segunda-feira, 5 de abril de 2010

visita

visitei a escola onde estudei. estava ali perto e resolvi entrar.
tava tudo mais ajeitado, pintadinho, diferente de quando eu estudei lá,
quando as coisas eram mais largadas, as paredes descascando,
o chão velho e mais sujo.

para minha surpresa, a moça da cantina (que desde quando eu comia lá já
tinha passado de ser moça) estava lá, com a toquinha branca e a roupa branca.
ela tinha um problema na fala. dizia "fagango" em vez de frango.
a gente pedia para ela dizer, de propósito, só pra ver ela falando errado.

o pátio onde a gente jogava bola, que na verdade era uma gaiola, tinha desaparecido,
virado sala. eu cheguei lá na hora do recreio. tava cheio pra caramba. num tinha lugar direito,
num tinha espaço aberto pra criançada brincar. achei isso ruim.

imagina. ficar sem jogar bola no recreio?
pelo que eu vi, o recreio virou um bololô de gente meio indefinido. todo mundo em pé.
faltava alguma coisa.

acho que eu cresci, porque as coisas pareciam muito menores, mas muito mesmo.
em vários trechos eu tinha que abaixar a cabeça. numa parede de pedras, que tinha perto
da entrada, onde eu brincava de escalar, agora eu alcançava o teto só levantando o braço.

mas o pior mesmo foi ver que a goiabeira tinha desaparecido também.
a goiabeira não existia mais!
conversei com uma professora que me contou que caiu um raio na pobre da árvore, e que no dia seguinte só tinha cinza no lugar. a goiabeira! o pátio a gente chamava de pátio da goiabeira.
debaixo daquela goiabeira muitas coisas a gente aprendeu:

- lei de gravidade: a goiaba de vez em quando caía na cabeça de um. se fosse na nossa doía, se fosse na dos outros, era engraçado.

- romantismo: as meninas gostavam de sentar e conversar ali embaixo, se fosse só você e elas.

- pique: geralmente a gente usava a goiabeira como poste-pra-pique. aprendí ali a fingir a contar até cem.

- sombra: as árvores são funcionadas para dar sombra em dias quentes.

- escalar: os troncos me aguentam mas não os gordos da sala.

- germinação: a gente tentava plantar coisas na terra da goiabeira, como: milho, semente de laranja, semente de melancia, bola de gude, lápis, feijão, batata rufles....mas não cresceu nada.

- poesia: ali era um bom lugar para nada, ou seja, para poesia.


tentei olhar aquele pedaço de chão pintado e não enxergar de novo a goiabeira que costumava morar ali.
consegui não enxergar.
consegui ver nada.

domingo, 4 de abril de 2010

vi a chuva

parece que choveu até amanhã
o rio que a chuva inventa em coro com as folhas
retransbordará
nas minhas bordas
até virar sol

o cheiro da noite esteve úmido
desenhei o cheiro com um pingo dágua
o desenho é inventado
mas molhei a chuva de mim

vi a noite se esconder de mim com o rosto atrás da chuva
como a gente faz com nenê
e ele acha graça

não achei garça
as garças estavam escondidas atrás da noite
e eu não

agora estou como um voyer
vendo a chuva tomando banho
de cidade

nuazinha!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Poema retirado de uma notícia do jornal nacional

acabei de ver no jornal nacional que os cientistas estão estudando os passarinhos e fazendo descobertas incríveis sobre a relação do canto e genes do DNA.

grande merda!

o meu bisavô-de-poesia
Manoel de Barros

já será pré-doutorado em pássaros.

os sabiás querem sonhar ele.

até preferem ele para entregar o azul.

já o preparam para árvore. (cientificamente falando: bosteiam e ninham ele)

e os cientistas o denominam
bocó.

eu o desdenomino
poeta.

se pois bem dá que no mesmo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

heresias

o cristo apagou o dia com a bunda.

pronto. inventei essa frase, e me diverti.

vó falou que era heresia.

eu achei que era

poesia mesmo.

sábado, 27 de março de 2010

vendinha

na quinta série eu comecei a vender coisas.
criei uma vendinha de venda e aluguel.
tinha de tudo, cds, revistas, brinquedos...

quase ninguém comprava.
mas o pedro pereira, um garoto muito sacaneado lá,
comprava e alugava tudo.

eu fazia uns 20 reais por semana.

até que a coordenadora mandou me chamar na sala dela.

disse que era proibido fazer comércio na escola.

acho que eu tinha futuro.

quarta-feira, 24 de março de 2010

cheiro de mulher

ela tinha cheiro de pipoca doce
ou melhor
de algodão doce

as patricinhas tem cheiro suave
as medianas tem cheiro mediano
as mais pobres
tem que ter cheiro mais forte

pode ser uma flor
fruta, planta
maresia
doce

depende

sexta-feira, 19 de março de 2010

A História de Nana

o segredo dela era passear pelas manhãs como quem vai comprar um pão na padaria.
e só com isso em mente, ela desafiava as leis da gravidade.
pulava cocôs de cachorro com a plasticidade de um Nijinski.
quebrava o pescoço dos pedestres.
e ela nem tinha um poodle.

encontrou um bebê num lixo.
lavou-o com sabão de coco.
colocou numa prateleira.
e vendeu.

já senhora, lembrou de quando dançava na festa junina
vestida de marinhachiquinha
com sardas de mentira
de braços dados com um menino
que ela não lembrava o nome.

depois se casou e teve 4 filhos.
só 2 vingaram.
era pra lá de Getúlio Vargas.

as cartas de amor e poemas foram queimados
no dia em que flagrou o marido com a secretária.
recortou o corpo dele das fotografias
e comprou um poodle.

depois, saiu pelas ruas da capital
distribuindo beijos e bolinadas boas.
ela tinha uma bunda boa.

ainda bebê
só queria o peito da mãe, mamou até os 4 anos.
dormia com o dedo na boca
até morrer.

um dia ela sonhou que estava indo comprar pão
e todo mundo da cidade parecia que estava num filme
musical, dançando
como um balé de Nijinski.

no ato final, ela terminava seu número
abrindo os braços
e desaparecendo.

domingo, 7 de março de 2010

certa manhã, quando Caio acordou de uma noite mal-dormida, viu-se transformado em um bebê de 1 ano de idade.

sexta-feira, 5 de março de 2010

o menino

naquele tempo de mandar papelzinho de bala ice-kiss
e escrever recados num pedaço de caderno
você sorria

jogava paredão

se escondia nas pilastras

se jogava no chão e
chegava com o uniforme todo sujo de chão

no pátio da goiabeira
falar besteira
lutar kung-fu com flauta-doce
e apertar as bundas das meninas

pedia um xis do zé
que alguém até um dia encontrou uma piaçava de vassoura

dançava o claudinho e buchecha fazendo elefantinho com os braços pulando
como um doido

dançava música lenta nas festinhas
com o rosto colado
mas vergonha de beijar

escrevia poesias metafísicas de alto-nível
e teorias revolucionárias para mudar o mundo
enquanto algum professor
explicava a teoria de báscara

tocava a música do titanic no teclado
para impressionar as meninas
que gostavam do leonardo dicaprio

aliás, no bate-papo da uol
todos os meninos eram Jack
e as meninas Rose

mas ninguém sabia o que era cu


sábado, 13 de fevereiro de 2010

caminhando pelas ruas da cidade
foliões e fantasias percorrem os sentidos
sem direção

as ruas pulsam
as peles
tambor humano

e sentada na calçada
uma criança
se distrai
com uma barata

sempre fotografei
mais cantos
do que poses

o que me chama mais atenção
é o que não chama atenção

eu chamo isso de anti-visão

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

apaguemos as luzes do apartamento
desliguemos a tv, o ar-condicionado
reguemos as plantas da varanda
e fechemos a janela

agora,
respirando profundamente
abrimos os olhos
e percebemos
que tudo precisa ser inventado

domingo, 31 de janeiro de 2010

posso criar uma bela frase para tentar fazer com que você sinta o que eu senti
mas o poder dela está em tudo aquilo que só você pode sentir quando ler
ou sentir achando que eu senti
nunca uma frase se esgota
a não ser quando lida pela razão

assim como não deveríamos esgotar a leitura de uma pessoa
com os olhos, tato, cheiro, camisa, sapatos ou nua
inventar uma leitura ajuda nesse caso
e nos outros

a gente se esqueceu de inventar as coisas
e agora só enxerga sete cores do arco-íris e ouve sete notas músicais
bom mesmo é enxergar mil notas músicais
e ouvir mil cores

na poesia pode isso

o leitor ou o poeta não precisam acreditar
nem fingir

na poesia não há espaço para ilusões como acreditar
ou fingir

só há um grande espaço para
nada

sábado, 30 de janeiro de 2010

dança de salão

quando quero o giro
procuro o passo
e desacho
no meio do salão

quando quero o fico
pressinto o tato
e desfecho
o samba e a razão

quando quero o umbigo
preciso de espaço
e desenlaço
as pernas e o coração

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

acabo de ligar o ventilador
está quente aqui
e ela lá na sala vendo simpsons

calça jeans escura
lap top na cadeira
escrever deveria ser algo

as risadas percorrem os cômodos
seria um sonho
se eu estivesse acordado

papéis, quadros de irmã
o chão é de madeira
desenhos na parede branca

a janela range
acho que é o vento
quase como se jogasse pedrinhas no vidro

sabe quando pisca a luz
e você acha
que foi você que piscou?

o nariz escorre
tenho preguiça de pegar papel
antes eu escrevia em papel

ainda não li muita coisa
nem escrevi quase nada
mas sinto como se pouca coisa realmente foi dita

ou será dita ainda
abro os jornais
e as palavras são fotos e as fotos são palavras

viver deveria ser poesia
remar deveria ser poesia
e não rimar

mas às vezes o mar está agitado
e às vezes os olhares não esperam os corpos
e fica aquele espaço entre o feito e o não feito

fica o espaço entre o passado e o futuro
a que chamamos presente
seria mais fácil só viver

lá fora poderia chover
e alagar a cidade
como na baixada fluminense

os ratos agora sabem morrer nas calçadas
e quem estiver de sapato não fica de pé
tratores vão abrir a terra para plantar poesia

será tão difícil assim enxergar
que só o abrir dos olhos
faça milagres modernos?

um embrulho branco
procura mãos limpas
para presentear

o céu teima em escurecer
mesmo quando a gente
só quer acordar

acordei lá prás três
a noite ontem
durou talvez

justo agora que eu me emocionei
vem essa merda
de pensamento

poesia poderia ser não pensar
uma espécie de meditação
ativa

enquanto os dedos digitam
o corpo inteiro
digita junto

em uníssono
formando
composições

quantos por aí se dizem poetas
até eu mesmo já me disse
agora eu tento apenas silênciar a poesia

de tanta palavra
o que fica
é o silêncio

de se saber
código
linguagem

e de nunca
se ser
o que é


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

ela dobra o sol com a boca
e cospe uma manhã
amanhã ela dormiu no silêncio
de um grito que a chuva dá

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

talvez seja a noite que impregna nas coisas um gosto de ilusão
talvez seja a noite que impregna nas ilusões um gosto de coisa

mas não, foi essa tua dança, tua virada de quadril
mas não, foi esse teu quadril, tua virada de dança

se fecharmos os olhos conseguiremos enxergar o futuro
ou será que se fecharmos o futuro conseguiremos olhar o fecho
o fecheclér
o feixe eletromagnético de todas as tvs
o peixe elétrico

talvez seja a ilusão que impregna na noite um teor de gosto
um gosto do cheiro
um paladar do toque

sua dança anônima
- não existe e ainda sim está

uma nova descoberta precisa de um grito
terra-a-vista ou coisa assim
mas preferimos manter assim
prefe-rimos
de
rimas

sim, é a noite
é você
é essa bebida
é esse olhar
é essa noite

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Religião

hoje o céu tá bem estrelado.
dá pra ver vários pontos brilhando.
e pensar que estão tão distantes, que podem até não existir mais.
(ou que talvez nem existam de fato, são apenas furos num papelzão preto cobrindo a Terra e alguém bem grande com uma luz atrás)

procuro as constelações do zodíaco.
mesmo sem acreditar em astrologia.
os signos que o mundo oferece a gente já não sabe mais ler.

às vezes me perco durante algumas frações de segundo.
depois, um cachorro engraçado, uma criança de rua, uma moeda no chão,
uma buzina de carro, um olhar de menina, alguma coisa vem e diz que as coisas existem mesmo,
ou melhor, que é melhor eu acreditar que existem, e atravessar logo a rua porque o sinal já está abrindo.

mesmo quando você tenta fugir, desacreditar, a vida te oferece tanta poesia!

escrevo como religião. escrevo até acreditar.
antes de ontem
vi um cachorro de cadeira de rodas

só pra constar

sábado, 9 de janeiro de 2010

passagem

uma criança nasce na china
e outra na chuva
eu sou cidadão do mundo
mas perdi meu passaporte
só posso andar descalço
e de passagem

uma dança nasce em mim
e outra na uva
eu sou coração profundo
mas ergui meu muro forte
só passo andar em falso
e de massagem

uma crença nasce neblina
e outra na rua
eu sou caminhão imundo
mas ver-te me fura a morte
só aço arde o aço
e de mensagem

domingo, 3 de janeiro de 2010

é preciso?

dentro de cada homem bom existe um assassino.
eu só fui descobrir isso depois que me matei.
a cada dia morremos e renascemos.
por que a ilusão de que tudo continuará igual?
nada permanece, muito menos essa frase essa palavra essa vírgula, e esse ponto final que não vou escrever

será preciso destruir tudo o que foi feito para construir de novo um novo
a poesia pode ser feita de cinzas e escombros
será possível chorar nos ombros de desconhecidos
e o sol será laranja e verde

agora pegue o seu coração e veja como ele bate desesperado por um pouco de vida
o que você fez hoje que irá mudar a sua vida?

que poesia você encontrou caída num beco, atrás de um lixo sujo, nos olhos de uma mulher?

que soco você deu em alguém? até quando tempo você aguenta sem respirar e sem se mexer?

será preciso apenas abrir os olhos para ver a poesia
ela não estará mais nos papéis nem nas telas de computador
será preciso não precisar mais nada
navegar não será preciso
e quando tudo não for mais preciso
saberemos exatamente o que fazer
a maneira do não-fazer estará clara límpida brilhante sol brilhando pelas praças do meu país e dos países da memória
será preciso ser criança
e olhar as estrelas com a ponta dos dedos
e molhar as calças com mijo quente
e comer o misto quente da garota bonita da turma
e cuspir no cabelo da sua mãe
será preciso muito mais
para imprecisar a vida
com poesia

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Memórias 3

Me lembro de algumas coisas da festa da Paulinha no Clube Federal, Alto Leblon.
Estava todo mundo da escola. A gente chegou numa van. Foi mó zuera na van. Cantamos mamonas assassinas, andré-roubou-pão-na-casa-do-joão, jogamos papel na cabeça do outro. Era um dia bem quente de verão. O sol. A primeira coisa que eu me lembro é de que o clube era bem grande, com espaços amplos e que quando a garotada chegou saiu correndo e gritando e pulando pelas cercas e bancos que tinham na frente. Rolou um fute. Uma cabeçada tremenda, devia ter uns 25 dentro de um campinho de areia. O André, se não me engano, fez um gol, meio de perto do gol. Era muita engraçado, porque todas as meninas estavam jogando junto também, então era aquele negócio de ir uns 6 disputar uma bola, as meninas chutando as canelas de todo mundo e a gente rindo, dando drible da vaca ou ovinho nelas. Eu até fiz um gol. A bola veio rolando e eu chutei que nem um maluco, de antes do meio de campo. Foi gol. Vibrei e soquei o ar como pelé. Logo depois, numa correria danada, escorreguei e me ralei todo. A gente estava jogando sem camisa. Me ralei na areia. Mas tudo bem.
Depois eu me lembro da gente curtindo uma piscina. Era uma piscina bem grande e o sol batendo nela refletia uma luz e eu deitei numa dessas cadeiras reclináveis de plástico branco e peguei os óculos escuros de alguém emprestado, me sentindo um cara de filme americano, olhando as meninas em seus biquínis e, se não me engano, pensei ou falei alto ou baixo: ê vida ruim.
Aquela calmaria durou apenas alguns instantes, quando começou uma gritaria: alguém tinha pego o enchimento de algodão de alguma garota e elas começaram a brigar, puxar o cabelo, numa cena bonita de se ver, tão bonita que juntou todo mundo e eu até pensei na hora, poxa, bem que poderiam me dar um guaraná e uma pipoca aqui, estou no paraíso. Antes, quando eu tava nadando naquela piscina, bem que eu tinha avistado uns dois chumaços de algodão, mas não imaginava que aquilo era o enchimento de alguma menina. Impressionante né. Naquela época a menina ter peito grande nem era tão grande coisa assim para mim, para os meninos. Como representantes exemplares do pensamento masculino brasileiro, ainda éramos (e somos) adeptos da verdadeira paixão nacional: bundas e pernas.
Depois daquela confusão, me lembro de pouca coisa...O Bruno me mostrando como andar de skate. Deve ter rolado brincadeira tipo verdade-consequencia. Não lembro de mais outra coisa não.
O que ficou mesmo foi aquela sensação, de olhar pra piscina, num belo dia de sol, e pensar que, anos depois, eu mais velho, lembraria daquela imagem, daquele som, daquele cheiro, pensando:
ê vida ruim.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Memórias 2

Eu continuo bom no totó. Ou pebolim, nome científico. Mas na época da escola eu era mais treinado. O recreio estremecia quando se formava uma dupla forte pra caramba: o Sperling no gol e eu no ataque. (se bem que só o Sperling no gol já seria suficiente para ganhar, afinal, ele era o melhor na parada)

As regras podiam ser: normal ou "da rua".

Normal: não vale roletar. melhor de 3. gol de golero vale 2.

"da rua": vale tudo. inclusive roletar.

O lance de roletar era para previnir aqueles babacas apelões, do tipo que ficam mandando haduken sem parar no street fighter, ou que ficam em cima da linha da área da bandeira no pique-bandeira, ou o que fica guardando caixão em qualquer pique. Tinha uns muleques sem-noção que ficavam roletando direto e achavam graça. Roletar na frente do golero é sacanagem. Lembrei o nome de um, inclusive, mas não vou falar por motivos éticos.

O Sperling além de esculachador, gostava de tirar onda. Chegava perto da mesa, no começo do recreio:
- Ei, babacas. Eu só vou comprar um xis ali no zé, aproveitem ai, porque quando eu voltar vou ficar na mesa até acabar o recreio.

Filho da mãe.

E ficava. Era ótimo jogar no ataque com ele. Eu só precisava chatear as jogadas dos adversários, e, quando o Sperling dominasse a bola com o goleiro, eu esperava o chute dele e levantava todos os meus jogadores. Era gol, daqueles de cair a bola no chão. Não dava pra ver a porra da bola! Nego ficava chateado e o rodízio de de-fora ia rodando. Acabava o recreio e a gente ainda estava lá. O Sperling deixava o xis em cima da mesa e ia comendo. Eu também. Era legal. Tirava mó onda com as garotas. Nem tanto. Mas tirava.

sábado, 26 de dezembro de 2009

se eu fechar os olhos
estou boiando naquela cachoeira da Serra do Cipó
que parece cenário de filme
A Missão
ou coisa que o valha

a juventude pode ser uma brisa
e a calçada ainda continuar suja
o céu no horizonte um sorriso
nos olhos de amigos
o desconhecer a duração das coisas
o desconhecer

boiar, boiar nessa superfície clara e espelhada
que me lembra olhar o céu de de baixo d`água
na piscina
e tocar na fronteira do submerso
o que é água e o que é imagem
o que é verde
o que é vertigem

sempre fui da água
sempre flui água
e remo, e temo, e não temo

nunca foi nada
nuca, fuga, afaga
fluir

ê Serra do Cipó

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

na cidade a janela encerra todos os infinitos
e o cristo redentor abraça algumas nuvens
no apartamento do vizinho tocam músicas bregas
e aqui a minha vó traz as rabanadas

é preciso fechar os olhos para escutar a cidade
o doce silêncio que ela faz quando fecha os olhos
o silêncio de crianças abrindo presentes
e de pais conversando sobre o mercado de trabalho
e as primas bonitas falando de beijar
e as tias falando da última doença ou do pé inchado

deito no chão mesmo
a embriaguez do suco de uva e do pernil me contam causos
e descubro um novo risco no teto ao lado da luminária

é natal
tem gente nas ruas sem ninguém
sem comida
e eu aqui

talvez no próximo
eu saia por ai
fazendo alguma coisa

hoje eu to cansado de ser bom

no natal a gente pode ser até burguês né
tudo está perdoado

e amanhã
ainda vamos enterrar os ossos

a vida é bonita
tem coisas que deixam a gente triste
tem outras que deixam feliz

eu já tomei tristeza, já tomei alegria

hoje tomo poesia

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Memórias 1

Inauguro hoje, dia 17 de dezembro de 2009, uma espécie de autobiografia de coisas que eu lembro, e de lembranças inventadas. Se você leitor quiser saber ao certo a veracidade desses fatos e memórias, só posso responder citando o Manoel de Barros: “só dez por cento é mentira: o resto é invenção.”.

Uma das minhas lembranças mais remotas e a sensação de tocar na areia pela primeira vez. Não sei se é uma lembrança da sensação ou se é apenas uma sensação imaginada pelo jeito que minha mãe contou o ocorrido.

Era um dos meus primeiros dias numa creche, quando decidiram me mostrar o parquinho, onde tinha aqueles brinquedos e o chão todo de areia. Pensando hoje, parece que a areia é uma forma de evitar que as crianças se machuquem ao cair. Uma boa idéia. Pois sempre caem, é inevitável.

Eu devo ter pisado na areia e estranhado. Que coisa esquisita...o chão agora não é duro como os outros chãos...Deve ter sido curioso. E com aquelas perninhas tortas eu tentei andar um pouco na areia.

Pelo pouco que me lembro, eu devo ter estranhado tanto, que decidi sentar na areia e analisar aquele chão esquisito, com as minhas próprias mãos, numa atitude claramente experimental, de um futuro homem da ciência, instigado pelo conhecimento. Exagerei um pouco, mas ficou legal. É melhor guardar as imagens e sons com um pouco de exagero nas partes legais, nas partes que animam. Juntando tudo, a vida parece mais viva na memória.

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Quando eu fiz 13 anos decidi mudar minha vida completamente. Já não era mais o mesmo Taiyo. Ou não queria ser. Definitivamente, estava entrando na adolescência. O primeiro passo foi na escolha do presente de aniversário.

Fui para uma livraria dessas enormes que vendem de tudo, direto para a seção de música, cds, dvds. Já tinha algo em mente. Dois cds: um do Jimi Hendrix que eu tinha lido sobre na revista Playboy, e outro do Black Sabbath...acho que era Black Sabbath ou AC-DC.

Segurei os cds nas mãos, todo confiante, e peguei uma daquelas maquininhas para tocar e ouvir o disco no fone de ouvido. Epifania: sem saber, deixei o volume no máximo. Sorte ou não (nada é por acaso), a primeira música do disco do Hendrix começava justamente com uma porrada na guitarra, uma palhetada forte pra cacete, muito alta e distorcida.

Aquele som fudeu qualquer neurônio da criança que existia em mim.

No natal, pedi uma guitarra:

“Igual a do Jimi Hendrix”.

Agora sim, a criança estava morta, e um longo período conhecido como adolescência estava para começar, com muito rock (Hendrix, Sabbath e Zepellin, drogas (guaraná, açaí e paçoca) e sexo (solitário). É triste mas é alegre.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

as paredes estavam me dizendo que eu era poesia.
e a poesia estava me dizendo que eu era parede.
antes de escolher, decidi pela dúvida:
não seria nem poesia nem parede:
seria o espaço e tempo entre elas.

sábado, 12 de dezembro de 2009

estou na minha antiga escola.
no pátio de baixo.

não era o pátio da goiabeira, nem o pátio do campo de futebol. no pátio de baixo, eu fazia a aula de teatro, já de noite. ali também era o palco para o campeonato de paredão. era preciso descer uma escada com degraus pequenos e um corrimão de madeira. já perdi as contas de quantas vezes caí feio daquela escada. meu joelho conheceu cada degrau profundamente. por outro lado, aquela escada proporcionou a descoberta mais interessante depois de que tudo era átomo: as bundas das meninas, suas pernas e coxas e tornozelos.

estou dormindo. no chão, como costumava fazer.

acordo e está escuro. como nas aulas de teatro. mas o pátio está completamente vazio. o latão do lixo está virado, como quando a gente jogava porradobol e eu gritava como um louco.

então ouço as cores da parede:

- você está proibido de contar o que vamos te contar agora.

e então as tintas da parede do pátio foram desenhando uma figura humana. era o meu reflexo.
o desenho era transparentemente real. espantado, olhava-me com olhar recém-nascido. foi quando, numa nova configuração visual, as tintas desenharam o ambiente ao redor do desenho, tornando-se reflexos perfeitos do pátio. confuso, não distingui mais o que era reflexo e o que era o verdadeiro pátio. decidi sair dali, tentei correr na direção contrária, mas, estranhamente, não conseguia sair do lugar. percebi que não havia outra dimensão no espaço, que não a altura e a largura.

voltei os olhos para a parede, que agora esboçava um escrito:

"Não tente fugir do que é seu"


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

um dia a chuva fez uma poça
na porta da escola.

o muleque chegou lá
olhou pra ela
e viu a própria cara.

soltou um cuspe

eu ein, onde já se viu, mó macaco de imitação

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Felina

deita na cama
estica o corpo
vira e me chama
com olhar torto
joga o cabelo
gira os quadris
faz um gelo
pede bis
deita e aproxima
puxa meu braço
mia em rima
ri do que faço
vira de costas
puxa o lençol
sei do que gostas
puxo o anzol
arranha meu peito
torce o pescoço
vira de um jeito
arrepio no dorso
contorce e me quer
mia um pedido
felina mulher
que dorme comigo

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Ela

ela acorda abismos
e dorme escadas

ela colore músicas
e apaga falas

ela questiona o céu
e responde o mar

ela veste o sorriso
e tira o vestido

ela dança com meu corpo
e eu com o dela

ela confunde a lua
e esclarece a terra

ela se encaixa em mim
e eu protejo ela

ela me alcança
e molda uma dança

ela se protege
no meu abraço

ela é só ela
sem tempo
sem espaço

domingo, 6 de dezembro de 2009

uma menina
com uma ampulheta na mão
jogando dados de brinquedo
caindo e levantando do chão

azul
macacãozinho
toda a curiosidade do mundo
sem nenhum medo do desconhecido

o mundo é uma brincadeira
grande
que gira
gira
e deixa tudo girando
enquanto que a gente tenta
ficar de pé

uma menina com uma ampulheta na mão
e ela nem sabe o que é o tempo

(nem eu)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

nas linhas do teu corpo
descubro meu país

no teu ventre
descanso e canso
no teu umbigo
mergulho e bebo
no teu seio
me abasteço
no teu sorriso
me enredo
no teu mistério
descubro cidades e metais

os teus olhos bebem o céu
e tem mais força que as tempestades

dentro deles é fácil
desfuncionar o mundo e os abismos

nessa geografia táctil
enxergar com as mãos é mais seguro
e mais perigoso

na tua pele macia, nos teus pêlos
cultivam mel e frutas
na tua bacia
dois rios se encontram
entre tuas coxas

uvas roxas
mamão papaia
framboesa e morango

domingo, 22 de novembro de 2009

Aquilo

pra que tudo isso
precipício
edifício
desperdício
de palavras
de promessas
de passados
de processos
de personagens
e engrenagens antigas

pra que tudo isso
de esconderijo preciso
de mapas
de cartas
de rotas marítmas
e salas
e pistas
e falas e calas e rimas

pra que tudo isso
de siso
de saia
de sina
de saiba
de cisma
de sonho
de somos-estranhos

pra que tudo isso
de isso
de aquilo
de grilos
de calos
de pares
e passos
e partos
e pathos

pra que tudo isso
de certo
de perto
de sermos
incertos
de insetos
e setas
e metas
e alertas

pra que tudo isso?
pra que?

se o que a gente quer é aquilo?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

Noite anterior

Não consigo dormir
a cidade está
engolindo os silêncios
e eu pensando em você

não consigo dormir
meu coração de motor
já deu voltas na cidade
deixando um cheiro de vinho
nas moças e nos apartamentos

não consigo acordar
dessa poesia
que você sonhou

eu só posso oferecer
o que está no mundo
quando a gente imagina

nas curvas do teu rosto
na sua cintura
nas suas entradas e bandeiras
eu descubro meu país

o coração de navio
sem bússula
quanto mais perdido
mais eu me aproximo
do alvo
do teu corpo e abismo
e engano o tempo

o teu riso deforma o horizonte
pinta um pensamento
do cheiro do azul

o teu riso deforma o poente

um pouco de caos no mundo


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

viajando na velocidade do som
o seu sorriso de combustível
atravessamos as paisagens da memória
da infância, segurando uma poesia numa mão
e um sorvete Itália na outra.

o mundo em backprojection
parece girar infinitamente
dentro de uma máquina absurda

você faz cinema com os olhos
eu só faço poesia com o mundo

caminhando com os pés no céu
de cabeça para baixo
o mundo invertido é bonito
o mundo dá pra ver melhor
de cabeça para baixo

mas quando olho teus olhos
o mundo está de cabeça para baixo de cabeça para baixo

o
x
i
a
b

a
r
a
p

a
ç
e
b
a
c

domingo, 8 de novembro de 2009

Limitedosom - vinhetas no Myspace


o projeto: vinhetas curtas, poesias concisas.
lembrando: disco do Lô (1972)

http://www.myspace.com/limitedosom

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A Charrete

Eu lembro daquela foto.
às vezes eu me lembro daquela foto.
eu não lembro do que foi aquela foto.
eu lembro da imagem da foto.
às vezes eu sinto o que eu vi, quando tiraram a foto.
o menino estava correndo, junto com os colegas da escola, numa fazenda.
"Piperama".
o menino entrava em uma cidade em miniatura, uma cidade das crianças.
numa dessas casinhas, roupas de adulto, antigas. de quem eram?
o menino coloca a roupa e vê uma professora, ou uma dessas mulheres-senhoras que
cuidavam das crianças.
ela está com uma máquina fotográfica. ela tira uma foto.
o menino cresceu e hoje vê a foto.
o menino morreu, para nascer o garoto, e o garoto morreu, para nascer o homem.
Eu lembro daquele menino. eu não lembro daquele menino.
e na lembrança do menino?

como ele lembrará o homem?

domingo, 1 de novembro de 2009

zentimental

no brilho do sol que bate na janela
na janela do sol que bate no brilho

eu vejo só o miró do mirror
eu vejo, só, o sozinho de mim
eu vejo o Tejo e a liberdade
a pátria a morte oh liberdade
eu vejo o Oriente a oriente do oriente sorridente
o rio rente o Rio
eu rio do que vejo por que vejo o sole mio
eu canto o beijo que recebo do sol
na testa na cabeça no trem asul

zentimentos em meu peito eu tenho demais
zentimentos em meu peito eu tenho eu
o eu zente muito a minha mente
e zentimentalmente falando a gente não mente
fosse um samba seria canção
fosse uma cueca seria branca
fosse uma bandeira seria do Brasil

tenho em mim todas as respostas para as perguntas que elas geram
mas tenho em mim todas as respostas para as respostas que elas não respondem

fosse eu Deus e transformaria arte em ouro
poesia em ouro
e ouro em poesia

mas sou humano, demasiadamente humano
e só opero equações de primeiro grau
e ditado com 10 palavras. ponto final.

eu aprendi na escola como escrever as palavras
mas o significado eu aprendi na rua
em todas as minhas pequenas mortes
e pequenos nascimentos
em todos os cuspes e tapas na cara
e carrinhos do futebol

se você queimou aquelas poesias
feitas de caderno amarelo e lápis
só fez questão de ilustrar o que estava escrito
cinzas e promessas e futuros já passados

poesia de criança só serve para queimar papéis
e embrulhar balas ice-kiss

a verdadeira poesia
ficou guardada no meu futuro

a verdadeira promessa
já pegou o primeiro ônibus escolar

a verdadeira canção
eu cantei e esqueci

estou de pé e pulo e grito e gesticulo com o abismo
numa luta eu me domino e continuo a continuar
piso duas vezes no mesmo rio
jogo a piada no lixo
e planto um som no mundo

domingo, 25 de outubro de 2009

quando eu perceber
a alegria existente em cada mínimo objeto e em cada mínima criatura
quando eu perceber que a alegria é minha e Tua
quando eu perceber
que o Eu não existe
a alegria que persiste e me persegue, me fecundará do presente
quando eu perceber
a música do silêncio
a musa de-quando-fecho-os-olhos
a poesia dos corpos em movimento
a vida nascendo nas nuvens
os sonhos trazidos pela chuva
a história dos meus ancestrais
a minha história ancestral
o meu futuro ancestral
o nosso futuro ancestral
quando eu perceber
que perceber é mais Ser do que ter
quando eu dar sem procurar receber
quando eu perder o medo
da morte
do desafio
de revelar a minha ignorância
quando eu perceber
que somos Um

será poesia

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

coisas

é difícil aceitar
mas as coisas acabam.
até uma poesia acaba.

o fim é uma etapa importante
de todos os processos.

a memória acaba?
pode ser. até a memória pode acabar.

é preciso o fim para que venham novos começos
e novos fins para outros novos começos.

o fim evidencia a mudança, o movimento do mundo.

a saudade acaba?
pode virar memória. e até a memória pode acabar.

saudade só tem no português. maldita e linda língua essa que
espalha saudade pelos portos. até a língua portuguesa terá seu fim.
fernando pessoa, de certa forma, voltará para o rio de sua aldeia, o rio nenhum,
em formato de pó e silêncio.

e o amor?
o amor pousou de levinho em nosso futuro, só pra fazer cosquinha, contar causos
e partir,
mas deixou o sorriso. o amor é generoso. deixa coisas, mesmo que seja nada,
deixa coisas.

coisas que não pesam e pesam mais do que bagagem
coisas que lembram do futuro
coisas que resolvem poesias
coisas feitas de pedaços de parede e mel
coisas pequenas que você deixou cair
coisas que voam de carona em perfumes
coisas que alguém se esqueceu de dizer e vento às vezes trouxe

coisas

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

penso, não existo.

porque pensar é não existir.

quando eu existo, não penso.
se penso, não existo.

tudo aquilo que existe, não pode pensar.
a partir do momento que algo pensa, deixa de existir

e passa a amar.
eu guardo as palavras dentro da boca
e mastigo, castigo

eu guardo sentimentos no peito
e grito, mito

histórias que existem desde o começo do mundo
desde quando as águas andavam na face do nada
e quando o verbo se fez árvore

dentro de mim tem uma casca
e fora tem um centro

quem quiser saber meu nome
é só olhar no espelho
remando hoje eu vi uns peixes pulando
e umas aves mergulhando n'água pra pegar

estava um pouco nublado. um clima ameno.

a melhor maneira de remar é fazer parte barco e o barco fazer parte da água.

a melhor maneira de amar é fazer parte do mundo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

a porta se abrindo com você se escondendo atrás
o cheiro de seu pescoço.
o calor entre o seus cabelos e nuca.
o quarto bagunçado.

cada pedaço da tua casa está no meu corpo

terça-feira, 6 de outubro de 2009

se meu coração fosse um espelho
ele refletiria
se ele fosse um reflexo
ele fingiria

as batidas de coração
vêm do centro da terra
um centro onde todas as bocas do mundo
urram

se as batidas fossem minhas
elas seriam de todos
em cada boca e em cada beijo
se espera um segredo
embrulhado em saliva

se meu coração fosse de plástico
estaria boiando na baía
com uma carta ainda vazia
que eu mesmo leria
um dia

se meu coração fosse seu
ele seria meu

se meu coração fosse real
ele seria feito de sonhos

o mundo dorme sonos dogmáticos
e nós preparando o jantar para a morte

se meu coração fosse
ele seria

domingo, 4 de outubro de 2009

às vezes a poesia nasce quando a linguagem cessa
o Sol canta perguntas desafinadas
para a Humanidade desresponder
é só olhar para a distância
é só não responder as descobertas
é só escolher a fruta que não caiu e que não nasceu
florir de mulher o sorriso
desentortar o próprio umbigo
e olhar o torto da alma e do corpo
em um só sol sustenido