to que nem um cão
trancado no apê
procurando a dona
rasgando o sofá
roendo o pé da mesa
fazendo xixi de protesto
sábado, 25 de agosto de 2012
terça-feira, 21 de agosto de 2012
tal!
encontrei o amor em todas as coisas
encontrei um mosquito numa garrafa de cerveja
luzes poesiam o céu numa tempestade com ideogramas japoneses
não há como descrever o que se vê
o que se viu
escrever é descobrir
o que nunca se poderá ver
e ver é ser escrito
como raios no céu
poesiando o horizonte
com poemas japoneses
encontrei um mosquito numa garrafa de cerveja
luzes poesiam o céu numa tempestade com ideogramas japoneses
não há como descrever o que se vê
o que se viu
escrever é descobrir
o que nunca se poderá ver
e ver é ser escrito
como raios no céu
poesiando o horizonte
com poemas japoneses
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
sabor
atrás daquela grade do pátio tinha um mato
o matinho
quando a bola do futebol caía ali
parece que não tinha mais jeito
todo mundo tinha medo do que tinha lá
diziam que tinha cobra
e outras coisas que a gente não sabia
não saber aumentava o saber
na praia
as areias que ficavam duras
como pequenas pedras de areia
eram legais de se quebrar
e de repente
aparecia por dentro delas
um bicho
aquela barata de areia de praia
que eu chamava de fumiga
praia sempre foi um lugar que nunca vai ficar chato
sempre tem alguma coisa
quelque chose
nos bailes de carnaval
minha mãe pintava um coração
na minha bochecha
e eu usava uma faixa na testa
eu gostava de pintar a cara
no dia do índio
me lembro de pensar brevemente
que gostaria mesmo de ser índio
enquanto cantava a música da xuxa
segurando um arco e flecha feitos de jornal
com fita crepe
o mundo parecia imenso
era realmente imenso
mas eu fui crescendo
e veio a internet
e a mente
parece que os braços da gente
vão abraçando mais o mundo
e saber vai diminuindo o saber
por outro lado
é possível brincar de não-saber
ou inventar um outro saber
e dessa forma
inventar um não-saber vai aumentando
o sabor
o matinho
quando a bola do futebol caía ali
parece que não tinha mais jeito
todo mundo tinha medo do que tinha lá
diziam que tinha cobra
e outras coisas que a gente não sabia
não saber aumentava o saber
na praia
as areias que ficavam duras
como pequenas pedras de areia
eram legais de se quebrar
e de repente
aparecia por dentro delas
um bicho
aquela barata de areia de praia
que eu chamava de fumiga
praia sempre foi um lugar que nunca vai ficar chato
sempre tem alguma coisa
quelque chose
nos bailes de carnaval
minha mãe pintava um coração
na minha bochecha
e eu usava uma faixa na testa
eu gostava de pintar a cara
no dia do índio
me lembro de pensar brevemente
que gostaria mesmo de ser índio
enquanto cantava a música da xuxa
segurando um arco e flecha feitos de jornal
com fita crepe
o mundo parecia imenso
era realmente imenso
mas eu fui crescendo
e veio a internet
e a mente
parece que os braços da gente
vão abraçando mais o mundo
e saber vai diminuindo o saber
por outro lado
é possível brincar de não-saber
ou inventar um outro saber
e dessa forma
inventar um não-saber vai aumentando
o sabor
sábado, 18 de agosto de 2012
voa pensamento
vôa na madrugada um pensamento
passeando apressado
por entre acordes de piano
e cidadãos indo dormir
a cidade calma, serena, espera o sol
na solidão dos poucos carros
das luzes coloridas
dos papéis que se arrastam ao vento
um olho de gato brilha
um homem dorme envolto em papelão
meu coração se aproxima do mundo
como se fosse o próprio vento
um bafo de algo maior, mais profundo
mas é apenas o vento
o pensamento, voando
pousa de passagem
nas asas de algum sonho
que alguém deixou por sonhar
na beira da cama
parece um filme antigo
em preto e branco
mas não
é a própria história da humanidade
encarcerada na vontade de ser feliz
e de voar pensamentos
e num breve momento
o pensamento se olha em reflexo
e ri desse espelho maluco
a imagem se desdobra em relógios
pendurados no pescoço de santos
que se multiplicam na paisagem dormente
cercando a cidade num ataque aéreo
os ponteiros jogam pequenas bombas de tempo
e os segundos vão caindo
acordando os homens
e adormecendo as crianças
envelhecendo as mulheres
e as plantas que vivem em busca da luz
o pensamento não pára
e continua voando
seus olhos agora pesados
pestaneja, chega a dormir
e num sonho
parece que acorda ao som de acordes de piano
na madrugada uma sinfonia de luzes coloridas
e pequenos fragmentos do vento
de outros tempos, muito tempo atrás
vêm distorcendo a cidade, as ruas, os homens
os sonhos das crianças
andando no asfalto vazio
o pensamento vê uma asa cortada
metade de uma asa
metade de um sonho
sente um desconforto na coluna
e repara, é sua outra metade da asa
não é sangue que se esvai
é um rolo de filme mudo
envolto não pelo vento
mas por alguns acordes no piano
de algum sonho perdido
do século passado
o filme se desenrola em guerras em danças e músicas mudas
rolando ladeira abaixo na cidade
rolando ladeira abaixo no equador
dando a volta na Terra e se encontrando novamente com o pensamento
que se vê enrolado
mumificado em ser humano
condenado a ser livre
fica todo coberto
completamente submerso em ficção
até os olhos cobertos começarem a sonhar
as imagens
pequenos fragmentos de tempo
cortados como frases
que alguém balbuciou
em algum sonho
que alguém deixou por sonhar
na beira do mundo
na beira do dia
que já acorda a cidade
pronta para sonhar
com novas madrugadas
novos ventos
de tempos atrás
dorme o pensamento
mumificado em cotidiano
condenado a ser livre
pronto para sonhar
com novas madrugadas
novos ventos
tempos atrás
passeando apressado
por entre acordes de piano
e cidadãos indo dormir
a cidade calma, serena, espera o sol
na solidão dos poucos carros
das luzes coloridas
dos papéis que se arrastam ao vento
um olho de gato brilha
um homem dorme envolto em papelão
meu coração se aproxima do mundo
como se fosse o próprio vento
um bafo de algo maior, mais profundo
mas é apenas o vento
o pensamento, voando
pousa de passagem
nas asas de algum sonho
que alguém deixou por sonhar
na beira da cama
parece um filme antigo
em preto e branco
mas não
é a própria história da humanidade
encarcerada na vontade de ser feliz
e de voar pensamentos
e num breve momento
o pensamento se olha em reflexo
e ri desse espelho maluco
a imagem se desdobra em relógios
pendurados no pescoço de santos
que se multiplicam na paisagem dormente
cercando a cidade num ataque aéreo
os ponteiros jogam pequenas bombas de tempo
e os segundos vão caindo
acordando os homens
e adormecendo as crianças
envelhecendo as mulheres
e as plantas que vivem em busca da luz
o pensamento não pára
e continua voando
seus olhos agora pesados
pestaneja, chega a dormir
e num sonho
parece que acorda ao som de acordes de piano
na madrugada uma sinfonia de luzes coloridas
e pequenos fragmentos do vento
de outros tempos, muito tempo atrás
vêm distorcendo a cidade, as ruas, os homens
os sonhos das crianças
andando no asfalto vazio
o pensamento vê uma asa cortada
metade de uma asa
metade de um sonho
sente um desconforto na coluna
e repara, é sua outra metade da asa
não é sangue que se esvai
é um rolo de filme mudo
envolto não pelo vento
mas por alguns acordes no piano
de algum sonho perdido
do século passado
o filme se desenrola em guerras em danças e músicas mudas
rolando ladeira abaixo na cidade
rolando ladeira abaixo no equador
dando a volta na Terra e se encontrando novamente com o pensamento
que se vê enrolado
mumificado em ser humano
condenado a ser livre
fica todo coberto
completamente submerso em ficção
até os olhos cobertos começarem a sonhar
as imagens
pequenos fragmentos de tempo
cortados como frases
que alguém balbuciou
em algum sonho
que alguém deixou por sonhar
na beira do mundo
na beira do dia
que já acorda a cidade
pronta para sonhar
com novas madrugadas
novos ventos
de tempos atrás
dorme o pensamento
mumificado em cotidiano
condenado a ser livre
pronto para sonhar
com novas madrugadas
novos ventos
tempos atrás
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
boa noite, carol
de noite sinto falta dela
andando pelo apartamento
como quem desfila em passarela
ou tudo abrindo abismo em momento
o mundo em mise-en-abyme em tela
desenha sem lápis uma lua no céu
inventa na cintura violão chocolate ao leite
às vezes pára e me olha de mel
às vezes vai e pede que eu deite
- pode tocar que meu toque é teu.
joga os quadris num riso redondo
girando uma dança no ar flutua
yoga os mistérios da mente rondo
e fica um suave sentido perdido na rua
a coisa mais linda que eu já vi
que eu já li ou fui lido ou fui feito
parece que sou só um bem-te-vi
voando ao redor de um lírio perfeito
andando pelo apartamento
como quem desfila em passarela
ou tudo abrindo abismo em momento
o mundo em mise-en-abyme em tela
desenha sem lápis uma lua no céu
inventa na cintura violão chocolate ao leite
às vezes pára e me olha de mel
às vezes vai e pede que eu deite
- pode tocar que meu toque é teu.
joga os quadris num riso redondo
girando uma dança no ar flutua
yoga os mistérios da mente rondo
e fica um suave sentido perdido na rua
a coisa mais linda que eu já vi
que eu já li ou fui lido ou fui feito
parece que sou só um bem-te-vi
voando ao redor de um lírio perfeito
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
lá no sítio
de noite
lá no sítio
a gente fez uma fogueira
com uns pedaço de pau
pinhas, e madeira seca
tinha bambu também
tava tudo indo bem
até que a suzana
que tava cavucando
no fogo
com um caniço de bambu
disse:
- to aqui com essa varinha de pescar fogo.
ai danou-se
fiquei vidrado naquela varinha
não sei se tava pescando o fogo
ou se era eu mesmo
tem vezes boas que a gente sai da gente
e nem percebe
bom mesmo é escrever de depois
notas
prestar atenção nas coisas
conhecer o timing das viradas
virar e olhar o céu
rabiscar frases que vão durar para sempre
como um cirurgião sem fé
o destino nos presenteia
pessoas são pessoas em qualquer lugar
elas só não sabem que deus são
o meu verso é como uma música
você devia inventar uma maneira melhor
de experimentar o silêncio
conhecer o timing das viradas
virar e olhar o céu
rabiscar frases que vão durar para sempre
como um cirurgião sem fé
o destino nos presenteia
pessoas são pessoas em qualquer lugar
elas só não sabem que deus são
o meu verso é como uma música
você devia inventar uma maneira melhor
de experimentar o silêncio
lapso
eu achei o amor em todas as coisas
achei um mosquito numa garrafa de cerveja
os raios estão poesiando no céu em letras japonesas
quarta-feira, 4 de julho de 2012
carol
calor
feito um
caracol
colar
teu corpo
com o meu
coral
que inventa
um mar
carol
que entorta
eu
feito um
caracol
colar
teu corpo
com o meu
coral
que inventa
um mar
carol
que entorta
eu
segunda-feira, 2 de julho de 2012
estilo
escrevo com uma caneta de borracha. as letras vão apagando a realidade.
escrevo com a ponta do meu pênis. as letras ora gozam ora mijam os muros da cidade.
escrevo com uma corda bamba. as letras vão equilibrando sonhos nas mãos.
escrevo com um sorriso no rosto. as letras vão espalhando feijões na paisagem branca.
escrevo com você. as letras são nossos corpos numa dança invisível.
escrevo com o ar. as letras são nuvens ciganas.
escrevo com os pés. as letras são pegadas apagadas pelo mar.
domingo, 24 de junho de 2012
menina do sorriso na face
menina do sorriso na face
eu tava pesquisando
alguma música
alguma rima
ou quase
menina do sorriso na face
pra dar pinta
sua linda
no teu mural do face
numa espécie de mantra
canto em cima da mente
numa dança por dentro
menina
em ritmo de dance
queria dar pinta
no teu mural do face
menina do sorriso na face
vem me confessar bobagens
vem que eu vou contigo
deito a cabeça
no seu umbigo
o mundo todo
ao redor do umbigo
vem me contar vantagem
a gente não tem inimigo
deita a cabeça
no meu ombro
fica comigo
menina do sorriso na face
eu fico só olhando a sua cara
sem dizer nada
como se filmasse
um filme sem filme
fala sem texto
meu corpo no teu
sexo no sexo
tudo ao inverso
oposto do oposto
mizanabime
quero te ver
fica comigo
menina do sorriso na face
eu tava pesquisando
alguma música
alguma rima
ou quase
menina do sorriso na face
pra dar pinta
sua linda
no teu mural do face
numa espécie de mantra
canto em cima da mente
numa dança por dentro
menina
em ritmo de dance
queria dar pinta
no teu mural do face
menina do sorriso na face
vem me confessar bobagens
vem que eu vou contigo
deito a cabeça
no seu umbigo
o mundo todo
ao redor do umbigo
vem me contar vantagem
a gente não tem inimigo
deita a cabeça
no meu ombro
fica comigo
menina do sorriso na face
eu fico só olhando a sua cara
sem dizer nada
como se filmasse
um filme sem filme
fala sem texto
meu corpo no teu
sexo no sexo
tudo ao inverso
oposto do oposto
mizanabime
quero te ver
fica comigo
menina do sorriso na face
sábado, 9 de junho de 2012
disritimia sincronizada
essas tiazonas meio gordas
balançando no sertanejo
num contraste meio poético
com meu objeto de desejo
louis e seu espumante barato
barato espumante na brisa
da chuva pingando na minha
camisa rosa colorindo o tato
voando num xote no baile
salão ecoando conversas
o chão as paredes não existem
o teto amplo amplia as pernas
nunca tinha ido a pendotiba
e você nunca bebeu tanto
parece um filme adolescente
todo cliche tem um encanto
lençol branco escondendo
mesa de madeira mais banal
dj avanzin mandando no seal
e a gente todo se querendo
beijos roubados de brinks
aventura dentro doida mexe
algumas com tudo nos trinks
outras pra lá de marrakesh
quebrando copos de vidro
cabelo ao vento gente beba reunida
num subúrbio a oriente do oriente
eu deixo ela me conduzir na saída
a mão por dentro do vestido
a boca na taça de cristal
a vida que borbulha sem vidro
ou é ela que é meu temporal?
esse poema tá meio engraçado
tipo pedir risole pro garçom
tocou até claudio zoli
eu não lembro que música não
ah, era aquela do trocando
de bikini sem parar
mas isso nem importa
ah, sei lá
balançando no sertanejo
num contraste meio poético
com meu objeto de desejo
louis e seu espumante barato
barato espumante na brisa
da chuva pingando na minha
camisa rosa colorindo o tato
voando num xote no baile
salão ecoando conversas
o chão as paredes não existem
o teto amplo amplia as pernas
nunca tinha ido a pendotiba
e você nunca bebeu tanto
parece um filme adolescente
todo cliche tem um encanto
lençol branco escondendo
mesa de madeira mais banal
dj avanzin mandando no seal
e a gente todo se querendo
beijos roubados de brinks
aventura dentro doida mexe
algumas com tudo nos trinks
outras pra lá de marrakesh
quebrando copos de vidro
cabelo ao vento gente beba reunida
num subúrbio a oriente do oriente
eu deixo ela me conduzir na saída
a mão por dentro do vestido
a boca na taça de cristal
a vida que borbulha sem vidro
ou é ela que é meu temporal?
esse poema tá meio engraçado
tipo pedir risole pro garçom
tocou até claudio zoli
eu não lembro que música não
ah, era aquela do trocando
de bikini sem parar
mas isso nem importa
ah, sei lá
quinta-feira, 7 de junho de 2012
tela camera cama
podia parar de chover
podia você estar aqui
podia você estar aqui
- mesmo estando debaixo do meu cobertô
- na minha cama de criança
- podia você estar aquimesmo estando cobertono seu corpo de mulhertudo o que você podia serinventamos na pele e em letrasem pixels, em pontosem discosem girosem dançasseu olho brilha
no nosso quarto escuro
os adesivos de estrela saíram
faz tempo do teto
dividíamos a mesma infância
em tempos e espaços outros
mas tenho certeza
que toda noite olhávamos
para o mesmo céu de falsas estrelasos adesivos de estrelasviraram estrelaso teto
virou o céua infância, agora dentrono único tempo e espaço que existe- aqui, agora, eu e vocêem toda noite que existeem todas as noites inventadasnum céu de estrelas verdadeirascomo qualquer poesia(poema a 4 mãos - Taiyo Omura e Carolina Amaral)
segunda-feira, 4 de junho de 2012
sinto que estou lendo algo já escrito no futuro
sinto que estive escrevendo algo que li agora
como aquela sensação de já ter visto o filme
logo depois de vê-lo
pipoca no jornal
atrás do tecido
reluz um gosto amargo
do seu beijo
feito um desafio
relógio parado
andando para trás
entortado
escangalhado
na parede do meu quarto
sem paredes
o seu cheiro ainda tá na camisa
desregramento dos sentidos
legau
consegui sentir sua pele pelo cheiro
e da pele veio a cor
sinto que estive escrevendo algo que li agora
como aquela sensação de já ter visto o filme
logo depois de vê-lo
pipoca no jornal
atrás do tecido
reluz um gosto amargo
do seu beijo
feito um desafio
relógio parado
andando para trás
entortado
escangalhado
na parede do meu quarto
sem paredes
o seu cheiro ainda tá na camisa
desregramento dos sentidos
legau
consegui sentir sua pele pelo cheiro
e da pele veio a cor
sábado, 2 de junho de 2012
a boca da cama
o ventilador
na boca da cama
nem engana
o calor
ela me olha
na cama
na boca de
uma mulher
a cara
o cabelo amassado
não enganam
que ela amou
ontem
o sol
na pele de lençol
altura da bunda
também deita
nela
eu mais desejo
que escrevo
estrelas no lençol
ela tampa a boca
com uma estrela
lá fora a obra
bate
aqui é só
pulsação
parece outra
cidade
parece
coração
perdida em sono
na boca do dia
me perco no corpo
nas curvas
desse bicho solto
largado
lagarto
na cama
espalhado no tempo
de uma sexta-feira
infinita
de leve
ainda dormindo
esboça um sorriso
vindo do sonho
o lençol respira
num ciclo
movendo estrelas
em pleno dia
na boca da cama
galáxias da cama
esparramado universo
fabricando verso
numa brincadeira
ainda dormindo
esboça um sorriso
é quase um mantra
de sonhos lindos
e sem pijama
só de calcinha
invade a retina míope
de um poeta
o meu desejo
na boca da tua pele
se faz primeiro
impulso
instinto
depois tela
depois palavra
depois mentira
depois invenção
depois verdade
depois mito
mais ou menos
nessa desordem
na boca do sentido
vem um leve grito
do seu gemido
mesmo ainda dormindo
escuto os sons
da madrugada
me vem idéias
loucas
nem tão loucas
de escrever-te
comigo mesmo
em tua pele
essa poesia
ensaiamos faz tempo
o pé descoberto
pra fora do lençol
uma parte do ombro
uma do joelho
atrás dos cabelos
e as mãos em pose
(um quadro cubista?)
água não se recorta
só flui
e o lençol
na boca do corpo
se esparrama
como rio de janeiro
em ínicio de junho
paredes abacate
a cama branca
travesseiro tropical
lençol branco
de estrelas
e um corpo
chocolate ao leite
doce
(com alguma pimenta, brasileira)
um corpo que se derrete
na boca de um poeta
eu mais desejo
que escrevo
quarta-feira, 30 de maio de 2012
corpofala
debaixo da pele
um outro tipo de pele
debaixo da carne
um outro tipo de carne
por entre o sangue
um outro tipo de sangue
por entre os fluidos
um outro tipo de fluido
por entre as energias
um outro tipo de energia
há algo além
e além
e além
nesse abismo
que somos
que estamos
que seremos agora
o corpo procura
a mente
procura
a consciência
sabe
sente
debaixo da mente
por entre a mente
somente
resta
nada
semente
aquele vazio
do sonho lúcido
angustiante
incrível
ainda sou fraco demais pra tanta liberdade
preciso de bases de pedra
como aquela circular, mesmo que flutue no abismo
está lá
é sólida
de pedras
ainda mais
ainda mais e mais profundo
imagens se formam
desaparecem
sons veem
e vão
não em vão
vulcões
de imagens-sons
no centro
vazio
da criação
não são palavras
palavras são depois
e o depois não existe
no limite das palavras
onde o som encontra o sentido
ou vício ou verso
o universo respira uma dança
por entre as costelas galácticas
por entre os sistemas solares
no escuro abismo infinito de estrelas
no limite das palavras
e para além delas
ainda há
ainda resta
ainda sobra
e não está no espaço
nem no tempo
nessa poesia maior menor inexistente
estamos nós
dançando em círculos
inventando órbitas
no globo ocular
para enxergar a valsa
que a alma dança no mundo invisível
de braços abertos
(eles vão até onde o universo vai)
de olhos abertos
(eles vão até onde o universo vai)
o horizonte em mim se faz abraço
se faz embalo
e deito suavemente em meu próprio olhar
durmo
sonho
vivo
não sei identificar
o que é sonho
e o que não é
e nem importa mais
so(u)(l)
um outro tipo de pele
debaixo da carne
um outro tipo de carne
por entre o sangue
um outro tipo de sangue
por entre os fluidos
um outro tipo de fluido
por entre as energias
um outro tipo de energia
há algo além
e além
e além
nesse abismo
que somos
que estamos
que seremos agora
o corpo procura
a mente
procura
a consciência
sabe
sente
debaixo da mente
por entre a mente
somente
resta
nada
semente
aquele vazio
do sonho lúcido
angustiante
incrível
ainda sou fraco demais pra tanta liberdade
preciso de bases de pedra
como aquela circular, mesmo que flutue no abismo
está lá
é sólida
de pedras
ainda mais
ainda mais e mais profundo
imagens se formam
desaparecem
sons veem
e vão
não em vão
vulcões
de imagens-sons
no centro
vazio
da criação
não são palavras
palavras são depois
e o depois não existe
no limite das palavras
onde o som encontra o sentido
ou vício ou verso
o universo respira uma dança
por entre as costelas galácticas
por entre os sistemas solares
no escuro abismo infinito de estrelas
no limite das palavras
e para além delas
ainda há
ainda resta
ainda sobra
e não está no espaço
nem no tempo
nessa poesia maior menor inexistente
estamos nós
dançando em círculos
inventando órbitas
no globo ocular
para enxergar a valsa
que a alma dança no mundo invisível
de braços abertos
(eles vão até onde o universo vai)
de olhos abertos
(eles vão até onde o universo vai)
o horizonte em mim se faz abraço
se faz embalo
e deito suavemente em meu próprio olhar
durmo
sonho
vivo
não sei identificar
o que é sonho
e o que não é
e nem importa mais
so(u)(l)
domingo, 27 de maio de 2012
estromatólitos
na orla
brinquedos de luz
invertem o céu
o mar
se funde ao céu
logo ali
yoga
naquele escuro
um homem de mochila
enfrenta o mar
de pé
numa pedra
vim para as pedras
não para escrever
mas para ser escrito
por elas
poderia ficar horas
só olhando o jeito
que o mar bate na pedra
e cria espumas e sons
(de alguma forma isso me lembra nós dois nus)
vim para perto do mar
para entender suas origens
estromatólitos são seres de fontes
do tempo que quase não tinha tempo
(mas no filme parecia uma pedra de gelatina)
quanto mais olho o mar
menos me sou
e a poesia
fica sendo aquela coisa
como colocar máscaras
e viver em transe
moça
máscara
meu olhar
mundo
medo
espuma do mar
mulher
máscara
duna solar
planeta sade
javali selvagem
na lama
(essa foi djavan ein?)
e olha que eu nem precisei
inventar mitologias:
está tudo aí
as poses e cia.
poesia
índia do mato
ralando mandioca
os cabelos
o encontro do mar com o céu
de noite
os olhos
duas luas minguantes
em eclipse prismático
de algum lugar distante
os quadris
montanhas do rio de janeiro
a boca
fruta tropical
de um sábado-feira
(mulher bonita não paga e também leva!)
as coxas
canoas de árvores fortes
subindo seu rio
no delta do Nilo
no encontro das pernas
um porto seguro?
bahia?
vulcão em vulva
víbora
vício
ofereço em sacrifício
fluxo e precipício
black magic woman
making the devil out of me
o manoel chamaria de caracol de batom vermelho
o bandeira chamaria de porquinho-da-índia
o vinícius de morena
o caymmi de morena rosa
o caê de coisa linda
djavan de galáxia negra
o lô de ela
o drummond de pernas pretas
o murilo de visões do mar
o rimbaud de dérèglement de tous le senses
o carvalho de in the mood
o augusto dos anjos de estromatólito moreno
bilac de ourivesaria inca
bituca de o que será
jorjamado de gabriela
guimarães de diabo
cores, nomes
nomes
cinema
transcendental
biológico
sem lógica nenhuma
cores
sons
noite, dia
fome
força
fundo
cinema mudo
cores, nomes
mito
brinquedos de luz
invertem o céu
o mar
se funde ao céu
logo ali
yoga
naquele escuro
um homem de mochila
enfrenta o mar
de pé
numa pedra
vim para as pedras
não para escrever
mas para ser escrito
por elas
poderia ficar horas
só olhando o jeito
que o mar bate na pedra
e cria espumas e sons
(de alguma forma isso me lembra nós dois nus)
vim para perto do mar
para entender suas origens
estromatólitos são seres de fontes
do tempo que quase não tinha tempo
(mas no filme parecia uma pedra de gelatina)
quanto mais olho o mar
menos me sou
e a poesia
fica sendo aquela coisa
como colocar máscaras
e viver em transe
moça
máscara
meu olhar
mundo
medo
espuma do mar
mulher
máscara
duna solar
planeta sade
javali selvagem
na lama
(essa foi djavan ein?)
e olha que eu nem precisei
inventar mitologias:
está tudo aí
as poses e cia.
poesia
índia do mato
ralando mandioca
os cabelos
o encontro do mar com o céu
de noite
os olhos
duas luas minguantes
em eclipse prismático
de algum lugar distante
os quadris
montanhas do rio de janeiro
a boca
fruta tropical
de um sábado-feira
(mulher bonita não paga e também leva!)
as coxas
canoas de árvores fortes
subindo seu rio
no delta do Nilo
no encontro das pernas
um porto seguro?
bahia?
vulcão em vulva
víbora
vício
ofereço em sacrifício
fluxo e precipício
black magic woman
making the devil out of me
o manoel chamaria de caracol de batom vermelho
o bandeira chamaria de porquinho-da-índia
o vinícius de morena
o caymmi de morena rosa
o caê de coisa linda
djavan de galáxia negra
o lô de ela
o drummond de pernas pretas
o murilo de visões do mar
o rimbaud de dérèglement de tous le senses
o carvalho de in the mood
o augusto dos anjos de estromatólito moreno
bilac de ourivesaria inca
bituca de o que será
jorjamado de gabriela
guimarães de diabo
cores, nomes
nomes
cinema
transcendental
biológico
sem lógica nenhuma
cores
sons
noite, dia
fome
força
fundo
cinema mudo
cores, nomes
mito
quinta-feira, 24 de maio de 2012
sábado, 19 de maio de 2012
flui
ela me fez entender heráclito
numa mesa de restaurante a quilo
que nem era vegetariano
com flores de plástico
chão de ardósia
2 formigas no chão
no rádio tocava
garotos não resistem aos seus mistérios
e you're beautiful
belas sugestões!
não quis mostrar
o caderno, o diário,
mas consegui ler
assim de relance
algumas palavras como
silêncio, suzana, etc...
nesse pacto secreto
como aqueles de infância
sobre coisas muito banais
mas secretas
o trato era escrever sobre o almoço
e ela fez um poema
muito melhor
não devia ter lido antes...
o desafio era estar
ser
ao mesmo tempo sem deixar
de poesiar
como se faz
protegido pelas conchas
da escrita
e assim
por mais que véus e enfeites de plástico
cobrissem um pouco o espaço
como em filmes de Wong Kar-Wai
(ou o Carvalho - como costumava apelidar)
por mais que as banalidades
as apresentações
e modos sociais
inventassem algumas conchas
algum sonho tava ali
talvez sendo carregado por formigas
talvez pulsando alguma vida
nas flores de plástico
nos gestos
no sorriso
em lembranças inventadas
e já que se pode caminhar pelo mesmo rio
duas vezes
se a frase às vezes não encaixa
e nessa ondulação flutuante
das coisas que se descobrem no mar
pequenos tesouros
fragmentos de antigos naufrágios
até águas de outros rios
tudo flui
estou até rindo agora
pensando:
por mais que eu tente
esse poema não vai ser tão bom
quanto estar lá
(ou quanto o poema dela)
ah! pro escambau!
quem falou que a vida se separa em poesia e em vida?
já até me falaram isso
mas eu não acreditei
numa mesa de restaurante a quilo
que nem era vegetariano
com flores de plástico
chão de ardósia
2 formigas no chão
no rádio tocava
garotos não resistem aos seus mistérios
e you're beautiful
belas sugestões!
não quis mostrar
o caderno, o diário,
mas consegui ler
assim de relance
algumas palavras como
silêncio, suzana, etc...
nesse pacto secreto
como aqueles de infância
sobre coisas muito banais
mas secretas
o trato era escrever sobre o almoço
e ela fez um poema
muito melhor
não devia ter lido antes...
o desafio era estar
ser
ao mesmo tempo sem deixar
de poesiar
como se faz
protegido pelas conchas
da escrita
e assim
por mais que véus e enfeites de plástico
cobrissem um pouco o espaço
como em filmes de Wong Kar-Wai
(ou o Carvalho - como costumava apelidar)
por mais que as banalidades
as apresentações
e modos sociais
inventassem algumas conchas
algum sonho tava ali
talvez sendo carregado por formigas
talvez pulsando alguma vida
nas flores de plástico
nos gestos
no sorriso
em lembranças inventadas
e já que se pode caminhar pelo mesmo rio
duas vezes
se a frase às vezes não encaixa
e nessa ondulação flutuante
das coisas que se descobrem no mar
pequenos tesouros
fragmentos de antigos naufrágios
até águas de outros rios
tudo flui
estou até rindo agora
pensando:
por mais que eu tente
esse poema não vai ser tão bom
quanto estar lá
(ou quanto o poema dela)
ah! pro escambau!
quem falou que a vida se separa em poesia e em vida?
já até me falaram isso
mas eu não acreditei
quinta-feira, 17 de maio de 2012
alive
looking trough the stars
up in the great black sky
I search the meaning of life
while my guitar gently cry
some lô borges songs
that my mother used to hear
when I was inside her belly
when the stars that I saw
were her flesh and blood and tears
looking trough the mirror
I see some strange lines
inside my eyes
they look like stars
up in the great black sky
and life suddently starts to
mean something in the way she moves
I see the sound of things
like the wind in my skin
I see the sound of you
coming in visions of my mind
looking trough the night
I dream about
some lô borges songs
that I used to hear
when the world was inside my belly
nine out of ten movie stars
make my cry
I`m alive
vivainda
vivaldi
vulva
vácuo
vapor barato
vamos dançar no escuro
no fim do mundo
no futuro
fugere urbens
fugere tudo
i`m alive
up in the great black sky
I search the meaning of life
while my guitar gently cry
some lô borges songs
that my mother used to hear
when I was inside her belly
when the stars that I saw
were her flesh and blood and tears
looking trough the mirror
I see some strange lines
inside my eyes
they look like stars
up in the great black sky
and life suddently starts to
mean something in the way she moves
I see the sound of things
like the wind in my skin
I see the sound of you
coming in visions of my mind
looking trough the night
I dream about
some lô borges songs
that I used to hear
when the world was inside my belly
nine out of ten movie stars
make my cry
I`m alive
vivainda
vivaldi
vulva
vácuo
vapor barato
vamos dançar no escuro
no fim do mundo
no futuro
fugere urbens
fugere tudo
i`m alive
quarta-feira, 9 de maio de 2012
caracol de batom vermelho
você é um caracol
de batom vermelho
se enrosca fugindo do sol
e não escuta conselho
você é um caracol
labirinto de espelho
pode se ver um só
ou milhares de medos
você é morena
do cravo e canela
nem grande nem pequena
a altura dela
parece meu sonho antigo
que eu carrego acordado
combina muito comigo
uma mistura de fado
nunca ganhou poesia
a não ser do pai poeta
só pode ser fantasia
uma estória incorreta
como pode, menina
ninguém ter te escrito até ontem
se sei que por onde caminha
caracóis seduzidos se escondem?
como pode, menina
fugir pro casco espiral
sempre que o sol aproxima
por dentro constrói temporal?
você é um caracol-mulher
de batom vermelho
dança que nem a ginger
quando inventa de frente ao espelho
esse poeminha rimado
mal-rimado que nem de criança
parece algo quebrado
ritmo vai que balança
percebe que sonho acordado
nem preciso deitar e dormir aqui
você faz meu sonho sonhado
parecer como um filme de Berkeley
você é um caracol-criança
de batom vermelho flor no cabelo também
inventa do nada uma dança
que era só um cochilo num trem
me pede um cafuné num instante
no outro não sabe o que quer
você é um caracol-viajante
se enroscando no mundo que é
num mato perdido em minas
rasteja a memória no chão
cães, piques, meninas
tudo na palma da mão
conheço as estórias completas
conheço porque inventei assim
poetas são como profetas
escrevem o começo depois do fim
não tenha medo do sol
esse é meu conselho
você é um caracol
de batom vermelho
de batom vermelho
se enrosca fugindo do sol
e não escuta conselho
você é um caracol
labirinto de espelho
pode se ver um só
ou milhares de medos
você é morena
do cravo e canela
nem grande nem pequena
a altura dela
parece meu sonho antigo
que eu carrego acordado
combina muito comigo
uma mistura de fado
nunca ganhou poesia
a não ser do pai poeta
só pode ser fantasia
uma estória incorreta
como pode, menina
ninguém ter te escrito até ontem
se sei que por onde caminha
caracóis seduzidos se escondem?
como pode, menina
fugir pro casco espiral
sempre que o sol aproxima
por dentro constrói temporal?
você é um caracol-mulher
de batom vermelho
dança que nem a ginger
quando inventa de frente ao espelho
esse poeminha rimado
mal-rimado que nem de criança
parece algo quebrado
ritmo vai que balança
percebe que sonho acordado
nem preciso deitar e dormir aqui
você faz meu sonho sonhado
parecer como um filme de Berkeley
você é um caracol-criança
de batom vermelho flor no cabelo também
inventa do nada uma dança
que era só um cochilo num trem
me pede um cafuné num instante
no outro não sabe o que quer
você é um caracol-viajante
se enroscando no mundo que é
num mato perdido em minas
rasteja a memória no chão
cães, piques, meninas
tudo na palma da mão
conheço as estórias completas
conheço porque inventei assim
poetas são como profetas
escrevem o começo depois do fim
não tenha medo do sol
esse é meu conselho
você é um caracol
de batom vermelho
terça-feira, 8 de maio de 2012
percebe?
você
rima
comigo
já
percebeu
isso?
clube
manoel
vinil
infinito?
você
tá
até
no
sonho
ou
eu
durmo
enquanto
vivo?
acho
até
engraçado
nem
te conheço
mas
conheço
nem
pergunto
e
já
entendo
meio
bituca
meio
caê
meio
almodovar
meio
sei lá
trem de doido!
rima
comigo
já
percebeu
isso?
clube
manoel
vinil
infinito?
você
tá
até
no
sonho
ou
eu
durmo
enquanto
vivo?
acho
até
engraçado
nem
te conheço
mas
conheço
nem
pergunto
e
já
entendo
meio
bituca
meio
caê
meio
almodovar
meio
sei lá
trem de doido!
segunda-feira, 7 de maio de 2012
puro barato
percorro
teu corpo
palavra
escorrego
pela sala
num canto
do pescoço
esqueço
o tempo
sussurrando
vento
num fio
de cabelo
arrepiado
as mãos
assumem
o corpo
num toque
torto
enquanto
o mundo
gira
ao redor
da tua camisa
lisa
solta
espera
um pouco
o gozo
preso
solto
na ponta
da boca
morna
e morde
a carne
quente
na suave
violência
de tornar
o corpo
um só
envolve
o ar
num gesto
bruto
seiva
elaborada
com o nosso
suor
escorre
sujo
um sonho
fundo
um deus
de carne
um louco
som
e presa
na parede
como
presa
como
ventre
livre
dentro
como
a tua pele
e pêlo
ímpar
descreve
com o dorso
interroga
a curvatura
da cintura
com cintura
consentindo
em sufocar
o grito
gemido
ao dar
a cara
à tapa
a nádega
a faca
a esfera
ocular
o eclipse
lunar
a própria
terra
enterrada
em seu
gozar
espera
mais um
pouco
e eu já
rouco
arranho o
corpo
com os
dentes
enquanto
torce
a cama
o tempo
o espaço
sideral
invade
em movimento
vulcão de dentro
percorre o corpo
palavra
torto
invade o tempo
por entre as carnes
por entre as pernas
invade os mares
as primaveras
e vem de um tempo
que nem era tempo
e vem com força
invade a moça
transforma tudo
inventa um corpo
de um só corpo
inventa um som
maior que o om
inventa a espera
o esperma
fecunda a terra
inventa o verde
que não se perde
fazenda viva
inventa a vida
em forma vulva
e vem molhando
em seiva sangue sublimado
em sonho já sonhado
inventa um corpo em rima
em cima um do outro
se faz de outra
inventa ruas
por entre as pernas
e grita nua
palavras xulas
inventa a puta
se faz de muitas
inventa um jeito
se dá sem medo
entrega o seio
a minha língua
inventa rimas
e num crescendo
aumenta o ritmo
o corpo inventa
caminhos vivos
em meio a líquidos
e superfícies
descobre a pele
desperta vícios
alucinados
o olhar em branco
lençol molhado
o sol é lua
no céu nublado
o ventre uiva
a céu aberto
invade o músculo
em tempestade
inventa o corpo
e parte em arte
cada pedaço
teu corpo arde
em brasa fria
e na barriga
eu bebo e paro
avanço e bebo
o nosso oásis
até os pêlos
dos teus cabelos
invento redes
invento tardes
e deito e canso
descanso e deito
e durmo e acordo
e acordo e sonho
em tuas redes
invento o grito
do teu gemido
parece um mito
de muito tempo
...
agora dorme
agora pulsa
transborda tudo
e ri de tudo
inventa a carne rubra
até o umbigo
e vibra a nuca
em ondas livres
o corpo em pane
um tsunami
passou por dentro
agora dorme
agora pulsa
dragão mais lento
sorrindo leve
inventa um sono
inventa um corpo
agora sem corpo
agora livre
depois do ato
puro barato
teu corpo
palavra
escorrego
pela sala
num canto
do pescoço
esqueço
o tempo
sussurrando
vento
num fio
de cabelo
arrepiado
as mãos
assumem
o corpo
num toque
torto
enquanto
o mundo
gira
ao redor
da tua camisa
lisa
solta
espera
um pouco
o gozo
preso
solto
na ponta
da boca
morna
e morde
a carne
quente
na suave
violência
de tornar
o corpo
um só
envolve
o ar
num gesto
bruto
seiva
elaborada
com o nosso
suor
escorre
sujo
um sonho
fundo
um deus
de carne
um louco
som
e presa
na parede
como
presa
como
ventre
livre
dentro
como
a tua pele
e pêlo
ímpar
descreve
com o dorso
interroga
a curvatura
da cintura
com cintura
consentindo
em sufocar
o grito
gemido
ao dar
a cara
à tapa
a nádega
a faca
a esfera
ocular
o eclipse
lunar
a própria
terra
enterrada
em seu
gozar
espera
mais um
pouco
e eu já
rouco
arranho o
corpo
com os
dentes
enquanto
torce
a cama
o tempo
o espaço
sideral
invade
em movimento
vulcão de dentro
percorre o corpo
palavra
torto
invade o tempo
por entre as carnes
por entre as pernas
invade os mares
as primaveras
e vem de um tempo
que nem era tempo
e vem com força
invade a moça
transforma tudo
inventa um corpo
de um só corpo
inventa um som
maior que o om
inventa a espera
o esperma
fecunda a terra
inventa o verde
que não se perde
fazenda viva
inventa a vida
em forma vulva
e vem molhando
em seiva sangue sublimado
em sonho já sonhado
inventa um corpo em rima
em cima um do outro
se faz de outra
inventa ruas
por entre as pernas
e grita nua
palavras xulas
inventa a puta
se faz de muitas
inventa um jeito
se dá sem medo
entrega o seio
a minha língua
inventa rimas
e num crescendo
aumenta o ritmo
o corpo inventa
caminhos vivos
em meio a líquidos
e superfícies
descobre a pele
desperta vícios
alucinados
o olhar em branco
lençol molhado
o sol é lua
no céu nublado
o ventre uiva
a céu aberto
invade o músculo
em tempestade
inventa o corpo
e parte em arte
cada pedaço
teu corpo arde
em brasa fria
e na barriga
eu bebo e paro
avanço e bebo
o nosso oásis
até os pêlos
dos teus cabelos
invento redes
invento tardes
e deito e canso
descanso e deito
e durmo e acordo
e acordo e sonho
em tuas redes
invento o grito
do teu gemido
parece um mito
de muito tempo
...
agora dorme
agora pulsa
transborda tudo
e ri de tudo
inventa a carne rubra
até o umbigo
e vibra a nuca
em ondas livres
o corpo em pane
um tsunami
passou por dentro
agora dorme
agora pulsa
dragão mais lento
sorrindo leve
inventa um sono
inventa um corpo
agora sem corpo
agora livre
depois do ato
puro barato
segunda-feira, 23 de abril de 2012
nas pedras do arpoador
mulher sentada olhando o mar
o mar deitado olhando a mulher
a espuma dançando na pedra
a pedra sonhando com a mulher
a mulher se fazendo pedra
montanhas do rio de janeiro
lugar qualquer
o sol na linha do horizonte
não existe mas acreditamos
que ele esteve lá
porque o fogo laranja
se apaga
na espuma do mar
que contempla a pedra
a mulher e a linha do horizonte
que não existe
mas está lá
no limite das palavras
ou no infinito
mulher abraça as pernas
não vejo o rosto
o rosto é o mar
um fogo laranja
some
atrás do mar
quanto mais some esse fogo
mais claro o poema
se forma
em espumas
que não posso ver
a vida inteira eu procurei
um momento como esse
em que uma mulher se faz pedra
a pedra grita mar
e a espuma vira palavra
nunca achei
nem vou achar
e isso não me basta
e a poesia vive
o mar deitado olhando a mulher
a espuma dançando na pedra
a pedra sonhando com a mulher
a mulher se fazendo pedra
montanhas do rio de janeiro
lugar qualquer
o sol na linha do horizonte
não existe mas acreditamos
que ele esteve lá
porque o fogo laranja
se apaga
na espuma do mar
que contempla a pedra
a mulher e a linha do horizonte
que não existe
mas está lá
no limite das palavras
ou no infinito
mulher abraça as pernas
não vejo o rosto
o rosto é o mar
um fogo laranja
some
atrás do mar
quanto mais some esse fogo
mais claro o poema
se forma
em espumas
que não posso ver
a vida inteira eu procurei
um momento como esse
em que uma mulher se faz pedra
a pedra grita mar
e a espuma vira palavra
nunca achei
nem vou achar
e isso não me basta
e a poesia vive
domingo, 22 de abril de 2012
cafuné
deita na rede
e nem tem parede
deita a cabeça
no meu colo
e nem tem solo
deita a pele
na minha pele
cantarola michelle ma bele
com sotaque minero
deita os olhos
no espelho
batom vermelho
e nem escuta conselho
de que vai chover
deita de leve os cabelos
nas mãos que dedilham concertos belos
e vem, de leve, arrepio nos pêlos
como gatos no cio quando se tenta vê-los
pulando telhados de madrugada
deita de leve no sonho
fecha os olhos, mulher
deixa acordar a menina que quer
mais nada
só cafuné
e nem tem parede
deita a cabeça
no meu colo
e nem tem solo
deita a pele
na minha pele
cantarola michelle ma bele
com sotaque minero
deita os olhos
no espelho
batom vermelho
e nem escuta conselho
de que vai chover
deita de leve os cabelos
nas mãos que dedilham concertos belos
e vem, de leve, arrepio nos pêlos
como gatos no cio quando se tenta vê-los
pulando telhados de madrugada
deita de leve no sonho
fecha os olhos, mulher
deixa acordar a menina que quer
mais nada
só cafuné
pé-de-vento
eu sempre fui pereba
no futebol
porque meu pé
era de vento
no pique
principalmente bandeira
e na corrida
era bom
fiquei pensando hoje
como faz
para plantar
um pé de vento
soprar na terra?
abanar um vaso?
tem que ser num lugar
arejado
aberto
é um trabalho um pouco
complicado
mas nas palavras
é bem fácil até
porque elas tem oco por dentro
que nem as pessoas
e as árvores
queria escrever um poema
que nem parasse no papel
de tão ventado
mas não seria uma experiência
concretista
com umas doideras
do tipo gullar, campos e tal
seria uma coisa
que você nem ia ler
só sentir aquele vento na cara
que nem quando você coloca
a cabeça pra fora do carro
numa estrada em minas
ou em qualquer parte onde haja
verde
eu queria escrever um vento
mas isso é impossível
então a poesia ficaria melhor mesmo
se você fosse viajar agora
e colocasse a cabeça
pra fora
no futebol
porque meu pé
era de vento
no pique
principalmente bandeira
e na corrida
era bom
fiquei pensando hoje
como faz
para plantar
um pé de vento
soprar na terra?
abanar um vaso?
tem que ser num lugar
arejado
aberto
é um trabalho um pouco
complicado
mas nas palavras
é bem fácil até
porque elas tem oco por dentro
que nem as pessoas
e as árvores
queria escrever um poema
que nem parasse no papel
de tão ventado
mas não seria uma experiência
concretista
com umas doideras
do tipo gullar, campos e tal
seria uma coisa
que você nem ia ler
só sentir aquele vento na cara
que nem quando você coloca
a cabeça pra fora do carro
numa estrada em minas
ou em qualquer parte onde haja
verde
eu queria escrever um vento
mas isso é impossível
então a poesia ficaria melhor mesmo
se você fosse viajar agora
e colocasse a cabeça
pra fora
mise-en-abyme
mora na palavras
uma arara
que repete a paisagem
sonora
carrega dentro do bico
um caracol maluco
que regurgita poemas
vindos lá do tempo
do manoel
fica lá
comendo e recomendo
pedaços de frases
de mil anos atrás
esse caracol
leva dentro do casco
um pedacinho de vento
que vivia em estradas
no interior do brasil
na poeira desse vento
voam cinzas de avôs
cinzas de índios
e fumaças de cigarros
que talvez o fernando pessoa
fumou
nesse grão de poeira
resta um silêncio gritado
que um poeta imaginou
e escreveu
e criou asas
e voou
e que hoje mora
numa palavra
uma arara
que repete a paisagem
sonora
carrega dentro do bico
um caracol maluco
que regurgita poemas
vindos lá do tempo
do manoel
fica lá
comendo e recomendo
pedaços de frases
de mil anos atrás
esse caracol
leva dentro do casco
um pedacinho de vento
que vivia em estradas
no interior do brasil
na poeira desse vento
voam cinzas de avôs
cinzas de índios
e fumaças de cigarros
que talvez o fernando pessoa
fumou
nesse grão de poeira
resta um silêncio gritado
que um poeta imaginou
e escreveu
e criou asas
e voou
e que hoje mora
numa palavra
seu desenho
seu desenho
nem é no papel
seu desenho
é feito no mundo
com giz e lápis
suas sombras
estão andando
nas paredes
faz uma casa
com um olho
no telhado
faz uma nuvem
saindo da chaminé
nuvem cigana
nuvem bêbada
de guaraná
com gelo e laranja
seu desenho
brinca com as cores
o céu é verde
o mar é amarelo
as pessoas estão juntas
seu desenho
é feito com o corpo
dançando na vida
deixa para trás
rabiscos
letras desconhecidas
e procura um sorriso
nas paisagens
com tinta nas mãos
nos pés
nos seios
vai desenhando um voo
feito de sonhos
na cabeça dos monstros
dos pesadelos feitos de concreto
dos prédios
caem papéis brancos
picotados
cai um no seu decote
e se perde
seu desenho
não sei se é real
seu desenho
é imaginário
mas eu acredito
e me pinto
como eu quiser
nem é no papel
seu desenho
é feito no mundo
com giz e lápis
suas sombras
estão andando
nas paredes
faz uma casa
com um olho
no telhado
faz uma nuvem
saindo da chaminé
nuvem cigana
nuvem bêbada
de guaraná
com gelo e laranja
seu desenho
brinca com as cores
o céu é verde
o mar é amarelo
as pessoas estão juntas
seu desenho
é feito com o corpo
dançando na vida
deixa para trás
rabiscos
letras desconhecidas
e procura um sorriso
nas paisagens
com tinta nas mãos
nos pés
nos seios
vai desenhando um voo
feito de sonhos
na cabeça dos monstros
dos pesadelos feitos de concreto
dos prédios
caem papéis brancos
picotados
cai um no seu decote
e se perde
seu desenho
não sei se é real
seu desenho
é imaginário
mas eu acredito
e me pinto
como eu quiser
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Nuvens bêbadas
Essa
história quem me contou foi meu avô, no aniversário dele de 90
anos. Ele era um velhinho saudável da porra. Com mais saúde e força
que eu. Depois que fez 90, chutou o balde legal. Ou melhor, bebeu
baldes e baldes. Sei lá, cansou. Quis aproveitar e encher a cara. Em
2 anos bebeu mais do que bebem numa vida inteira. Câncer no fígado.
Já tinha vivido muito também. E bebido.
Eu estava
indo para o colégio, estudava no Pedro II, um dos colégios mais
tradicionais do Rio. O Nelson Rodrigues que tem aquela frase dizendo
que foi o maior desgosto não ter estudado lá. Imagino que aquele
uniforme das meninas, bem colegial, aquela saia azul, realmente tenha
enlouquecido o inconsciente do Nelson. Enfim, eu estava indo para a
aula, que era de tarde, quando ele me puxou pela camisa do uniforme e
falando daquele jeito dele, me levou para um pé-sujo ali perto em
São Domingos. Pé-sujo mesmo, daqueles de ovo rosa. Tinha dois
amigos portugueses no bar. Eram os próprios donos, um chamado
criativamente de Joaquim, o outro, seu irmão João. Tinham fugido da
Europa depois da segunda guerra.
Já bem
bêbados, eu também, o vô começou a contar sobre sua infância e
lembrou da história do Fagundes Varela, o poeta que ele mais gostava
e que acreditava ser sua reencarnação. Contou que Fagundes Varela
era o poeta mais bêbado do Brasil, e que foi por causa dele que
começou a beber. Na verdade, por causa de uma menina: Maria Clara
Lopes. Ele costumava falar o nome dividindo bem as sílabas, quase
como quem saboreia cada uma delas. Ma-ri-a-Cla-ra-Lo-pes. Para tentar
conquistá-la, simplesmente copiava trechos, as vezes poemas inteiros
de Varela. Ficou bastante tempo na biblioteca, às vezes roubava
livros do poeta, ou rasgava algumas páginas e colava nas cartas de
amor para Maria.
O que meu
vô sempre contava quando estava bêbado: os últimos dias da vida do
poeta Fagundes Varela. Eu achava engraçada aquela obsessão. Na mesa
do pé-sujo, depois que Joaquim trouxe um pequeno bolinho de
chocolate, com uma mísera velinha azul, e meu vô assoprou com um
sopro falhado, brilhos nos olhos, começou a contar de novo.
Fagundes
andava por Niterói na época. Era já um famoso andarilho. Não como
um mendigo. Trajava-se de forma até elegante, mas sem dúvida
desleixada, decadente. Meu vô também tinha a mesma espécie de
vaidade desleixada. A última vez em que Varela se apresentou
socialmente foi num evento memorável, na casarão hoje chamado de
Solar do Jambeiro. Bem pertinho daqui do bar. Era o aniversário do
dono da propriedade, o diplomata dinamarquês Bertholdy. Em comum,
Bertholdy e Fagundes, tinham além de conhecidos da sociedade
fluminense, uma figura em especial: Rosa Fernandes. A prostituta de
luxo dos grandes burgueses e antigos nobres. Curiosamente, ouvindo
meu vô falar, percebi que aquilo era muito mais importante do que a
aula de literatura que eu estava matando no colégio. Passamos muito
rápido pelos poetas românticos. Pouco se fala sobre Fagundes
Varela, o que mais me interessava, justamente por ser tão pouco
falado na escola e tão amado pelo meu avô.
Varela teve
um romance com Rosa, que na época era a preferida de Bertholdy. Vô,
já falando alto, gostava de falar sobre como imaginava as noites de
paixão entre o poeta e Rosa. Disse que lembrava da puta com quem
perdeu a virgindade. Na festa no casarão de Bertholdy, no salão
principal, todos dançavam sobre aquele piso bem bonito, parecendo
uma espécie de jogo de gamão, e os convidados rodando numa
coreografia que acentuava o caráter lúdico da coisa. Ao fundo,
sentado, Bertholdy agia como um deus jogando seus dados e apostando
alto.
Meu vô
contava aquelas histórias, e os portugas ficavam olhando, quase que
de boca aberta. Tirando a preferência por cervejas ruins, das mais
baratas, admirava quase tudo no vô. Era um grande orador. Lembro que
pedi uma ajuda pra ele quando me elegeram orador de turma. Acho que
fizeram de sacanagem, sabiam que eu gostava muito de escrever, mas
tinha certa timidez em falar em público. As aulas com ele duraram 2
fins de semana, e ele resumiu em um verbo: beber.
De súbito,
vô subiu em cima da cadeira. Esbarrou numa das garrafas, quase caiu,
se eu não o tivesse segurado. Foi tentando subir sem pedir ajuda,
ele odiava essa história de terceira idade. Se apoiou nos meus
ombros com o braço e se levantou. Os poucos que estavam no bar
viraram para olhar. Então ele recitou um poema. Eu já tinha ouvido
ele recitar uma vez, na verdade, quando eu estava com dúvidas sobre
como conquistar a Lidiane, uma menina do colégio.
Depois que
vô faleceu comecei a ter esses sonhos. A gente nunca lembra como
começa um sonho. Quando vemos, já estamos no meio da história.
Estava no Solar do Jambeiro, na época do Fagundes. Andava primeiro
pelo jardim. Olhava para as árvores, flores e ia mentalmente
identificando seus nomes. Azaléia. Camélia. Nomes de mulher. Ia
para o salão principal. Eu sonhava em preto-e-branco. Por que? Estou
dançando uma música que parece Ernesto Nazareth. Vejo no chão o
piso decorado em vários desenhos geométricos criando uma espécie
de labirinto. Lidiane está vestida como uma dama da sociedade.
Parece mais velha. Há um senhor pendurado no lustre. Joga espumante
nos casais que dançam. Bertholdy vem em minha direção. Seu rosto
vira o do meu pai. Traz uma caixinha de madeira nas mãos. Vem um
medo grande de abrir a caixinha. Acordo um pouco suado.
No enterro
do vô, nem chorei. O sofrimento de meses com o câncer amortecia a
gente.
Um dia
conversando com o Marcelo Beauclair, professor de redação do
colégio, fiquei surpreso e desacreditei quando ele apontou um erro
grande de anacronismo, falando sobre o meu avô, o Fagundes, o Solar
e tal. Disse que o Fagundes morreu em 1875, ao sair de uma festa,
pelas bandas perto do jambeiro, sim, mas bem antes de Bertholdy
residir no local. Me corrigiu também dizendo que Ernesto Nazareth
também não poderia estar sendo apreciado naquelas festas da
sociedade. Seria mais correto historiograficamente ouvir um Chopin.
Aquilo tudo me pegou de surpresa. Fui ingênuo em acreditar no vô?
Passei algum tempo remoendo isso. Ler os diários dele e fuxicar nas
coisas que ele deixou ajudava para distrair. Eis que caído atrás da
última gaveta da escrivaninha de madeira, encontro uma caixa.
Parecia ser bem velha. Uma espécie de deja vu. Mas não lembrei do
sonho nessa hora. Abri. Estava vazia. Na hora me veio um pensamento
meio idiota, mas legal. Foda-se o que é verdade. Foda-se se o que o
vô falou está errado, ou é invenção. Se não fosse a invenção
não existiria a poesia.
Decidi
levar comigo as cinzas do vô, naquela mesma caixinha de madeira. Não
sabia o que fazer com aquilo, mas sabia. O jardim do Solar do
Jambeiro parecia o mesmo de sempre. Por mais que a casa, hoje museu,
parecesse um tanto quanto morta e mumificada; a terra, as plantas e
flores, existiam e viviam ali. Perto de uma azaléia, olhei para os
lados. Ainda estava sol. Os guardas estavam longe. Abrí um pequeno
buraco, na terra ao lado da planta, coloquei cuidadosamente a caixa
ali. Tentei pensar em alguma reza, pensamentos positivos, alguma
coisa assim, mais mística. Olhei o relógio: 16h. Ah, foda-se, o vô
gostava mesmo era de poesia. Lembrei de alguns versos do Varela:
“Minh'alma
é como um deserto
por onde o
romeiro incerto
procura uma
sombra em vão;
É como a
ilha maldita
que sobre as
valgas palpita
queimada por
um vulcão!”
Depois
dessa silenciosa cerimônia, com os olhos ainda abertos, e um pouco
lacrimosos, imaginei uma festa da época antiga da casa, e meu vô
lá, dançando no salão, girando com as damas da sociedade,
conversando com seu amigo Fagundes, Nazareth ao piano tocava Odeon,
Lidiane de saia azul do Pedro II dançava um twist, no quarto ao lado
meus amigos jogavam playstation, escravos serviam a todos vestidos de
terno e carregando nos pés algemas de metal, as prostitutas dançavam
can-can, eu tomava absinto com cachaça, e Bertholdy ao fundo,
olhando tudo como um deus olha suas criaturas, e acima da casa, o
Jambeiro crescia cada vez mais, olhando aquela coreografia de corpos
com olhos de árvore, e acima do Jambeiro, as nuvens olhavam aquela
cena imaginária, como poetas bêbados vivendo eternamente.
domingo, 25 de março de 2012
alguma coisa acontece no meu coração
num passado, não tão além, queimarei meus cadernos, como hendrix sacrificou sua guitarra.
aproveito para me queimar também.
se você quiser, pode entrar na fogueira santa.
o que importa é renascer das cinzas de uma civilização.
construir outro tempo.
sem espaço.
dentro do agora.
Queimem os cadernos
Do meu avô pouco sei além do que ficou nos seus diários e
cadernos. Não sei se metade das histórias são fictícias. Nossa última conversa
foi um pouco confusa, como todas as últimas conversas. O alzhaimer já avançava.
Em um devaneio, ainda com um resto de pão com requeijão no canto da boca, me
perguntou: “Nando, quem sou eu?”.
A notícia veio por telefone. Complicações respiratórias. Fui
até Barbacena. Aquela cidade me trazia lembranças. Andei muito de rolimã nas
ladeiras. Matei alguns passarinhos. Olhei por debaixo das saias das meninas.
Em seu inventário, o relevante:
- 1 carteira de identidade: nome: Juvenal Barros. data de
nascimento: 23/07/1918
- 1 passaporte.
- 1 óculos de miopia.
- 47 cadernos, entre eles diários.
- 1 poupança no Bradesco totalizando R$8.000,00.
- 1 vitrola quebrada.
- 3 discos de vinil: 1 de Cartola, 1 de Paulinho da Viola e
1 do concerto de Brandenburgo n: 5, de Bach.
- 2 malas de viagem, contendo: revistas pornográficas
velhas, bilhetes de trem, mapas, canivete suíço, algumas roupas.
- 1 espingarda calibre 22.
- 1 isqueiro prateado com as iniciais gravadas – “J.B.”
A enfermeira do asilo me contou algumas estórias. Disse que
meu vô estava ficando assanhado. Tinha até bolinado outras enfermeiras. Num dos
cadernos, encontro: “a vida de um homem
se resume a encontrar a mulher certa.”. Ele era um romântico.
Só deixou um recado para a família: “queimem os cadernos”.
Quando era menor, envolveu-se numa briga da escola, por
causa de uma garota, que lhe marcou permanentemente com uma cicatriz no lábio
superior esquerdo, deixando-o mais saliente. Sobre esse causo, achei anotado: “...ele era mais forte do que eu, um
brutamontes. Amália depois disso aceitou passear comigo na praça.”
Tenho passado esse mês lendo as anotações dos cadernos e
diários. Convivi pouco com ele. Ler essas estórias é como talvez entrar na
mente dele. Suas frases curtas tinham alguma poesia. Começava a me fascinar:
“Ontem vi minha mãe.
Era bonita! Não lembro o nome dela. Hoje eles fizeram bolo de fubá!”. Ou: “Sonhei que estava de novo beijando Rosa, em
alguma estação de trem. Era Paris?”. Os escritos, mais do fim, alternam
entre o naif do alzheimer, a confusão de idéias, e momentos pungentes de
extrema lucidez:
“Minha família não
existe pra mim. Não me interesso. Minha vitrola quebrada tem mais valor. Isso
me dói mais do que a doença.”. A gente nunca sabe exatamente porque
escreve. Se meu avô fez questão de pedir para que queimassem os diários, parte
dessa vontade minha de remexer nessas coisas pode ser um misto de homenagem e
vingança. Decidi finalmente escrever um livro. Inventar o meu avô a partir do
inventário. O livro abre numa estação de trem.
sábado, 17 de março de 2012
um poeta morreu
soube que um poeta morreu. toda vez que morre um poeta nasce uma prosa. uma rosa no apartamento, ou no asfalto. em breve serei eu a morrer também. e você que está lendo (ou não) o que escrevo (ou não). assim como a morte é a certeza da vida, a poesia é a incerteza. a morte de um poeta é uma espécie de buraco negro. suspensas as leis do universo, emanam-se do escuro infinito as leis do verso. como que cega, a noite tateia as montanhas. a cidade parece dormir. ao fundo, bem no fundo da paisagem, consigo ouvir os sonhos da cidade que dorme. uma sinfonia de lembranças, riscando o céu negro com perfumes doces. mais ao fundo, uma criança tem um pesadelo. tem medo de morrer. acorda seu pai, assustada. minha filha, tudo não passou de um pesadelo, vai dormir. o cão também dorme. sonha com pulgas e ossos. as pulgas do cão sonham com circos na china. a china está já acordada, no horário do almoço. um moço na china escreve um poema. desenha um poema com ideogramas. idéias sem peso. não há gravidade na china. e aqui está tão noite que as palavras também dormem. as palavras sonham com poetas.
terça-feira, 13 de março de 2012
Notas encontradas no futuro
fragmentos datados de 13 de julho de 2037 - arquivo pessoal
I
Por acaso, assistindo a uma
entrevista num video na internet de Patch Adams, o médico-palhaço mundialmente
famoso após o filme, interpretado por Robin Williams, um intenso desejo de
finalmente escrever um livro tomou conta de mim. A visão da arte como medicina
para a sociedade caduca e doente, compartilhada por outro mestre que admiro, o
cineasta e tarólogo Alejandro Jodorowsky, parecia criar forças, ou melhor,
despertá-las de um sono há muito tempo dormido.
II
Por volta dos onze anos senti que
era poeta.
III
Depois de ler A Invenção de
Morel, e de ter visto os filmes do Chris Marker, notadamente o La Jettee , volta aquela
sensação incrível de como seria intrigante escrever uma estória com um pano de
fundo de ficção científica. Seria uma maneira eficaz de engajar o leitor, para,
durante a trama, tecer observações e filosofar mais profundamente, sem nenhuma
culpa de talvez ser chato.
Eu sei que teria que envolver
alguma coisa em relação ao espaço-tempo. Algo que criasse um ambiente surreal.
Nessa salada doida, de alguma
forma eu poderia tentar conjugar:
- memórias autobiográficas da
infância.
- a minha relação com meu pai.
- reflexões poéticas.
- reflexões filosóficas.
- a questão dos sonhos lúcidos.
- achar uma maneira intrigante de
desenvolver cenas de sexo.
IV
Realmente, o assunto mais
intrigante que experimentei na prática: sonhos lúcidos. E a experiência com ópio no jazz da praça Tiradentes na quarta-feira de cinzas... Um misto desses dois. Um ponto de partida mais eficaz
seria o de um livro de contos, linkados por essa temática, ou estilo. Ou
personagem. Enfim, as conexões são feitas pelo leitor. Se forem bem escritas. Algo de Twilight Zone. Um
cotidiano comum de onde irrompe o inexplicável. Escrever um livro imaturo
mesmo. Para perder a virgindade da prosa.
Pode começar assim: Sempre
conversava com amigos sobre sonhos, e um dia, seguindo a instrução de um deles,
decidi começar um diário de sonhos.
V
Essa coisa de fragmentar por um
lado é praticidade e por outro é preguiça.
VI
Assim como o Keith Johnstone fala sobre Impro, vou
seguir o conselho de dizer pra mim mesmo – vou escrever um livro medíocre.
Partir de clichês. Assim a gente se solta mais e não precisa ser genial. Acho
que vai ser bom para a produtividade da coisa
VII
Decidi. Vai ser um livro de
contos. Contos que tratam de uma mistura de psicomagia, twilight zone, poesia e
palhaço. Cada conto estimulando a imaginação. Decidi também organizar a minha
agenda de tarefas pessoal. Sempre reservar momentos de leitura e escrita
diária. Usar menos internet. O próximo passo é me relacionar mais e melhor com
as pessoas, como fala o Patch Adams.
VIII
O mote, a unidade, pode ser
justamente: a transformação do mundo através da poesia, do olhar poético. Como
podemos olhar diferentemente as coisas e mudar nossas vidas. Não deixa de ser
um livro como de auto-ajuda, mas com um viés literário e não tão declaradamente
místicos como livros de Paulo Coelho e afins.
IX
Um dos contos pode ser baseado
nas tardes dentro da kombi do marcos. As aventuras, as descobertas, os
pensamentos daquela época.As apreciações roqueiras. As lutas corporais. Os
causos do próprio marcos. O cd do Fênix. Mas teria graça isso tudo? Como escrever
isso de modo diferente do que simplesmente contar? Aliás, qual o problema de
simplesmente contar? Tudo não se baseia na velha arte de contar estórias? Como
nossos ancestrais, desde o início da humanidade, em volta das fogueiras?
X
Finalmente entendo o que faltava
para eu ter mais gosto e vontade de escrever prosa. Ler.
XI
Penso que um mote bom seria uma
espécie de diário. Uma reportagem poética. No sentido de experimentar na
prática coisas e relações interessantes para escrever não sobre, mais por sobre
aquilo tudo experimentado. Como fala o Castello no Ribamar. Acho uma boa idéia.
O que poderiam ser essas experiências? Algo do tipo do Patch Adams? Algo do
tipo drogas? Algo do tipo sexo?
XII
Numerar os capítulos dá um prazer
de avançar, uma sensação de que se está andando para frente. Mas queria mesmo
era experimentar o livro-jogo como aqueles da adolescência. Não conhecia Cortazar,
Borges. Então para mim o legal mesmo era o livro-jogo de RPG. Você podia
escolher qual caminho tomar. Cada caminho correspondia a uma página. Pode ser o
caso pensar em um livro desse tipo.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
nesse calor penso no passado. nas mulheres. na infância que inventei. penso em todas as pessoas que esbarraram no meu corpo. todos aqueles desencontros de metro. os telefonemas ocupados. o calor aumenta. não sei se é imaginação. vejo o passado sobreposto ao teclado do computador. pessoas se misturam com letras. seria isso poesia concreta? o jazz etíope me lembra sonhos lúcidos. o ar está parado como se dormisse. penso nas mulheres bonitas. nas charmosas. um ideal talvez seja uma mistura de esperanza spalding, camila pitanga e sharon menezes. bem brasil. o ano só começa mesmo depois do carnaval. a vida só começa mesmo depois da primeira mulher. da primeira transa. do primeiro clube da esquina. do primeiro transa. do primeiro disco do tênis. o calor aumenta mais. na minha mesa eu vejo: o bilhete da loteria, o passaporte, uma luva preta de mímica, e o cortador de unha. o relógio escangalhado do chaplin na parede sorri. tudo está derretendo? penso no romance que vou escrever. quero que seja assim. frases curtas. espaço para o leitor. vou tomar um banho gelado. senão a cordilheira de sonhos da noite não vai apagar.depois do banho vou ler algo do pessoa. é sempre bom para sair de si. o primeiro do vinícius começa com algo assim: "o ar está cheio de murmúrios silenciosos". algo do tipo. não sei porque lembrei disso. só que com mais calor. quando esquentamos demais as coisas dilatam. eu deveria dilatar minhas frases? nesse passado penso no calor. na infância. nas mulheres que inventei. penso em todos os corpos que esbarraram nas minhas pessoas. todos os metros daqueles desencontros. os telefonemas que não atendi. só sei o que é imaginação. vejo o teclado sobreposto ao passado. letras se misturam com pessoas.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
cada coisa você diz uma hora
data estrelar 22 de fevereiro de 2012
calor de 50 graus
condições naturais e imaginárias
no mesmo dia em que morreram
Andy Warhol e Américo Vespúcio
num quarto em cinzas
longe da civilização e da barbárie
em que pretendo relatar nessa carta
os lugares que vi com as mãos
e com os pés
nessa terra sagrada do Sol
o cristo redentor não redimiu ninguém
com seu abraço concreto
fez poemas abstratos
a chuva não veio
nem o silêncio
depois da bateria
sobrevoando a cidade
como moscas famintas
helicópteros lambem o azul
o ventilador agoniza
e só nos refrescamos
com as lembranças
vou mergulhar na piscina
aqui do play?
ou continuo mergulhando
na poesia que sou?
o corpo sua
sendo o que sou
cada coisa você diz uma hora
a escola de samba
não me ensinou nada
que bom!
desaprendi sobre as danças
enquanto desconstruía o samba
dentro do coração
descobrindo américas
e moças
e arte popular
cantando amélias
e coisas
que não vou lembrar
coisas que o vento...
e bla bla bla...
lô, beto, bituca...
só com o nariz vermelho
se pode distinguir
a cor azul do mundo
só com meu corpo aberto
se pode sambar
na miopia de enxergar perto
eu já tomei guaraná
hoje tomo poesia
o mundo vive
eu já comi paçoca
e já brinquei de pique
o mundo vive
cada coisa você diz uma hora
e mesmo assim
o tempo invisível
inventa uma coisa
assim que não sei o que
disfarçado de outra
essa outra pode ser
fora da lógica
fora do óbvio
cada coisa você diz uma hora
e nem tenho relógio
(o meu escangalhou)
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
ai ai ai...
ai ai ai
meu deus
tenho fome
e só há
uma paçoca
ai ai ai
nem só de pão vive o homem
nem só de poesia vive o poeta
nem só de palhaçada vive o palhaço
meu deus
meu deus
pra que tanta perna
branca, preta, amarela
se sabia que eu era poeta
e palhaço
e homem
ai ai ai
tenho fome
tenho fome e tenho sede
minha perna me dói
e eu não tenho rede
meu deus, meu deus
essa paçoca que agora jaz em minhas mãos
esse fogo que agora jorra em minh'alma
essa saliva seca
essa solidão cheia de gente
ai ai ai
meu deus
me ajude
eu já perdi as chaves do carro
eu ja perdi a identidade
o cpf
a certidão de nascimento
o milton nascimento
meu deus ai ai
eu já perdi até o poema
e estou só
gritando nesse meio-fio
num parque de sampaulo
que eu não conheço
ai ai ai
meu deus
ao menos um pastel
ao menos um guaraná
me dai um pão
que seja nosso
mas que seja mel
por todos os poetas
e todos os famintos
eu não quero morrer no asfalto
cinza e sem nariz vermelho
ai ai ai
tenho fome
e só você pode ajudar-me
me dai do que comer
ai meu deus
que eu juro
continuo
são paulo
eu fiquei cego
na estação da luz
chorei
na consolação
queimei
no paraíso
outonei
nos jardins
passei fome
na brigadeiro
caguei
na higienópolis
me rendi
na ipiranga
escapei
no carandiru
me prendi
na liberdade
me prendi
na liberdade
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
coisas que a gente às vezes inventa
andando na rua
cantando canções
só naquele assovio
baixinho, pra ninguém ouvir
descubro um momento
por entre os sinais de trânsito
onde não se é nem para ir nem para vir
nem para parar
descubro um momento só
isolado do tempo
onde simplesmente sou
andando parado no mesmo lugar de nunca
um cão me olha
um pombo voa
um velho resmunga
um casal se beija
um ônibus freia os pneus
alguém nasce
alguém morre
a cidade acorda
abre as janelas
o planeta gira
ao redor de si mesmo
no universo em expansão ou não
ordenado (ou desordenado) por Deus ou não
mas, não posso negar,
um cão me olha
isso é verdade.
domingo, 22 de janeiro de 2012
plano de fuga
quando eu era pequeno
tinha um pequeno
plano de fuga
colocar algumas coisas
na mochila da escola
e não ir para escola
e não voltar
vendo aqueles programas
de sobrevivência extrema
no descovery channel
lembro de como era
muito mais lírico
o critério para escolher
os itens de extrema necessidade:
podia ser alguns pacotes
de biscoito foffy
figurinhas de colar
um cortador de unha
(porque tinha um pequeno canivete sem corte,
mas era um canivete)
um pedaço de cadarço, como corda
duas cuecas
um short tactel para poder molhar
duas camisas
um casaco
água
caneta e um caderno
veja só
um caderno
talvez
desde esse tempo
eu já tivesse percebido
que a poesia
é um item
de extrema necessidade
para a sobrevivência
na própria selva
que somos
tinha um pequeno
plano de fuga
colocar algumas coisas
na mochila da escola
e não ir para escola
e não voltar
vendo aqueles programas
de sobrevivência extrema
no descovery channel
lembro de como era
muito mais lírico
o critério para escolher
os itens de extrema necessidade:
podia ser alguns pacotes
de biscoito foffy
figurinhas de colar
um cortador de unha
(porque tinha um pequeno canivete sem corte,
mas era um canivete)
um pedaço de cadarço, como corda
duas cuecas
um short tactel para poder molhar
duas camisas
um casaco
água
caneta e um caderno
veja só
um caderno
talvez
desde esse tempo
eu já tivesse percebido
que a poesia
é um item
de extrema necessidade
para a sobrevivência
na própria selva
que somos
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
relógio escangalhado
eu tenho um relógio
que veio quebrado
é um relógio
que tem o chaplin
uma imagem dele
dentro das engrenagens
de uma máquina
em tempos modernos
quando eu coloquei
as pilhas nele
ele começou a andar
mas os ponteiros
esbarravam uns nos outros
e o tempo não passava
ficava emperrado
e o chaplin lá rindo
no meio das engrenagens
outro dia
quando fui olhar as horas
sem querer
sério mesmo
o relógio estava
andando prá trás!
depois eu fui entender
que o relógio servia
para não marcar o tempo
ele tinha virado
como diz o manoel
- um objeto bom pra poesia
quando as coisas escangalham
ficam muito boas para poesia
então desde então
eu deixo o relógio lá
escangalhado mesmo
na minha parede
do escritório
toda vez que eu quero
olhar as horas
ver se estou atrasado
se tem algum compromisso
se vou perder a carona
o relógio
inútil
com o chaplin rindo
me lembra que o tempo
não existe
que veio quebrado
é um relógio
que tem o chaplin
uma imagem dele
dentro das engrenagens
de uma máquina
em tempos modernos
quando eu coloquei
as pilhas nele
ele começou a andar
mas os ponteiros
esbarravam uns nos outros
e o tempo não passava
ficava emperrado
e o chaplin lá rindo
no meio das engrenagens
outro dia
quando fui olhar as horas
sem querer
sério mesmo
o relógio estava
andando prá trás!
depois eu fui entender
que o relógio servia
para não marcar o tempo
ele tinha virado
como diz o manoel
- um objeto bom pra poesia
quando as coisas escangalham
ficam muito boas para poesia
então desde então
eu deixo o relógio lá
escangalhado mesmo
na minha parede
do escritório
toda vez que eu quero
olhar as horas
ver se estou atrasado
se tem algum compromisso
se vou perder a carona
o relógio
inútil
com o chaplin rindo
me lembra que o tempo
não existe
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Rui de Paquetá
Rui era um senhor de 56 anos, barriga de chope, leve barba. Morava em Paquetá. Uma casa modesta, quadro de Jesus, tv 29 polegadas. Coisas compradas no Ponto Frio do centro. Gostava de fumar cigarro, sentado na sua poltrona. Tinha um canário, Sinatra. Usava sandálias de couro. Gostava de pescar com os amigos Gomes e Ademar. Era viúvo.
Um dia, fumando e olhando a janela, viu dona Lorena, a nova vizinha. Ela estava regando as mudas de violeta. Os dois se olharam. Lorena fechou a cortina.
Assistindo Faustão, Rui foi pegar uma cerveja na geladeira, escorregou e caiu. Com o traseiro doendo, observou um objeto brilhante envolto de poeira embaixo da geladeira.
Um dia, fumando e olhando a janela, viu dona Lorena, a nova vizinha. Ela estava regando as mudas de violeta. Os dois se olharam. Lorena fechou a cortina.
Assistindo Faustão, Rui foi pegar uma cerveja na geladeira, escorregou e caiu. Com o traseiro doendo, observou um objeto brilhante envolto de poeira embaixo da geladeira.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
bola de gude
no ônibus para niterói escuto lô borges.
o cinema da janela existe.
não quero ir de barca, porque quero chegar.
eu ia lhe chamar, enquanto a barca não corria.
mas o coração pulou no vão central, junto com a suspensão.
alguém ronca alto, e baba.
vejo uma mulher grávida, mas não quero sair do lugar.
hoje eu to egoísta praca.
pernas brancas, pretas, amarelas.
meus deus, pra que tanta distância.
eu só queria ser e ter todas as pernas.
e caminhar todas as distâncias.
porque me chamaste sol
se sabias que o sabiá sabia assobiar?
mundo mundo pequeno mundo
cabe dentro da bola de gude do olhar
o cinema da janela existe.
não quero ir de barca, porque quero chegar.
eu ia lhe chamar, enquanto a barca não corria.
mas o coração pulou no vão central, junto com a suspensão.
alguém ronca alto, e baba.
vejo uma mulher grávida, mas não quero sair do lugar.
hoje eu to egoísta praca.
pernas brancas, pretas, amarelas.
meus deus, pra que tanta distância.
eu só queria ser e ter todas as pernas.
e caminhar todas as distâncias.
porque me chamaste sol
se sabias que o sabiá sabia assobiar?
mundo mundo pequeno mundo
cabe dentro da bola de gude do olhar
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
as paisagens não mudarão enquanto não mudar o olhar sobre elas
isso já foi dito
envergo o olhar
num contorcionismo verbal
lá longe dá pra ver
minha alma dançando
num abismo de oceanos
a porta bate
quem somos?
deixo pegadas na porta principal do seu silêncio retorcido diante das figuras magnificas que inundaram a serpente dos abismos dentro de mim eu grito o seu nome pelas janelas da memoria onde cada um recebe o seu chamado e a sua condução de sonhos
é de pedra a nossa forma animal
retorcida
desabando nas paredes da memória
o corpo como uma cítara se afina
estica
a alma
seria feito de plástico
jogado à deriva
nos sete oceanos
eu falava a verdade
quando nada havia de ser tido
justo agora que sonhei que estava acordado
insisto no insight do precipício
se tudo voltasse ao início
seria o fim
sábado, 1 de outubro de 2011
corvos e girassóis

espetáculo de dança - Márcio Cunha Dança Contemporânea
ao terminar o espetáculo
uma senhora, com uma expressão confusa no rosto
me perguntou:
- o que você entendeu?
um pouco embaraçado com a situação
respondi, em tom leve:
- então, senhora, acho que é mais para
sentir.
e a senhora:
- ah, é né, é dança contemporânea...
eu poderia ter dito pra ela uma frase que o manoel de barros
sempre fala:
"poesia não é para compreender, é para incorporar."
até porque,
se a razão fosse capaz de nos fazer experimentar
o mesmo que os mistérios do sentimento, das sensações e da imaginação,
pra que a arte?
livremente inspirado na vida e obra de van gogh
esse espetáculo íntimo do dançarino e coreógrafo márcio cunha
acompanhado pela presença da também dançarina renata reinheimer
percorre pinceladas fortes
a força e beleza do gesto
o desespero a loucura a solidão
o sublime ato de criar
e destruir-se enquanto
talvez enxergamos melhor
quando não temos visão
e uma obra de arte
faz sumir o artista
no seu transe
para que o espectador
veja, sinta, ouça, toque, cure-se (como em tommy - the who)
se kurosawa faz a gente entrar em van gogh
(clique aqui para ver um trecho do filme "Sonhos")
corvos e girassóis pode fazer a gente entrar
em nosso van gogh
o movimento dos dançarinos parece querer se fixar no tempo
enquanto o espaço some
o enquanto dos dançarinos parece querer se fixar no espaço
movimento e tempo somem
o tempo dos dançarinos parece querer se movimentar no enquanto
os dançarinos somem
e é na repetição que o transe irrompe
"repetir, repetir, até ficar diferente. repetir é um dom do estilo."
manoel de barros
a começar pelo começo:
enquanto mexem, remexem, giram, tiram do lugar, colocam de volta, procuram O lugar para organizar algumas cadeiras no espaço - peter brook diria que eles estavam criando o espaço vazio, tão vital para criar-se um espetáculo propício para a imaginação e interação com o público
-
os dançarinos convidam alguns espectadores para assistirem a apresentação
dentro do palco, em algumas cadeiras de palha, cadeiras de van gogh.
já esse movimento nos diz sobre a concepção da obra
vamos entrar
e, cada cadeira e cada espectador, com sua posição na cena, e seu ângulo e ponto de vista diferente, joga a nossa imaginação para visualizar e sentir de outros pontos também
como será que ele ali está vendo? e aquela moça ali? e esse rapaz sentado na minha frente?
o que cada um vê?
fernando pessoa deveria chamar-se fernando pessoas, como disse o ferreira gullar,
já que o homem precisava ser sempre outros (todos precisamos)
"não ser, é outro ser." manoel de barros
então somos convidados a sermos outros, para assim nos vermos melhor
e nesse jogo de pontos-de-vista, nosso olhar vai sendo direcionado, pela força gigantesca de minúsculos gestos, ou até mesmo de sensações (gestos internos) ao mesmo tempo que é jogada para ver a explosão do corpo, em gestos largos
- será que a gente consegue atingir o sublime pelas coisas mais banais? (os orientais diriam que sim, e todo artista universal também)
e o repertório de movimento não chega a ser extenso, virtuoso.
com poucos elementos, assim como poucas cores em van gogh, mas cores primárias, complementares (homem e mulher, autor e obra, claro e escuro, corvos e girassóis),
rima de corpos, criação de figuras imaginárias no espaço, linhas e curvas, ritmo,
e principalmente,
gra
vi
da
de
atingimos o EU
caímos em si
ao sermos outros
em corvos e girassóis
se uma obra não mostrar o homem para o homem
não sei pra que serve
ou pra que não serve.
a poesia é um inutensílio poderoso, de tão suave.
viva marcio cunha, renata reinheimer, e toda a equipe desse belo espetáculo.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
injeção
teve uma vez
quando eu era pequeno
que tive uma crise de asma
e tive que tomar
injeção
nas mãos
hoje, na médica
tossindo e respirando mal
ela perguntou
- você toma injeção?
eu disse que não gosto não
e contei a estória
da injeção
nas mãos
ele me receitou um xarope
lembrei do bandeira
do lance do pneumotórax:
- o que resta é ouvir um Led Zepellin III.
quando eu era pequeno
que tive uma crise de asma
e tive que tomar
injeção
nas mãos
hoje, na médica
tossindo e respirando mal
ela perguntou
- você toma injeção?
eu disse que não gosto não
e contei a estória
da injeção
nas mãos
ele me receitou um xarope
lembrei do bandeira
do lance do pneumotórax:
- o que resta é ouvir um Led Zepellin III.
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