quinta-feira, 3 de junho de 2010

lugares que não existem

subindo pelo lado direito do crânio
uma certeza escorrega as mãos
e cai no vazio da cidade cheia
cheia de gente olhando ali de baixo
gente sem roupas de baixo
gente que provavelmente não toca baixo
gente que pinta quadros com crânios
gente cheia de certezas

e morta ali no meio da rua
a minha certeza quer dizer as últimas palavras
agora antes do depois
que veio quando amanhã o tempo pula junto
agarrado gravando as suas unhas de relógio
nas costas da certeza
que sangra metáforas vermelhas
rosas, batom, sinal fechado, tomate, vulva

escorrendo pela rua
uma liberdade começa sujar as botas
daquela gente com certezas
e algum poema
feito de música, cinema
não sei bem ao certo,
começa a transformar as coisas pequenas
e nisso, de repente,
um jovem pára
no meio da rua
e olha ao seu lado
uma jovem
que também pára
no meio do lado
em cima e em baixo

em lugar nenhum



terça-feira, 1 de junho de 2010

versos da oitava série

"na sujeira do chão
eu dormia tranquilo
porque a sujeira
dormia comigo."

me lembrei, assim, do nada, desses versos que tinha escrito lá na oitava série!

deixa eu desexplicar:
eu sempre dormia em qualquer lugar
lá na escola.
no chão, principalmente.
não sei por que.

mas acho que deve ser essa vontade
de sonhar

que dá sono


segunda-feira, 31 de maio de 2010

ontem a minha vó estava vendo chaplin

no sofa da sala. passou no canal futura. acho que é o 32 da net.
minha vó gargalhava alto, enquanto o carlitos apertava os parafusos, ficava louco, entrava dentro das engrenagens.
"não se fazem mais ontens como antigamente..."

e de repente sou eu que estou numa engrenagem
na grande engrenagem do mundo

aquela imagem do filme
talvez sirva como um sonho do artista
fazer parte do mundo
pelas avessas
desengrenar o mundo
sair da fila dos movimentos mecanizados
com uma loucura
com um ideal
com uma bandeira
com fome

domingo, 30 de maio de 2010

uma questão de gosto

eu gosto do céu porque ele é
mel.

as nuvens sorriem desenhos naif
quando a imaginação quer sonhar
cordilheiras da noite.

eu gosto do mar porque ele é
céu.

teu corpo geograficamente feminino
inventa um sol maior
com uma flauta de ossos e canta
um conto
de reis.

eu gosto do vento porque ele é
inventado.

corre por de dentro dele
um outro vento
que não existe
mas a gente acredita.

eu gosto da terra porque ela é
plana
dor

é uma questão de gosto
não se discute
não se julga

se poesia



sábado, 29 de maio de 2010

pós-operatório

escrevo essas palavras com óculos escuros
e um olho lacrimoso de pós-cirurgia

vou me livrar da miopia
mas não do olhar enviesado
da poesia


quarta-feira, 26 de maio de 2010

hoje eu dormi no ônibus voltando de niterói e aqui conto o relato objetivo* do que aconteceu:

passei do ponto
do ônibus
porque dormi
e tonto
atômico pranto
o sono
passeia breve
e pronto
já é distante
o ponto
já é passado
a praça
já é neblina
buzina
aos trancos e
barrancos
por onde a vida
grita
asfalto e fantasia
borracha
contorcida
queimando as listras
brancas
por onde passam
tias
que pisam seus
sapatos
seus sonhos
sublimados
em plena faixa
livre
pedestres vão
e esbarram
meu corpo passa
o ponto
atropela a própria
perna
de um sonho
de sonâmbulo
agora o sonho
manca
e pisa em ponto
e ponto
e pula a primavera
em plena avenida
eu vejo o corpo
dela
perdido em
ser bonita
tropeço em
aquarela
no chão vermelho
e cinza
as lágrimas que caem
dela
pincelam
poesia



*relato objetivo: é se transformar em objeto para poder perceber as coisas objetivamente: exemplo: olhar o mundo através de uma visão de pneu, ou de papel, ou de óculos, coisas assim, issos.

terça-feira, 25 de maio de 2010

imagem-mãe 1 - terra em transe

caminhando sobre a areia
um céu nebuloso porém claro
uma poesia escrita sobre a imagem
um homem com uma metralhadora
apontando uma metralhadora aos céus
um lamento na voz
uma sinfonia de villa-lobos
um corpo agonizante
metralhadoras
bombas
violinos
tiros
sirenes
um corpo se contorcendo
com uma metralhadora na mão
"o triunfo da beleza e da justiça"
gritos
som e fúria
numa duna de areia clara
sob um céu nebuloso e claro
villa-lobos no piano e orquestra
um homem com uma metralhadora
um poeta



domingo, 23 de maio de 2010

poemas roubados de falas da bi*

- quando as borboletas se encostam dão choque.

- tem uma bola de fogo caindo no mar.

- mim dá a minha encoberta!

- onde eu sou?

- á lá um gambá! (era um cachorro)


*bi tem 10 anos e às vezes é reprimida por poesiar. os adultos a corrigem para a gramática correta da língua. eu costumo descorrigir para a agramática correta da poesia.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Análise descientífica do trecho inicial do Poema Sujo do Gullar

Metodologia Descientífica:
Inexplicitar a coerência dos versos iniciais através de um estudo desestruturalista, utilizando como base conceitual: a Agramática de Padre Ezequiel, orientador de Manoel de Barros; a Metafísica de Álvaro de Campos e o Zen-Bundismo de Lô Borges no disco do tênis.

Antes de começar a ler, por favor, abra este link:
http://www.youtube.com/watch?v=uU5f-LXmqRo&feature=related
e ouça a música enquanto lê.
Ao terminar, escute de novo, e repita, até terminar o estudo.
Grato.

O poema de Gullar começa assim:

"turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos mole do que duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro"

nesse trecho de abertura podemos observar claramente nada.
um desentranhamento da vida que não é a vida ainda
vem sujo do que não é poema.

como uma flor que se vomita
vem em pétalas e comida: seiva bruta

como um vulcão que se erupta
vem em lava, baba, vulva: se exita

uma não-poesia
também pode entrar na poesia
porque poesia também é puta
dá pra todo mundo
dependendo do apreço que se pague

e Gullar continua:

"como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
"

aqui aprendemos que cu pode entrar na poesia
e que a poesia pode também entrar no cu
misturamos imagens na cabeça do leitor/poeta
que vai construir esse filme de sons mentais
através da repercussão da palavra no corpo
na retina
na rotina

outra deslição é que
podemos achar o azul de várias formas:

"para achar o azul eu uso pássaros" (Manoel de Barros)

Gullar usa gato, galo, cavalo
e cu

continua:

"
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
"

a questão dos orifícios poéticos por onde escorrem e penetram o
escorrimento lírico é aqui abordada com imprecisão acientífica

o corpo adquire autonomia poetal
e passa a controlar o fluxo de palavras para a re-produção criativa

corpo corpo
torpor torto
muito torto
trata o olho como um porto
donde partem naus gordas
em direção ao extremo nada
além, dos além

"um Oriente ao Oriente do Oriente" (Pessoa)

seria mais fácil cortar o aço
do que as palavras
de um poeta

seria um laço feito de cordas vocais vazias
que une o grito de dor do poeta
e a poesia?

Inconclusão:
É inevidente, portanto, que o trecho inicial do Poema Sujo, de Ferreira Gullar, necessita de mais estudos metodológicos para uma melhor análise descientífica de seus procedimentos agramaticais, seus desentranhamentos e seu uso de palavras chulas.

Concluimos que um poema nunca se conclui*

*é mais fácil para a poesia sair voando das palavras. dessa forma, ela pode pousar no ombro do leitor e sussurar um silêncio melodioso. as sinapses neuroniais do leitor vão se desformar, distorcer, até sair um pequeno curto eletromagnético chamado por Gullar de "espanto". é o espanto que impede a conclusão de um poema, visto que o espanto não está inserido na temporalidade aristotélica: é puro espaço vazio e tempo infinito.


quarta-feira, 19 de maio de 2010

leitura dinâmica

um jornal lê um homem
enquanto a pálpebra procura bundas
semoventes
bundas despretensiosas
para despistar a própria atenção

as bundas lêem os olhos da pálpebra
as pálpebras lêem os olhos do cu
enquanto uma noite descende os sentidos
e aprende a sorrir com nuvens

penso na vida
nas mulheres que amei
nas bandeiras, bandeira
pessoas, pessoa
moraes, moral
sofro do moral como barros
barros, barro
cago poemas
poesio cagos

e depois de remar na lagoa
um pássaro caga em mim.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Exercício de poesia 3

vamos trabalhar a inspiração.

a inspiração tem 2 movimentos:
- o poeta se isola de si-mesmo.
- o si-mesmo se isola do poeta.

poeta é um bicho de -7 cabeças.
lhe faltam 7 cabeças.
lhe faltam mundos.
lhe faltam coisas.

si-mesmo é a sétima nota da escala musical.
é também um espelho de vidro enviesado engolido
que só reflete sombra.

pra se isolar de si-mesmo
o poeta tem que prender o seu canto num arame farpado
e deixar sangrar o líquido alcóolico de suas utopias
e de seus erros

deixar a palavra embriagada de nada.

para o si-mesmo se isolar do poeta
é preciso que o poeta adquira olhar de uma nota musical
de um canto
adquira vertigens de música
e passe a não ocupar lugar no espaço
passe a dançar conforme as poeiras em contato com o bafo do sol
passe a desrespeitar as normas da física newtoniana
e vestir uma máscara feita para desmostrar rostos
o poeta precisa se desensimesmar
para que o si-mesmo se isole dele

pronto.
agora, com a poema devidamente interminado,
será preciso deixar ele ao sol
secando
pegando um bronze
ouvindo os sonhos da cidade
como quem escuta mp3 na praia.

deixar o poema respirar pra dentro.

inspiração:

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Cordilheira de Sonhos

tive uma visão:

eu de cabeça pra baixo riscava um disco* com minha cabeça
e o som que saia contava histórias que a humanidade sonhou

soldados com cigarros de chocolate pintavam murais
e um exército de poetas fuzilava um altar relogioso (religião que elogia duas vezes o tempo)

no altar três desobjetos:
um segredo escondido no canto de um percevejo de plástico
uma régua de desmedir o mundo
a cabeça de milton nascimento em bronze

joaninhas faziam poemas em bando
e minha mãe dava de mamar a um bezerro

na beira de uma menina tinha um mar morto
e um pedaço de corda
umbilical

as palavras para definir as coisas
eram impronunciáveis

cigarra cantava até amanhã
um cão contava causos ossais

minha namorada era muitas
e sonhava acordada com cores de uma música desclássica

tinha mato, internet e livros
e tinha muito pouco quase nada de tudo

`as vezes um silêncio costurava promessas com fios de cabelo da minha vó
`as vezes fazia uma tenda de circo

`as vezes o silêncio cantava só
enquanto a noite escalava a cordilheira dos sonhos


*o disco era o Clube da Esquina n:1 (1972) de Milton Nascimento e Lô Borges, o disco que me mostrou o futuro que eu tinha esquecido e rabiscou com tinta de luz as paredes da minha memória infantil. (nota do autor)

Coisas para se poesiar e mijos

jogar resta-um mijando nas bolinhas de naftalina no mictório.

o sol mijando milk-shake de morango na lagoa quando a boca do dia boceja.

o macaco de imitação ondulante que rema juntinho contigo.

o freio de trás da bicicleta que não funciona. (ele serve especificamente para não freiar)

esconder de criança com a mão na cara.

o filme que ainda não existe nos olhos da menina, mas que vemos, ali, por de dentro do brilho.

o salto triplo de um peixe quando quer coçar as costas no seu barco.

os desencontros com a gente mesmo que fazemos questão de comparecer*

aleijar ursinhos foffy para fazer paraolimpíada de chocolate no estômago.

um samba que se perdeu dos pés.

um mendigo no celular.

*o Manoel de Barros** lembra dessa coisa pra poesiar. (nota do autor)
**o Manoel é uma vozinha na minha cabeça que vem toda vez que alguma coisa faz sentido. ele vem e tira as calças do sentido. (nota da nota do autor)

domingo, 16 de maio de 2010

Menina

inventei uma menina feita de palavras
que era tão sensual quanto uma aliteração
e costumava vestir o silêncio com fantasia de carnaval.

essa menina cresceu
e virou mulher.

teve três filhos comigo:
um soneto,
uma fotografia onde pode se ver perfeitamente nada,
um filme mudo.

no soneto está tudo o que quis de mim e não tive:
amor, vento, coração, lua...
issos.

na fotografia aparecem claramente as cores da voz dela quando gemia de prazer.
o diafragma e o ventre da máquina estavam abertos para o sol penetrar.

no filme dá pra escutar o movimento dos nossos olhos quando o sol penetrava a câmera.

mas a mulher envelheceu e virou criança.
dizia que eu era o pai dela.
dizia que a cadeira de balanço tava balançando ela.
dizia que o mundo ia acabar.
misturava passado presente futuro.
a criança tentou ver tudo junto.
tudo no mesmo enquadramento.
e conseguiu!
consegui ver nada.

era tudo poesia.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

exercício de poesia 2

agora, vamos trabalhar a resistência ideológica.

- abra o jornal de amanhã.
- recorte a figura de um mendigo. (por favor, utilize palavras afiadas para a tarefa)
- cole na parede da sala, ao lado da televisão.
- pixe a palavra "FOME" por de cima da figura.
- vá até a geladeira e veja se tem comida.
- volte para a sala, e veja se a figura ainda está lá. (e se sorri ou chora)
- se estiver, experimente lançar um punhado de farinha, e ver se adere na imagem.
- se não estiver, mastigue a figura, sem bebida. (não vale juntar saliva)
- agora saia nas ruas de madrugada.
- tire fotos de olhos vermelhos. (com flashback)
- utilize o vermelho para trocar o seu sangue.
- agora durma, tentando lembrar de quando você foi ninado.
- pronto, agora que o o poema está devidamente inacabado, acorde de sol maior.

aquilo que você não lembrou precisa então, ser colocado num papel ou tela.

é preciso treinar todos os dias essa resistência.
treinar até se tornar irresistível.
ela dará fôlego para não desistir da poesia.
e não desistir de uma sociedade melhor.
e não desistir.
de existir
exit
ex
x

quinta-feira, 6 de maio de 2010

fernando pessoa me ensinou mentir verdadeiramente

escrevo o que sinto
sinto o que minto:

é vício
e verso

mãos dadas

fiz um poema
há muito tempo
sobre a gente
de mãos dadas
passando as escadas
do Municipal, na mente
na Cinelândia, no tempo
que era pequena

fiz um poema
tentando dizer
o que não foi dito
o que não foi feito
a gente sem jeito
virando infinito
tentando dizer
que a vida é pequena

fiz um poema
em verso e em prosa
misturando o real
com o que não inventei
o nosso olhar, fotografei
em preto-e-branco-jornal
onde apareço jocosa,
feliz, ingênua

fiz um poema
mas o perdi de mim
nas farsas de uma cidade
nos braços de um qualquer
no corpo de mulher
na própria felicidade
no muro um jasmim
de espanto em floema

quero o poema de volta
do mesmo jeito que fiz
mas não consigo escrever
escrevo o sinto
escrevo o que minto
o que posso fazer
se de mãos dadas, um triz,
a falta de um beijo, derrota?

quero o poema e os nadas
as ausências, as frases feitas
mas nem tenho os vazios
mas só lembro das mãos
só aceitamos os nãos
pelos antigos edifícios
pelas ruas estreitas
como nossas mãos: dadas?



terça-feira, 4 de maio de 2010

exercício de poesia 1

a poesia também pode ser uma ginástica, ela também deixa em forma.
para ficar em forma de poesia, há muitos exercícios práticos, como uma ginástica.
deve ser praticada todo dia, 30 minutos, no mínimo.
na ginástica física, trabalham-se os grupamentos musculares, a resistência, a respiração.
na ginástica poética, trabalha-se, especificamente, o músculo cardíaco, a resistência ideológica e a inspiração.
começemos pela primeira série, dedicada ao músculo cardíaco:

- apaixone-se.
- feche os olhos e veja a cor que aparece.
- coloque a cor complementar a essa no papel ou na tela.
- masturbe-se.
- utilize seus fluidos para desenhar alguma palavra no papel ou na tela.
- descanse.
- depois de 3 dias, observe o papel ou tela, veja se algum inseto instalou-se ali.
- entreviste-o.
- anote as respostas em forma de canção popular.
- cante em voz alta na frente do espelho do banheiro.
- durma.
- assim que acordar, tente lembrar da canção.

pronto. o que você lembrou, os fragmentos mais memoráveis, podem ser descartados.
escreva o que você não lembra.
o exercício de poesia 1 está incompleto agora.

pode alongar o pensamento contando 20 segundos para cada lado.

o músculo cardíaco estará mais fraco para os próximos exercícios.

visões

teu corpo aberto paisagem montanhosa flor
olhar o rio de janeiro de icaraí pode ser ver
servir par a com templo ação tua nua
sinuoso semblante solto
cintura pernas bunda sexo
poros
olhos
eros
om
v

(enquanto isso
alguém morre de fome
cata restos no lixo
vende o corpo
apanha do marido)

v
oco
você
voz
vozes
teu corpo é um filme
que passa em câmera-lenta no meu tato
tatuagem de impressões
e perco minha cidadania
minha identidade
me torno seu
e me torno você
torno-te nós
emaranhado na cama mesa banho
amor al roma
aroma amoral
lama
ama
a.m


sábado, 1 de maio de 2010

Precisão poética

preciso pegar uma imagem e torcer em palavra.
até sair água suja.
até chover.
até fazer sol.
até fazer som.
até ontem.

depois, preciso relembrar o amanhã.
com uma navalha imaginária
tecer o corte de um sorriso
nos olhos fechados do leitor.

até sair sombra.
até sair samba.
até entrar sonho.
até nunca menos.

finalmente, preciso
imprecisar as não-coisas
com poesia, vírgula: dois pontos
e sonhar concretamente
sonhos feitos de
nada (............. ).

Sapato

um sapato da beirada da janela
e atrás o sol desiluminando árvores
quase como se o sapato
pisasse na paisagem
e adquirisse fogo de vento
e no céu verde sobrevoar
os debaixos

(enquanto isso
escrevendo uma dança
no espaço sideral
a menina
indança até ontem)

o sapato já caminhou tanto pouco quanto sempre
justo agora que eu precisaria viajar
hoje comcertezas

quedê os sapatos de menino
será que os dedos vão rasgar o couro
e virar sandália?

tinha um que eu tinha desenhado várias não-coisas
tipo:

um ingueiangue errado.
um nome de alguma.
rabiscos psicodélicos com alguma lógica.
manchas de futebol.
barro de praias.

deve estar andando sozinho
pelas bandas do mundo
e dos além dos além

terça-feira, 27 de abril de 2010

essa vontade

essa vontade de ficar parado

essa não-vontade
de ficar parado

de se parar
separar

do mundo
das estrelas
da janela aberta
do sonho

essa saudade de sonhar
que vem
inexplicavelmente
em todos os segundos da minha
vida

em todas as vezes que eu me apaixono

sempre que eu tenho sono
eu me sinto mais acordado
para a vida

essa vontade escondida
de me mostrar

por inteiro
puro
puteiro

essa vontade de nunca mais voltar

domingo, 25 de abril de 2010

Exercício de Desentranhamento da Vida - 1 (sem revisão)

pessoas elaboram fazendas
fazendo poemas de coisas pequenas
enquanto o sol se põe
e põe na memória um desejo

poemas fazem pessoas
na minha cabeça
nascem bebês rindo

foi nas paredes da escola?
foi nas paredes da creche
escalar os muros da memória
e morrer um centímetro a cada salto

seria preciso desenverter os fatores do tempo
pular e pular e pular a cada invento
cada brincadeira dança das cadeiras
dança

eu te vejo com olhos abertos e mãos desembaraçadas
girando no pátio
segurando um sanduiche
driblando as minhas promessas de juventude

cachorro quente
a gente foi feito num jogo
onde o vencedor num tem

a moça do cachorro quente
a moça da cantina
a fala errada
silêncio lambuzando nossas mãos
saudade gritada com uniforme suado
você me olhando de lado
enquanto o beijo se possuia

era você ou era ela
era menina era mulher
pegar a areia com as mãos
pegar nas mãos cobertas de incertezas
e fabricar sonhos sólidos

eu só queria a lua
o sol
as estrelas

você só queria um beijo
uma transa
uma gozada
duas gozadas
três gozadas

teus olhos filmam o meu tato
fogo fato feto filosofia fado
virgem sem vírgula
vagina aberta insígnia
virgo

as palavras percorrem o sangue
derretido
seria um gosto de sol
uma fibra do coração
involuntariamente
sentido

você explodiu a minha cabeça
jimihendrix na guitarra preta e branca
volume máximo de volúpia
grita e geme e grita e geme e pula e treme
e trina o canto o canto da boca e louca e brusca
a buça ofusca a fuça a tua música e minha musa
a brisa nua que a janela refletia
em teu seio surdo aos meus apelos
e pelos e pulgas
e primas sinas e sonhos

quero ver o teu sorriso encharcado de sol

era na holanda era?
ou era a tua dança solitária no quarto escuro de olhos fechados e mudos
era uma flutuação dos planos
era um engano na tarde sangria
o sol mijando na cidade
e cidade inteira dormia

briga de galo na piscina
na vagina
na piscina da casa da amiga
briga de galo com as mãos nas coxas
ainda moças ainda nossas
ainda roxas de frio de calor de calafrio
eu apalpava tuas carnes
e vocês nem gemiam ainda
briga de galo e de galinhas
espumas flutuantes dentro das pequenas fotografias
minhas mitologias
briga de galo
festa de gala
poesias
ice kiss na janela da sala e professora velhinha
a gente escondia os sorrisos dentro de papéis de bala
e ficava apertado não mijar na sala

paredão solidão
no pátio de baixo eu pari um jogo
no mesmo lugar que você perdeu o jogo
no mesmo lugar que eu dormia no chão
no mesmo chão que você corria descalça
na mesma calça que sua bunda enchia
na mesma companhia de sempre e de nunca
no mesmo nunca de sempre

fernando pessoa pegando fogo com o pau na mão na sala de estar
previnindo a todos de que ele não estava lá
nem era ele nem o eu lírico
era um espírito
um fantasma edifício
apaixonadamente eu mordo o teu poema
e sinto o sangue palavral fluindo e escorrendo no meu corpo aberto
em pus em porra em pintura pollockiana
ferocidade ferro cidade pelo cimento desse poema vou construir uma revolução

nem a bíblia nem a história
foi a poesia que trouxe o big bang
um universo numa casca de nós mesmos
filho da puta do pessoa
das pessoas todas
que usaram esse corpo português feito de mitos mentiras e palavras
eu te soco
e te estupro lentamente
como quem escreve um poema com prego nos dentes

fogo muito fogo
era quando aquela
menina
a gente se via se comia
no play do prédio no play da peça na brincadeira de criança adulta
explorar os sentidos
ver com olhos ouvir com as mãos

nos plays das festas americanas
os passos se impregnavam das lembranças
das crianças que a gente iria ser quando senhoras e senhores
aqui estão todas as suas dores
aqui é o lugar de expôr as promessas do mundo
todas as memórias todas as mulheres do mundo
na pista de dança

seria uma coreografia
uma geografia nua
não consigo ouvir
não consigo escutar de tanta música
não consigo entender quem eu sou que você é
quem você somos
quem somos eu

seria uma coreografia nossa
o que dançamos embriagados pelo vento de maio
destruidos pelo fogo do inferno
pelo rock
pelados

eu assustei você de tanto eu
mas pode abrir os olhos agora
o mundo acabou
somos só simplesmente os mesmos

crianças aprendendo a nascer

terça-feira, 20 de abril de 2010

apontar o dedo

hoje, na calçada em frente a um sinal, esperando para poder passar, ao lado uma criança num carrinho apontou pra mim e disse o moço.

percebi, que a poesia, inicialmente, é esse apontar o dedo, ou melhor, é o momento mínimo antes de apontar.

ao invés de fazer algum sentido, a poesia se realiza, se mostra mesmo, quando, assim como a criança na calçada, aponta as coisas.

é simples.

coloque seu coração na ponta do dedo indicador.

agora, mantenha o braço esticado e dance.

assim que o coração começar a acelerar e seu dedo ficar vermelho.

pronto. tái a poesia.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

sussuro

lentamente,
caminhando em névoa de minha infância,
vem, passo curto e voz profana,
alcançar a tristeza da minha alegria.

atrás de mim,
como um vento que sussurra,
um cafuné nos meus pensamentos,
numa carícia de avó, tocar a poesia.

sinto uma coisa,
não sei bem o que é, o que sou,
faz os raios de mim raios de sol,
e me acordam da ilusão que é morrer.

essa poesia então,
me mata, me sobrevive, me comove,
tal força de um avião em queda,
de uma prece, de um filho a nascer.

dedilhando,
as palavras, como se tocasse violão,
chorando melodias de terras distantes,
meu coração se inebria e canta,
essas planícies distantes dentro de mim.

vejo o teu rosto,
percebo o amor presente nas coisas,
e embrulho o presente em amor e em coisas,
coisas que não podem ter fim.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

copacabana e ipanema

"copacabana é uma ipanema com preto"
ouvi falar isso um dia desses

mas copacabana eu odeio
mas é mais vivo
tenho falta de ar
mas tenho excesso de vida

ipanema é de plástico
as pessoas são de cera
os jardins são artificiais
mas tem ar
só não tem preto

falta preto em ipanema
e falta ar em copacabana
falta vida em ipanema
e falta falta em copacabana

tipos humanos todos:
um anão gigante
um japonês judeu
uma mulher com piru
um negão emo
um poodle-toy-pittbull
um gringo de havainas, regata e mulata
um mendingo empresário de celular
aplicando na bolsa

falta falta em copacabana
sobra falta em ipanema

segunda-feira, 12 de abril de 2010

a agenda

Numa papelaria familiar. O rapaz chega e vai direto para a balconista.

- Pois não?
- Oi, por favor, eu gostaria de uma agenda.
- Ah sim, temos esses modelos aqui.
- Não, eu quero uma agenda de 94.
- 94?
- Sim, eu preciso de uma agenda de 94.
- Mas estamos em 2010, senhor.
- Eu sei disso. Mas isso não muda nada.
- Não estou entendendo.
- Foi em 94. Parece que foi ontem.
- Senhor, eu vou pedir que o senhor se retire.
- Eu sei que você tem ai no estoque! Não é possível!
- Segurança!

O rapaz desfere um soco no rosto da moça, que cai atrás do balcão e começa a chorar alto.
Ele pula o balcão e sobe a pequena escada que leva para o estoque, na sobreloja.
Ao ver o segurança que fazia ronda na rua subir com velocidade a escada de madeira, o rapaz a empurra, fazendo-o cair em cima da balconista que estava a chorar.

As caixas com cadernos, lápis, cartolinas, estavam todas espalhadas.
O rapaz avista uma seção com agendas. Abre um sorriso. Para seu desespero, a única coisa que vê são variações coloridas da agenda de 2010, e umas 5 que sobraram do ano passado.

Ele senta-se no canto do cômodo. Encostado na parede, abaixa a cabeça. Retira do bolso interno do paletó uma fotografia de uma moça.

- Eu sei que você não vai me perdoar. Mas eu não consegui. Não consegui.

15 dias depois, de volta a seu quarto-e-sala, após uma moça ter pago a fiança e liberado o rapaz, ele, deitado na cama, sonhando, revira-se, e começa a gritar.

Uma moça, deitada ao seu lado, o acorda e o consola.
Ele levanta e pega uma pílula. Engole fazendo barulho.

- Como a gente pode ter saudade até das coisas que nos chateavam...
- Querida, desculpe.
- Não seja bobo. Isso não foi uma crítica. Eu já me acostumei com seus pesadelos.
- Eu não. Tem coisas que a gente não se acostuma.
- Vem dormir.
- Ok.

Ao lado da cama, na mesa de cabeceira, ela estica as mãos em direção a luminária. Em cima da mesa, uma agenda, sem capa, parece que feita caseiramente, marcando algum dia de 94.

Movimentos do escuro.
Sons surdos.
Vultos imperceptíveis.

Era a primeira noite depois do coma.


segunda-feira, 5 de abril de 2010

visita

visitei a escola onde estudei. estava ali perto e resolvi entrar.
tava tudo mais ajeitado, pintadinho, diferente de quando eu estudei lá,
quando as coisas eram mais largadas, as paredes descascando,
o chão velho e mais sujo.

para minha surpresa, a moça da cantina (que desde quando eu comia lá já
tinha passado de ser moça) estava lá, com a toquinha branca e a roupa branca.
ela tinha um problema na fala. dizia "fagango" em vez de frango.
a gente pedia para ela dizer, de propósito, só pra ver ela falando errado.

o pátio onde a gente jogava bola, que na verdade era uma gaiola, tinha desaparecido,
virado sala. eu cheguei lá na hora do recreio. tava cheio pra caramba. num tinha lugar direito,
num tinha espaço aberto pra criançada brincar. achei isso ruim.

imagina. ficar sem jogar bola no recreio?
pelo que eu vi, o recreio virou um bololô de gente meio indefinido. todo mundo em pé.
faltava alguma coisa.

acho que eu cresci, porque as coisas pareciam muito menores, mas muito mesmo.
em vários trechos eu tinha que abaixar a cabeça. numa parede de pedras, que tinha perto
da entrada, onde eu brincava de escalar, agora eu alcançava o teto só levantando o braço.

mas o pior mesmo foi ver que a goiabeira tinha desaparecido também.
a goiabeira não existia mais!
conversei com uma professora que me contou que caiu um raio na pobre da árvore, e que no dia seguinte só tinha cinza no lugar. a goiabeira! o pátio a gente chamava de pátio da goiabeira.
debaixo daquela goiabeira muitas coisas a gente aprendeu:

- lei de gravidade: a goiaba de vez em quando caía na cabeça de um. se fosse na nossa doía, se fosse na dos outros, era engraçado.

- romantismo: as meninas gostavam de sentar e conversar ali embaixo, se fosse só você e elas.

- pique: geralmente a gente usava a goiabeira como poste-pra-pique. aprendí ali a fingir a contar até cem.

- sombra: as árvores são funcionadas para dar sombra em dias quentes.

- escalar: os troncos me aguentam mas não os gordos da sala.

- germinação: a gente tentava plantar coisas na terra da goiabeira, como: milho, semente de laranja, semente de melancia, bola de gude, lápis, feijão, batata rufles....mas não cresceu nada.

- poesia: ali era um bom lugar para nada, ou seja, para poesia.


tentei olhar aquele pedaço de chão pintado e não enxergar de novo a goiabeira que costumava morar ali.
consegui não enxergar.
consegui ver nada.

domingo, 4 de abril de 2010

vi a chuva

parece que choveu até amanhã
o rio que a chuva inventa em coro com as folhas
retransbordará
nas minhas bordas
até virar sol

o cheiro da noite esteve úmido
desenhei o cheiro com um pingo dágua
o desenho é inventado
mas molhei a chuva de mim

vi a noite se esconder de mim com o rosto atrás da chuva
como a gente faz com nenê
e ele acha graça

não achei garça
as garças estavam escondidas atrás da noite
e eu não

agora estou como um voyer
vendo a chuva tomando banho
de cidade

nuazinha!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Poema retirado de uma notícia do jornal nacional

acabei de ver no jornal nacional que os cientistas estão estudando os passarinhos e fazendo descobertas incríveis sobre a relação do canto e genes do DNA.

grande merda!

o meu bisavô-de-poesia
Manoel de Barros

já será pré-doutorado em pássaros.

os sabiás querem sonhar ele.

até preferem ele para entregar o azul.

já o preparam para árvore. (cientificamente falando: bosteiam e ninham ele)

e os cientistas o denominam
bocó.

eu o desdenomino
poeta.

se pois bem dá que no mesmo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

heresias

o cristo apagou o dia com a bunda.

pronto. inventei essa frase, e me diverti.

vó falou que era heresia.

eu achei que era

poesia mesmo.

sábado, 27 de março de 2010

vendinha

na quinta série eu comecei a vender coisas.
criei uma vendinha de venda e aluguel.
tinha de tudo, cds, revistas, brinquedos...

quase ninguém comprava.
mas o pedro pereira, um garoto muito sacaneado lá,
comprava e alugava tudo.

eu fazia uns 20 reais por semana.

até que a coordenadora mandou me chamar na sala dela.

disse que era proibido fazer comércio na escola.

acho que eu tinha futuro.

quarta-feira, 24 de março de 2010

cheiro de mulher

ela tinha cheiro de pipoca doce
ou melhor
de algodão doce

as patricinhas tem cheiro suave
as medianas tem cheiro mediano
as mais pobres
tem que ter cheiro mais forte

pode ser uma flor
fruta, planta
maresia
doce

depende

sexta-feira, 19 de março de 2010

A História de Nana

o segredo dela era passear pelas manhãs como quem vai comprar um pão na padaria.
e só com isso em mente, ela desafiava as leis da gravidade.
pulava cocôs de cachorro com a plasticidade de um Nijinski.
quebrava o pescoço dos pedestres.
e ela nem tinha um poodle.

encontrou um bebê num lixo.
lavou-o com sabão de coco.
colocou numa prateleira.
e vendeu.

já senhora, lembrou de quando dançava na festa junina
vestida de marinhachiquinha
com sardas de mentira
de braços dados com um menino
que ela não lembrava o nome.

depois se casou e teve 4 filhos.
só 2 vingaram.
era pra lá de Getúlio Vargas.

as cartas de amor e poemas foram queimados
no dia em que flagrou o marido com a secretária.
recortou o corpo dele das fotografias
e comprou um poodle.

depois, saiu pelas ruas da capital
distribuindo beijos e bolinadas boas.
ela tinha uma bunda boa.

ainda bebê
só queria o peito da mãe, mamou até os 4 anos.
dormia com o dedo na boca
até morrer.

um dia ela sonhou que estava indo comprar pão
e todo mundo da cidade parecia que estava num filme
musical, dançando
como um balé de Nijinski.

no ato final, ela terminava seu número
abrindo os braços
e desaparecendo.

domingo, 7 de março de 2010

certa manhã, quando Caio acordou de uma noite mal-dormida, viu-se transformado em um bebê de 1 ano de idade.

sexta-feira, 5 de março de 2010

o menino

naquele tempo de mandar papelzinho de bala ice-kiss
e escrever recados num pedaço de caderno
você sorria

jogava paredão

se escondia nas pilastras

se jogava no chão e
chegava com o uniforme todo sujo de chão

no pátio da goiabeira
falar besteira
lutar kung-fu com flauta-doce
e apertar as bundas das meninas

pedia um xis do zé
que alguém até um dia encontrou uma piaçava de vassoura

dançava o claudinho e buchecha fazendo elefantinho com os braços pulando
como um doido

dançava música lenta nas festinhas
com o rosto colado
mas vergonha de beijar

escrevia poesias metafísicas de alto-nível
e teorias revolucionárias para mudar o mundo
enquanto algum professor
explicava a teoria de báscara

tocava a música do titanic no teclado
para impressionar as meninas
que gostavam do leonardo dicaprio

aliás, no bate-papo da uol
todos os meninos eram Jack
e as meninas Rose

mas ninguém sabia o que era cu


sábado, 13 de fevereiro de 2010

caminhando pelas ruas da cidade
foliões e fantasias percorrem os sentidos
sem direção

as ruas pulsam
as peles
tambor humano

e sentada na calçada
uma criança
se distrai
com uma barata

sempre fotografei
mais cantos
do que poses

o que me chama mais atenção
é o que não chama atenção

eu chamo isso de anti-visão

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

apaguemos as luzes do apartamento
desliguemos a tv, o ar-condicionado
reguemos as plantas da varanda
e fechemos a janela

agora,
respirando profundamente
abrimos os olhos
e percebemos
que tudo precisa ser inventado

domingo, 31 de janeiro de 2010

posso criar uma bela frase para tentar fazer com que você sinta o que eu senti
mas o poder dela está em tudo aquilo que só você pode sentir quando ler
ou sentir achando que eu senti
nunca uma frase se esgota
a não ser quando lida pela razão

assim como não deveríamos esgotar a leitura de uma pessoa
com os olhos, tato, cheiro, camisa, sapatos ou nua
inventar uma leitura ajuda nesse caso
e nos outros

a gente se esqueceu de inventar as coisas
e agora só enxerga sete cores do arco-íris e ouve sete notas músicais
bom mesmo é enxergar mil notas músicais
e ouvir mil cores

na poesia pode isso

o leitor ou o poeta não precisam acreditar
nem fingir

na poesia não há espaço para ilusões como acreditar
ou fingir

só há um grande espaço para
nada

sábado, 30 de janeiro de 2010

dança de salão

quando quero o giro
procuro o passo
e desacho
no meio do salão

quando quero o fico
pressinto o tato
e desfecho
o samba e a razão

quando quero o umbigo
preciso de espaço
e desenlaço
as pernas e o coração

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

acabo de ligar o ventilador
está quente aqui
e ela lá na sala vendo simpsons

calça jeans escura
lap top na cadeira
escrever deveria ser algo

as risadas percorrem os cômodos
seria um sonho
se eu estivesse acordado

papéis, quadros de irmã
o chão é de madeira
desenhos na parede branca

a janela range
acho que é o vento
quase como se jogasse pedrinhas no vidro

sabe quando pisca a luz
e você acha
que foi você que piscou?

o nariz escorre
tenho preguiça de pegar papel
antes eu escrevia em papel

ainda não li muita coisa
nem escrevi quase nada
mas sinto como se pouca coisa realmente foi dita

ou será dita ainda
abro os jornais
e as palavras são fotos e as fotos são palavras

viver deveria ser poesia
remar deveria ser poesia
e não rimar

mas às vezes o mar está agitado
e às vezes os olhares não esperam os corpos
e fica aquele espaço entre o feito e o não feito

fica o espaço entre o passado e o futuro
a que chamamos presente
seria mais fácil só viver

lá fora poderia chover
e alagar a cidade
como na baixada fluminense

os ratos agora sabem morrer nas calçadas
e quem estiver de sapato não fica de pé
tratores vão abrir a terra para plantar poesia

será tão difícil assim enxergar
que só o abrir dos olhos
faça milagres modernos?

um embrulho branco
procura mãos limpas
para presentear

o céu teima em escurecer
mesmo quando a gente
só quer acordar

acordei lá prás três
a noite ontem
durou talvez

justo agora que eu me emocionei
vem essa merda
de pensamento

poesia poderia ser não pensar
uma espécie de meditação
ativa

enquanto os dedos digitam
o corpo inteiro
digita junto

em uníssono
formando
composições

quantos por aí se dizem poetas
até eu mesmo já me disse
agora eu tento apenas silênciar a poesia

de tanta palavra
o que fica
é o silêncio

de se saber
código
linguagem

e de nunca
se ser
o que é


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

ela dobra o sol com a boca
e cospe uma manhã
amanhã ela dormiu no silêncio
de um grito que a chuva dá

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

talvez seja a noite que impregna nas coisas um gosto de ilusão
talvez seja a noite que impregna nas ilusões um gosto de coisa

mas não, foi essa tua dança, tua virada de quadril
mas não, foi esse teu quadril, tua virada de dança

se fecharmos os olhos conseguiremos enxergar o futuro
ou será que se fecharmos o futuro conseguiremos olhar o fecho
o fecheclér
o feixe eletromagnético de todas as tvs
o peixe elétrico

talvez seja a ilusão que impregna na noite um teor de gosto
um gosto do cheiro
um paladar do toque

sua dança anônima
- não existe e ainda sim está

uma nova descoberta precisa de um grito
terra-a-vista ou coisa assim
mas preferimos manter assim
prefe-rimos
de
rimas

sim, é a noite
é você
é essa bebida
é esse olhar
é essa noite

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Religião

hoje o céu tá bem estrelado.
dá pra ver vários pontos brilhando.
e pensar que estão tão distantes, que podem até não existir mais.
(ou que talvez nem existam de fato, são apenas furos num papelzão preto cobrindo a Terra e alguém bem grande com uma luz atrás)

procuro as constelações do zodíaco.
mesmo sem acreditar em astrologia.
os signos que o mundo oferece a gente já não sabe mais ler.

às vezes me perco durante algumas frações de segundo.
depois, um cachorro engraçado, uma criança de rua, uma moeda no chão,
uma buzina de carro, um olhar de menina, alguma coisa vem e diz que as coisas existem mesmo,
ou melhor, que é melhor eu acreditar que existem, e atravessar logo a rua porque o sinal já está abrindo.

mesmo quando você tenta fugir, desacreditar, a vida te oferece tanta poesia!

escrevo como religião. escrevo até acreditar.
antes de ontem
vi um cachorro de cadeira de rodas

só pra constar

sábado, 9 de janeiro de 2010

passagem

uma criança nasce na china
e outra na chuva
eu sou cidadão do mundo
mas perdi meu passaporte
só posso andar descalço
e de passagem

uma dança nasce em mim
e outra na uva
eu sou coração profundo
mas ergui meu muro forte
só passo andar em falso
e de massagem

uma crença nasce neblina
e outra na rua
eu sou caminhão imundo
mas ver-te me fura a morte
só aço arde o aço
e de mensagem

domingo, 3 de janeiro de 2010

é preciso?

dentro de cada homem bom existe um assassino.
eu só fui descobrir isso depois que me matei.
a cada dia morremos e renascemos.
por que a ilusão de que tudo continuará igual?
nada permanece, muito menos essa frase essa palavra essa vírgula, e esse ponto final que não vou escrever

será preciso destruir tudo o que foi feito para construir de novo um novo
a poesia pode ser feita de cinzas e escombros
será possível chorar nos ombros de desconhecidos
e o sol será laranja e verde

agora pegue o seu coração e veja como ele bate desesperado por um pouco de vida
o que você fez hoje que irá mudar a sua vida?

que poesia você encontrou caída num beco, atrás de um lixo sujo, nos olhos de uma mulher?

que soco você deu em alguém? até quando tempo você aguenta sem respirar e sem se mexer?

será preciso apenas abrir os olhos para ver a poesia
ela não estará mais nos papéis nem nas telas de computador
será preciso não precisar mais nada
navegar não será preciso
e quando tudo não for mais preciso
saberemos exatamente o que fazer
a maneira do não-fazer estará clara límpida brilhante sol brilhando pelas praças do meu país e dos países da memória
será preciso ser criança
e olhar as estrelas com a ponta dos dedos
e molhar as calças com mijo quente
e comer o misto quente da garota bonita da turma
e cuspir no cabelo da sua mãe
será preciso muito mais
para imprecisar a vida
com poesia

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Memórias 3

Me lembro de algumas coisas da festa da Paulinha no Clube Federal, Alto Leblon.
Estava todo mundo da escola. A gente chegou numa van. Foi mó zuera na van. Cantamos mamonas assassinas, andré-roubou-pão-na-casa-do-joão, jogamos papel na cabeça do outro. Era um dia bem quente de verão. O sol. A primeira coisa que eu me lembro é de que o clube era bem grande, com espaços amplos e que quando a garotada chegou saiu correndo e gritando e pulando pelas cercas e bancos que tinham na frente. Rolou um fute. Uma cabeçada tremenda, devia ter uns 25 dentro de um campinho de areia. O André, se não me engano, fez um gol, meio de perto do gol. Era muita engraçado, porque todas as meninas estavam jogando junto também, então era aquele negócio de ir uns 6 disputar uma bola, as meninas chutando as canelas de todo mundo e a gente rindo, dando drible da vaca ou ovinho nelas. Eu até fiz um gol. A bola veio rolando e eu chutei que nem um maluco, de antes do meio de campo. Foi gol. Vibrei e soquei o ar como pelé. Logo depois, numa correria danada, escorreguei e me ralei todo. A gente estava jogando sem camisa. Me ralei na areia. Mas tudo bem.
Depois eu me lembro da gente curtindo uma piscina. Era uma piscina bem grande e o sol batendo nela refletia uma luz e eu deitei numa dessas cadeiras reclináveis de plástico branco e peguei os óculos escuros de alguém emprestado, me sentindo um cara de filme americano, olhando as meninas em seus biquínis e, se não me engano, pensei ou falei alto ou baixo: ê vida ruim.
Aquela calmaria durou apenas alguns instantes, quando começou uma gritaria: alguém tinha pego o enchimento de algodão de alguma garota e elas começaram a brigar, puxar o cabelo, numa cena bonita de se ver, tão bonita que juntou todo mundo e eu até pensei na hora, poxa, bem que poderiam me dar um guaraná e uma pipoca aqui, estou no paraíso. Antes, quando eu tava nadando naquela piscina, bem que eu tinha avistado uns dois chumaços de algodão, mas não imaginava que aquilo era o enchimento de alguma menina. Impressionante né. Naquela época a menina ter peito grande nem era tão grande coisa assim para mim, para os meninos. Como representantes exemplares do pensamento masculino brasileiro, ainda éramos (e somos) adeptos da verdadeira paixão nacional: bundas e pernas.
Depois daquela confusão, me lembro de pouca coisa...O Bruno me mostrando como andar de skate. Deve ter rolado brincadeira tipo verdade-consequencia. Não lembro de mais outra coisa não.
O que ficou mesmo foi aquela sensação, de olhar pra piscina, num belo dia de sol, e pensar que, anos depois, eu mais velho, lembraria daquela imagem, daquele som, daquele cheiro, pensando:
ê vida ruim.