
marcando 19:50.
o que eu gosto na poesia
é sincronizar
imagens
e
sons
que nunca existiram juntos.
desse jeito
ao ler a poesia
conseguimos viver no presente atemporal
de toda a nossa eternidade e efêmeridade
através de todas as banais ações e eventos
conseguimos viver a poesia
sem dimensões.
ler uma poesia assim
talvez seja
por um tempo indefinido (pois não há de fato)
ser o que se é,
sem metáforas
sem rimas
sem fim,
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Teoria Quântica Unificada
Subtítulo:
Introdução e análise da dinâmica dos corpos em desmovimento
Tive o sonho místico dos cientistas
profetizei como Einstein, Descartes
o futuro do mundo em mil pontos de vista
Tive o sonho místico dos cientistas
profetizei como Einstein, Descartes
o futuro do mundo sem restos, sem pistas
o templo era toda a natureza e suas partes
Primeiro vi Deuses e Deusas lindas
inventando fenômenos, destruindo vidas
tive o sonho místico dos cientistas
por um corte preciso no tempo e no espaço
entendi Deus, os Homens e a Poesia
entendi que os poetas são deuses
e que Deus é poeta
vi Fernando Pessoa voando
com asas feitas de papel vagabundo
tinha também o Bandeira
pescando palavras numa
piscina de plástico
ao seu lado
Vinícius bebia chuva
de um copo de nuvem
tive o sonho místico dos cientistas
e fiz esse artigo
vou publicá-lo em algum periódico
de física avançada
Introdução e análise da dinâmica dos corpos em desmovimento
Tive o sonho místico dos cientistas
profetizei como Einstein, Descartes
o futuro do mundo em mil pontos de vista
Tive o sonho místico dos cientistas
profetizei como Einstein, Descartes
o futuro do mundo sem restos, sem pistas
o templo era toda a natureza e suas partes
Primeiro vi Deuses e Deusas lindas
inventando fenômenos, destruindo vidas
tive o sonho místico dos cientistas
por um corte preciso no tempo e no espaço
entendi Deus, os Homens e a Poesia
entendi que os poetas são deuses
e que Deus é poeta
vi Fernando Pessoa voando
com asas feitas de papel vagabundo
tinha também o Bandeira
pescando palavras numa
piscina de plástico
ao seu lado
Vinícius bebia chuva
de um copo de nuvem
tive o sonho místico dos cientistas
e fiz esse artigo
vou publicá-lo em algum periódico
de física avançada
terça-feira, 19 de maio de 2009
Importância
Todo aquele passado que enfrentarei amanhã me deu insônias anteontem.
Conhecer mais é entender menos. Meu coração está balbuciando uma língua arcaica:
- Omito o mito ou minto muito imito o mito omito o mito...
Hoje meu pai disse que eu estou perdido. Quisera, então, que ele tivesse me achado antes.
Antes havia do que se perder. Pois como pode um toque se perder se já afeto em ele não havia. Vejo naquelas crianças as sementes geneticamente modificadas de um eu que aos poucos não vou sendo.
- O mundo é difícil.
(o pulso animal, quase humano, murmura nas artérias)
Difícil é penetrar nas rochas sólidas que a solidão entre nós juntou. Todo aquele passado que enfrentarei amanhã não tinha me dado insônias hoje. Só nos comunicamos verdadeiramente por metáforas. Só falamos de nós mesmos quando falamos dos outros. Só dizemos a verdade quando mentimos, só choramos quando rimos, só falamos da vida quando falamos da morte. Só falamos do tempo quando falamos...quando silenciamos.
- Isso não é sério.
Precisávamos rir mais ontem e depois de amanhã eu teria rido. Rir é uma forma de gostar sem forma.
- E enquanto isso?
A importância das coisas, dos lugares que fotografou, das mulheres que amou, se esvai no mundo material. Pertence somente ao pó, poeira, florescendo as gramas e reciclando as terras. Esses objetivos, para quem acredita na vida que não tem sentido, não tem sentido.
Enquanto isso eu vejo a eternidade das coisas que não posso ver. A eternidade da música que não escuto. A eternidade suave das palavras de afeto que você nunca irá dizer. A eternidade breve dessa vida.
Enquanto isso eu me procuro. Eu te procuro. Sou eu o perdido?
Procuro-te perdido em mim.
Improviso em Sevilha n:1
a arena eu vejo quando fecho os olhos
em Sevilha, o escuro é claro
os touros estão nas ruas
nas paredes e no creme
só vejo os meus passos
num passado que se perdeu
o Sol de Sevilha
seca o que nunca foi meu
o Som de Sevilha
berra um silêncio d'Orfeu
e eu firmo os pés na areia da arena:
revejo mil vezes a cena:
o pano vermelho é minha camisa
na brisa amena do dia em Sevilha
por que o dia
é Sevilha
assim como Sevilha
é o dia?
em Sevilha, o escuro é claro
os touros estão nas ruas
nas paredes e no creme
só vejo os meus passos
num passado que se perdeu
o Sol de Sevilha
seca o que nunca foi meu
o Som de Sevilha
berra um silêncio d'Orfeu
e eu firmo os pés na areia da arena:
revejo mil vezes a cena:
o pano vermelho é minha camisa
na brisa amena do dia em Sevilha
por que o dia
é Sevilha
assim como Sevilha
é o dia?
domingo, 17 de maio de 2009
Amanhã
escrevi esses versos daqui a vinte anos.
os versos ficaram mais lentos no futuro.
é a minha respiração que mudou amanhã.
ela queima quando passa nos pulmões
e quando sai no papel.
daqui a vinte anos
fiz a minha vida mudar.
escolhi o que colhi
escrevi o que eu vi
amanhã.
os versos ficaram mais lentos no futuro.
é a minha respiração que mudou amanhã.
ela queima quando passa nos pulmões
e quando sai no papel.
daqui a vinte anos
fiz a minha vida mudar.
escolhi o que colhi
escrevi o que eu vi
amanhã.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Vida Privada
Estava dormindo.
A luz acendendo me acordou.
Era ele.
Normalmente ele fazia de manhã.
Abaixou minha pálpebra
e começou.
A primeira foi de uma vez só.
Um mergulho até a minha garganta.
Depois demorou um pouco mais.
Saiu devagar.
Pensei na minha cidade,
naquele tempo em que eu ficava no meu lugar,
no meu canto.
Depois vieram e me tiraram de lá.
Me deram essa forma.
Às vezes não reconheço meu rosto.
Não fui eu que fiz o meu rosto.
Saiu devagar, mas saiu.
Ele se limpou.
Puxou o meu brinco.
O cheiro ainda ficou em mim.
Ele lavou as mãos.
E apagou a luz.
Não conseguia mais dormir.
Pausa
vou dar um tempo à poesia
vou deixar que ela saia
de seu atual casulo
livre, mais leve, consciente
de suas asas
e efemeridade
quinta-feira, 14 de maio de 2009
compasso em 5
ela anda
ela rebola
de banda larga
de bunda
ela anda
ela passa
na minha cabeça
sem pressa
ela anda
balança
a bunda
balança
a bunda
balança
o mundo
ela anda
e rebola
quadris
eu quis
entender
as coisas
eu caí
no chão
de bunda
ela bunda
anda
rebola
a terra
pra lá
e pra cá
ela rebola
a bunda
ela cai
de terra
em terra
e bunda
o mundo
ela rebola
de banda larga
de bunda
ela anda
ela passa
na minha cabeça
sem pressa
ela anda
balança
a bunda
balança
a bunda
balança
o mundo
ela anda
e rebola
quadris
eu quis
entender
as coisas
eu caí
no chão
de bunda
ela bunda
anda
rebola
a terra
pra lá
e pra cá
ela rebola
a bunda
ela cai
de terra
em terra
e bunda
o mundo
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Outro
Chorei páginas dos meus olhos.
Chorei até molhar os livres.
Quem fala em mim é sempre outro.
Chorei, enfim, de risos tristes.
Quem anda descalço no cinema
tem os pés pisando sonhos.
Quem corre atrás de morena
só tem os calos que calam
só tem os olhos nos olhos
do Outro.
Eu queria ser a terra nos pés.
Falta-me coragem para ser de terra.
Faltam-me páginas para molhar a terra.
Falto-me eu no Outro.
Pra que servem palavras senão para parar o sentido do mundo?
Se eu pudesse sumir
voando nas minhas palavras
desaparecendo na minha linguagem
virar um pó
sem imagem
nem som:
mistério.
Chorei até molhar os livres.
Quem fala em mim é sempre outro.
Chorei, enfim, de risos tristes.
Quem anda descalço no cinema
tem os pés pisando sonhos.
Quem corre atrás de morena
só tem os calos que calam
só tem os olhos nos olhos
do Outro.
Eu queria ser a terra nos pés.
Falta-me coragem para ser de terra.
Faltam-me páginas para molhar a terra.
Falto-me eu no Outro.
Pra que servem palavras senão para parar o sentido do mundo?
Se eu pudesse sumir
voando nas minhas palavras
desaparecendo na minha linguagem
virar um pó
sem imagem
nem som:
mistério.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Passatempo
quem mexe e entorta frases
e fura vazios no queijo
e desenlaça o cadarço da água da pia
de vez em quando vira passatempo.
quem pula relógios feitos por raios de sol
e cisma em escutar o que está escondido
nas mão fechadas da amiga
é na verdade mentira.
se você descobre quantas gotas de vidro
caem da chuva
e quantas poeiras o carro do pai
brinca de futebol
você também vira passatempo.
é inevitável.
quem gira a cabeça de um cão
ao chegar no apartamento
tem dentes brancos e postiços
quem desliga a tv com um pedaço de vassoura
sonha que está na penumbra que vem do oceano atlântico
quem corre atrás da lua
e come frango com quiabo
e depois dá um pedaço da lua
para o garfo provar
merece o meu respeito.
e fura vazios no queijo
e desenlaça o cadarço da água da pia
de vez em quando vira passatempo.
quem pula relógios feitos por raios de sol
e cisma em escutar o que está escondido
nas mão fechadas da amiga
é na verdade mentira.
se você descobre quantas gotas de vidro
caem da chuva
e quantas poeiras o carro do pai
brinca de futebol
você também vira passatempo.
é inevitável.
quem gira a cabeça de um cão
ao chegar no apartamento
tem dentes brancos e postiços
quem desliga a tv com um pedaço de vassoura
sonha que está na penumbra que vem do oceano atlântico
quem corre atrás da lua
e come frango com quiabo
e depois dá um pedaço da lua
para o garfo provar
merece o meu respeito.
domingo, 10 de maio de 2009
Mãe
Saí do seu ventre
para entrar para a História
você é o começo da minha memória
Fiquei na sua barriga
comendo a sua comida
sem ajudar na conta
ouví o que você ouvia
sentí o você sentia
e até sonhei seus sonhos
nosso coração bateu junto
no pulso da nossa alegria
de meu vir-ao-mundo
às vezes quando te vejo
percebo que você se vê
no meus (teus) olhos
às vezes quando sinto medo
eu guardo um pequeno segredo:
chamo o teu nome baixinho
desculpa se não comprei presente caro
não foi falta de carinho
sou apenas um estagiário
pra mim também só tem sentido
se o presente for sentido
como um poema espontâneo (especialmente criado)
você me deu a luz
nos sentidos infinitos dessa palavra
espero dar-te, então
o brilho dos meus olhos
ao viver na tua sombra
para entrar para a História
você é o começo da minha memória
Fiquei na sua barriga
comendo a sua comida
sem ajudar na conta
ouví o que você ouvia
sentí o você sentia
e até sonhei seus sonhos
nosso coração bateu junto
no pulso da nossa alegria
de meu vir-ao-mundo
às vezes quando te vejo
percebo que você se vê
no meus (teus) olhos
às vezes quando sinto medo
eu guardo um pequeno segredo:
chamo o teu nome baixinho
desculpa se não comprei presente caro
não foi falta de carinho
sou apenas um estagiário
pra mim também só tem sentido
se o presente for sentido
como um poema espontâneo (especialmente criado)
você me deu a luz
nos sentidos infinitos dessa palavra
espero dar-te, então
o brilho dos meus olhos
ao viver na tua sombra
sábado, 9 de maio de 2009
A dança
Da nuvem insensata que pairava na permanência dos cinzas urbanos, da paisagem absoluta, turvando a memória e dissipando a infância em cada gesto dos carros, em cada ruído artificial; da nuvem que nem a imaginação pode transfigurar em outro objeto, meu grito, e minha lágrima, ambos feitos de pura poeira maquínica, meu grito de desespero diante do silêncio ensurdecedor que precedeu a descoberta de mim, em cada partícula do veneno químico de minha saliva, transbordava um vírus moderno; da nuvem mais inconsequente, feita do sussuro do mais oriental dos textos; estava plasmado no espaço, no ar, no céu, um mistério ancestral e vazio, no chão que imitava madeira, nas ferrugens não tão velhas do armário e na secura da minha garganta: as palavras para descrever o mundo trocaram de par na dança da linguagem das coisas.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Não Rima
noite não rima com boite
é boate, que não rima com boato
mas me disseram que a noite late
que o leite moça, que não rima com:
como almoço
janto a janta
que não rima com tanta coisa tonta
que não rima nem de sina nem de bairro
que não rima nem é feito de barro, que não é manoel
nem de.
a rima pode ser
na língua
na retina míopa
na ná vasconselina, em fim
em finita brincadeira
a rima
arruma
a rua
da lira
a rima
arruma
a rua
da lira
arromba
a lua
e delíra!
As Meninas
no fundo do ônibus da escola
você me pediu pra namorar com você
eu perguntei:
- o que que eu preciso fazer?
você me falou:
- ah, a gente tem que andar de mão dada, e você me dar presente.
- então tá.
desde aquele dia
aquele dia de sol que cega a gente de tão sol
as meninas não eram mais meninas
eram coisas que queriam que a gente fizesse alguma coisa
pra ficar junto delas
um ano depois
dentro da cabine do banheiro da escola
uma outra me deu um beijo na boca
as amigas dela subiram nas privadas
das cabines ao lado
pra olhar
cinco segundos depois
a menina e as amigas tinham ido embora
e eu lá
acho que eu to parado
naquela cabine do banheiro
até hoje
tentando entender
as meninas
você me pediu pra namorar com você
eu perguntei:
- o que que eu preciso fazer?
você me falou:
- ah, a gente tem que andar de mão dada, e você me dar presente.
- então tá.
desde aquele dia
aquele dia de sol que cega a gente de tão sol
as meninas não eram mais meninas
eram coisas que queriam que a gente fizesse alguma coisa
pra ficar junto delas
um ano depois
dentro da cabine do banheiro da escola
uma outra me deu um beijo na boca
as amigas dela subiram nas privadas
das cabines ao lado
pra olhar
cinco segundos depois
a menina e as amigas tinham ido embora
e eu lá
acho que eu to parado
naquela cabine do banheiro
até hoje
tentando entender
as meninas
terça-feira, 5 de maio de 2009
Passou
Cruzei a paisagem rasgando sua imagem desfocada. A fotografia em pedaços dançava no ar que ficava para trás. O carro fazendo o papel da memória. E o papel do filme brilhando naquele sol que a lua faz. Na estrada os sentimentos freiam na proporção em que se acelera. Era só uma imagem. Mas antes era minha.
Peraí!
Peraí!
Quem falou que o céu é azul?
que as coisas caem?
que pra lá é o sul?
que o mar é salgado?
que 2 + 2 são 4?
que Deus é Um?
Eu repito que o céu é azul.
O céu repete que azul é.
O azul repete que céu é eu.
O repete repete que o céu é azul que o céu.
O repete repete que o céu é azul que o céu é.
Azul.
Se o céu azul fosse o céu azul
fóssil assim azul
se o seu céu e o meu céu fossem assim
azuis
os seus, os céus, ósseos fossem fósseis
assim fáceis assim
não teria poesia
e seria azia
em vez de asa.
Quem falou que o céu é azul?
que as coisas caem?
que pra lá é o sul?
que o mar é salgado?
que 2 + 2 são 4?
que Deus é Um?
Eu repito que o céu é azul.
O céu repete que azul é.
O azul repete que céu é eu.
O repete repete que o céu é azul que o céu.
O repete repete que o céu é azul que o céu é.
Azul.
Se o céu azul fosse o céu azul
fóssil assim azul
se o seu céu e o meu céu fossem assim
azuis
os seus, os céus, ósseos fossem fósseis
assim fáceis assim
não teria poesia
e seria azia
em vez de asa.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Boca
na boca vou provar o mundo
como quem bota a boca no mundo
na boca vou provar o mundo
como a bota bota a perna no mundo
como a galinha bota ovo novo
como a panela bota nela o ovo
como a gema é amarela e mela
como a boca cabe tudo do mundo
como a parede pega a rede e balança
como a balança deixa a pança maior
como a maior das maravilhas fervilha
como a comida na ida ainda moída
como a boca bota a boca no mundo
o sabor da lua é um vazio na boca
o sabor da lua é uma boca mordida
o sabor da sua boca vaza a lua mordida
o saber do mundo louco lua minguante
por mais que a boca abra louca e cante
eu como o mundo com a boca
que baba
como quem bota a boca no mundo
na boca vou provar o mundo
como a bota bota a perna no mundo
como a galinha bota ovo novo
como a panela bota nela o ovo
como a gema é amarela e mela
como a boca cabe tudo do mundo
como a parede pega a rede e balança
como a balança deixa a pança maior
como a maior das maravilhas fervilha
como a comida na ida ainda moída
como a boca bota a boca no mundo
o sabor da lua é um vazio na boca
o sabor da lua é uma boca mordida
o sabor da sua boca vaza a lua mordida
o saber do mundo louco lua minguante
por mais que a boca abra louca e cante
eu como o mundo com a boca
que baba
domingo, 3 de maio de 2009
Era
era uma vez tantas vezes
e tantas eras e tantas heras
e vez em quando enquanto era
vezes tontas: era ela.
e tantas eras e tantas heras
e vez em quando enquanto era
vezes tontas: era ela.
Destrambelha
é quando vira a canoa
pula o rodeio
destrambelha o horizonte
nosso coração sonolento
quer devorar sonhos de algodão
nas nuvens
é quando pula o cão
na água do mar
brilho - olho - solidão
encostar o ouvido no sabor das coisas
apalpar a delícia da lembrança
como suco de abacate
pula o rodeio
destrambelha o horizonte
nosso coração sonolento
quer devorar sonhos de algodão
nas nuvens
é quando pula o cão
na água do mar
brilho - olho - solidão
encostar o ouvido no sabor das coisas
apalpar a delícia da lembrança
como suco de abacate
sábado, 2 de maio de 2009
Quase
queria a sensação de encostar na areia pela primeira vez.
colocar os pezinhos pequenos na espuma da onda quebrada.
levantar, desequilibrado, e andar até minha mãe.
queria a sensação de dominar o mundo, a cada palavra.
as coisas cismam em estar.
eu queria o quase.
colocar os pezinhos pequenos na espuma da onda quebrada.
levantar, desequilibrado, e andar até minha mãe.
queria a sensação de dominar o mundo, a cada palavra.
as coisas cismam em estar.
eu queria o quase.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Poesia se faz?
Uns falam sobre a concisão. Não disperdiçar palavras.
Cortar, cortar. Catar feijões.
Um trabalho mineirador, que penera as palavras.
Achar a essência da poesia.
Sua forma mínima no tempo. Seu espaço mínimo no tempo.
Faz sentido. Parece que grande parte dos poetas, ou
a parte dos poetas grandes, segue essa "regra".
Mas,
poesia se faz?
Ou se acha,
descobre?
Ah, mas mesmo assim, achando-a como um diamante bruto:
é preciso lapidá-la?
Eu não sei ainda...
O que vocês acham?
Cortar, cortar. Catar feijões.
Um trabalho mineirador, que penera as palavras.
Achar a essência da poesia.
Sua forma mínima no tempo. Seu espaço mínimo no tempo.
Faz sentido. Parece que grande parte dos poetas, ou
a parte dos poetas grandes, segue essa "regra".
Mas,
poesia se faz?
Ou se acha,
descobre?
Ah, mas mesmo assim, achando-a como um diamante bruto:
é preciso lapidá-la?
Eu não sei ainda...
O que vocês acham?
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