quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Viagem à Lua

olhar a lua
apenas olhar a lua
pode ser como no filme
viagem à lua
ou
voyage dans la lune
em francês tudo fica mais chique
mas a lua
mesmo que sempre
vemos diferente
se mantem igual
se queda igual
la luna misma
a lua que esta no céu agora
não é a mesma que vi
quando eu era criança
mas
a lua que está no céu agora
é a mesma
desde de sempre
desde que a lua existiu

tenho vinte e quatro anos
e poucos sonhos
resumindo
é amar e ser amado
e fazer coisas que amo
andar de bicicleta
conhecer os lugares mais inóspitos do mundo
lugares que eu nunca imaginaria conhecer
outros, queria conhecer de novo
ou melhor
desconhecer
me perder
como se perder
na poesia

"és peligroso, pero fascinante"

cabelos ruivos
cabelos negros
cabelos cheios
luas cheias
quarto minguante
o que mais importa
quando se olha a lua?

ou
o que a lua vê
quando nos olha de volta?

estaria ela vendo
seres escuros
de um planeta azul?

estaria ela com vergonha
de mostrar suas rugas
marcas do tempo e de cometas
passados
como amores fugazes
que marcam a pele cinza
de um planeta esquecido
hoje apenas satélite
hoje apenas em órbita
ao redor de um planeta azul
para seres escuros
que sonham e poesiam
com a lua
e que cantam canções românticas
para seus amores
olhando a lua

ontem eu vi o filme do Méliès
e não sabia porque precisava vê-lo
mas sinto que nele está alguma chave
para desvendar meu passado
meu futuro
e meu presente

nao sei o que é
se é a imagem colorida à mão
mudando como mágica
ou se é o sentimento
de que só através da mágica
se pode atingir a realidade
se pode chegar ao verdadeiro

será por isso
que a carol gosta tanto de desenho animado?

todos temos uma lua
para qual podemos viajar
em algum tempo da vida
a lua é um lugar escondido
no canto do quarto

depois
pode ser uma bola de futebol
que seu pai não te deu no natal

mais depois
aquela carta
daquela menina
que se perdeu
antes de entregar
e que hoje
talvez vague
poeira cósmica
na calda de estrelas cadentes
no rastro de pedidos de amor
que nunca se cumpriram
amores-poeira
vagando no espaco

mais e mais depois
a lua vai se tornando própria
um lugar escondido dentro da gente
uma bola de futebol de uma infância inventada
uma menina feita de poesia que nasce, vive e morre nos braços
e frases de um poeta
um sonambulo
sonhador

lunático

são tantas imagens
que se pode lembrar
o garoto pescando sentado na lua minguante
o foguete atingindo a lua nos olhos
o anel de lua e estrela
a estrela do numero 5

a pior imagem que vi da lua
foi numa luneta
e percebi
que o que eu mais gosto de ver
é o que não vejo

a poesia parece ser
como olhar a lua na luneta
e ir girando a lente
até nao se enxergar mais nada de nítido
quanto menos nitidez na lua
mais definidas as palavras necessárias
para indefinir o que se vê

vejo a lua
ou vejo luzes da cidade
vejo a lua
ou vejo lugares escuros
vejo a lua
ou viajo à lua
não sei se vejo ou se sou visto
se a inventei
ou se fui inventado
se viajo pra fora
ou pra dentro

na distância tão próxima
que muda marés e reorganiza eixos magnéticos
a lua, muda, viúva
observa sem luneta
um azul, um planeta
um homem numa ilha
com um segredo
um amor, uma filha
um planeta inventado
que ele escreve
por influência da lua
que observa
antiga
a nova descoberta científica
um tanto quanto perigosa

mas fascinante

há vida além da lua
alem dos buracos do meu rosto
cicatrizes cinzas
de tantos outros que vieram
e passaram

enquanto isso
na terra
uma estrela do mar
olha o céu estrelado
em uma ilha distante
levada pelo mar
um siri tropeça no seu sonho
de conhecer as três marias
e prende suas garras
numa rolha da garrafa
que se abre
molhando uma carta
que algum adolescente
deixou de enviar

a carta era um relato
em forma de poema
uma confissão noturna
de um jovem náufrago
que um dia
uma noite
olhando a lua

delirou-a

sábado, 25 de agosto de 2012

ela desenha sem lápis

ela desenha sem lápis
e agora tá desenhando com lápis

o processo dela parece ser
bem legal

pra desenhar sem lápis
ela inventa uma caligrafia com as imagens do mundo
de dentro
de fora
e nem de fora nem de dentro

pra desenhar com lápis
ela dança a coreografia que o mundo conduz
de dentro
de fora
e nem de fora nem de dentro

o desenho ficou legal

sem você no apartamento

to que nem um cão
trancado no apê
procurando a dona
rasgando o sofá
roendo o pé da mesa

fazendo xixi de protesto

terça-feira, 21 de agosto de 2012

tal!

encontrei o amor em todas as coisas
encontrei um mosquito numa garrafa de cerveja
luzes poesiam o céu numa tempestade com ideogramas japoneses

não há como descrever o que se vê
o que se viu
escrever é descobrir
o que nunca se poderá ver
e ver é ser escrito

como raios no céu
poesiando o horizonte
com poemas japoneses

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

sabor

atrás daquela grade do pátio tinha um mato
o matinho
quando a bola do futebol caía ali
parece que não tinha mais jeito
todo mundo tinha medo do que tinha lá
diziam que tinha cobra
e outras coisas que a gente não sabia

não saber aumentava o saber

na praia
as areias que ficavam duras
como pequenas pedras de areia
eram legais de se quebrar
e de repente
aparecia por dentro delas
um bicho
aquela barata de areia de praia
que eu chamava de fumiga

praia sempre foi um lugar que nunca vai ficar chato
sempre tem alguma coisa
quelque chose

nos bailes de carnaval
minha mãe pintava um coração
na minha bochecha
e eu usava uma faixa na testa

eu gostava de pintar a cara
no dia do índio
me lembro de pensar brevemente
que gostaria mesmo de ser índio
enquanto cantava a música da xuxa
segurando um arco e flecha feitos de jornal
com fita crepe

o mundo parecia imenso
era realmente imenso
mas eu fui crescendo
e veio a internet
e a mente
parece que os braços da gente
vão abraçando mais o mundo

e saber vai diminuindo o saber

por outro lado
é possível brincar de não-saber
ou inventar um outro saber
e dessa forma

inventar um não-saber vai aumentando
o sabor

sábado, 18 de agosto de 2012

voa pensamento

vôa na madrugada um pensamento
passeando apressado
por entre acordes de piano
e cidadãos indo dormir

a cidade calma, serena, espera o sol
na solidão dos poucos carros
das luzes coloridas
dos papéis que se arrastam ao vento
um olho de gato brilha
um homem dorme envolto em papelão
meu coração se aproxima do mundo
como se fosse o próprio vento
um bafo de algo maior, mais profundo
mas é apenas o vento

o pensamento, voando
pousa de passagem
nas asas de algum sonho
que alguém deixou por sonhar
na beira da cama

parece um filme antigo
em preto e branco
mas não
é a própria história da humanidade
encarcerada na vontade de ser feliz
e de voar pensamentos
e num breve momento
o pensamento se olha em reflexo
e ri desse espelho maluco

a imagem se desdobra em relógios
pendurados no pescoço de santos
que se multiplicam na paisagem dormente
cercando a cidade num ataque aéreo
os ponteiros jogam pequenas bombas de tempo
e os segundos vão caindo
acordando os homens
e adormecendo as crianças
envelhecendo as mulheres
e as plantas que vivem em busca da luz

o pensamento não pára
e continua voando
seus olhos agora pesados
pestaneja, chega a dormir
e num sonho
parece que acorda ao som de acordes de piano

na madrugada uma sinfonia de luzes coloridas
e pequenos fragmentos do vento
de outros tempos, muito tempo atrás
vêm distorcendo a cidade, as ruas, os homens
os sonhos das crianças

andando no asfalto vazio
o pensamento vê uma asa cortada
metade de uma asa
metade de um sonho
sente um desconforto na coluna
e repara, é sua outra metade da asa

não é sangue que se esvai
é um rolo de filme mudo
envolto não pelo vento
mas por alguns acordes no piano
de algum sonho perdido
do século passado
o filme se desenrola em guerras em danças e músicas mudas
rolando ladeira abaixo na cidade
rolando ladeira abaixo no equador
dando a volta na Terra e se encontrando novamente com o pensamento
que se vê enrolado

mumificado em ser humano
condenado a ser livre

fica todo coberto
completamente submerso em ficção
até os olhos cobertos começarem a sonhar
as imagens
pequenos fragmentos de tempo
cortados como frases
que alguém balbuciou
em algum sonho
que alguém deixou por sonhar
na beira do mundo
na beira do dia
que já acorda a cidade
pronta para sonhar
com novas madrugadas
novos ventos
de tempos atrás

dorme o pensamento
mumificado em cotidiano
condenado a ser livre
pronto para sonhar
com novas madrugadas
novos ventos
tempos atrás




segunda-feira, 13 de agosto de 2012

boa noite, carol

de noite sinto falta dela
andando pelo apartamento
como quem desfila em passarela
ou tudo abrindo abismo em momento
o mundo em mise-en-abyme em tela

desenha sem lápis uma lua no céu
inventa na cintura violão chocolate ao leite
às vezes pára e me olha de mel
às vezes vai e pede que eu deite
- pode tocar que meu toque é teu.

joga os quadris num riso redondo
girando uma dança no ar flutua
yoga os mistérios da mente rondo
e fica um suave sentido perdido na rua

a coisa mais linda que eu já vi
que eu já li ou fui lido ou fui feito
parece que sou só um bem-te-vi
voando ao redor de um lírio perfeito



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

lá no sítio

de noite
lá no sítio
a gente fez uma fogueira
com uns pedaço de pau
pinhas, e madeira seca
tinha bambu também

tava tudo indo bem
até que a suzana
que tava cavucando
no fogo
com um caniço de bambu
disse:
- to aqui com essa varinha de pescar fogo.

ai danou-se
fiquei vidrado naquela varinha

não sei se tava pescando o fogo
ou se era eu mesmo

tem vezes boas que a gente sai da gente
e nem percebe

bom mesmo é escrever de depois

notas

prestar atenção nas coisas
conhecer o timing das viradas
virar e olhar o céu
rabiscar frases que vão durar para sempre

como um cirurgião sem fé
o destino nos presenteia
pessoas são pessoas em qualquer lugar
elas só não sabem que deus são

o meu verso é como uma música
você devia inventar uma maneira melhor
de experimentar o silêncio

lapso

eu achei o amor em todas as coisas
achei um mosquito numa garrafa de cerveja
os raios estão poesiando no céu em letras japonesas

quarta-feira, 4 de julho de 2012

carol

calor
feito um
caracol

colar
teu corpo
com o meu

coral
que inventa
um mar

carol
que entorta
eu

segunda-feira, 2 de julho de 2012

estilo

escrevo com uma caneta de borracha. as letras vão apagando a realidade.
escrevo com a ponta do meu pênis. as letras ora gozam ora mijam os muros da cidade.
escrevo com uma corda bamba. as letras vão equilibrando sonhos nas mãos.
escrevo com um sorriso no rosto. as letras vão espalhando feijões na paisagem branca.
escrevo com você. as letras são nossos corpos numa dança invisível.
escrevo com o ar. as letras são nuvens ciganas.
escrevo com os pés. as letras são pegadas apagadas pelo mar.

domingo, 24 de junho de 2012

menina do sorriso na face

menina do sorriso na face

eu tava pesquisando
alguma música
alguma rima
ou quase

menina do sorriso na face
pra dar pinta
sua linda
no teu mural do face

numa espécie de mantra
canto em cima da mente
numa dança por dentro
menina
em ritmo de dance
queria dar pinta
no teu mural do face
menina do sorriso na face

vem me confessar bobagens
vem que eu vou contigo
deito a cabeça
no seu umbigo
o mundo todo
ao redor do umbigo

vem me contar vantagem
a gente não tem inimigo
deita a cabeça
no meu ombro
fica comigo

menina do sorriso na face
eu fico só olhando a sua cara
sem dizer nada
como se filmasse
um filme sem filme
fala sem texto
meu corpo no teu
sexo no sexo
tudo ao inverso
oposto do oposto
mizanabime
quero te ver
fica comigo

menina do sorriso na face


sábado, 9 de junho de 2012

disritimia sincronizada

essas tiazonas meio gordas
balançando no sertanejo
num contraste meio poético
com meu objeto de desejo

louis e seu espumante barato
barato espumante na brisa
da chuva pingando na minha
camisa rosa colorindo o tato

voando num xote no baile
salão ecoando conversas
o chão as paredes não existem
o teto amplo amplia as pernas

nunca tinha ido a pendotiba
e você nunca bebeu tanto
parece um filme adolescente
todo cliche tem um encanto

lençol branco escondendo
mesa de madeira mais banal
dj avanzin mandando no seal
e a gente todo se querendo

beijos roubados de brinks
aventura dentro doida mexe
algumas com tudo nos trinks
outras pra lá de marrakesh

quebrando copos de vidro
cabelo ao vento gente beba reunida
num subúrbio a oriente do oriente
eu deixo ela me conduzir na saída

a mão por dentro do vestido
a boca na taça de cristal
a vida que borbulha sem vidro
ou é ela que é meu temporal?

esse poema tá meio engraçado
tipo pedir risole pro garçom
tocou até claudio zoli
eu não lembro que música não

ah, era aquela do trocando
de bikini sem parar
mas isso nem importa

ah, sei lá



quinta-feira, 7 de junho de 2012

tela camera cama

podia parar de chover
podia você estar aqui

  • mesmo estando debaixo do meu cobertô
  • na minha cama de criança
  • podia você estar aqui

    mesmo estando coberto
    no seu corpo de mulher
    tudo o que você podia ser
    inventamos na pele e em letras

    em pixels, em pontos
    em discos
    em giros
    em danças

    seu olho brilha
    no nosso quarto escuro

    os adesivos de estrela saíram
    faz tempo do teto
    dividíamos a mesma infância
    em tempos e espaços outros
    mas tenho certeza
    que toda noite olhávamos
    para o mesmo céu de falsas estrelas

    os adesivos de estrelas
    viraram estrelas
    o teto
    virou o céu
    a infância, agora dentro
    no único tempo e espaço que existe
    - aqui, agora, eu e você
    em toda noite que existe
    em todas as noites inventadas
    num céu de estrelas verdadeiras

    como qualquer poesia


    (poema a 4 mãos - Taiyo Omura e Carolina Amaral)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

sinto que estou lendo algo já escrito no futuro
sinto que estive escrevendo algo que li agora
como aquela sensação de já ter visto o filme
logo depois de vê-lo

pipoca no jornal
atrás do tecido
reluz um gosto amargo
do seu beijo
feito um desafio

relógio parado
andando para trás
entortado
escangalhado
na parede do meu quarto
sem paredes

o seu cheiro ainda tá na camisa
desregramento dos sentidos
legau
consegui sentir sua pele pelo cheiro
e da pele veio a cor


sábado, 2 de junho de 2012

a boca da cama


o ventilador
na boca da cama
nem engana
o calor
ela me olha
na cama
na boca de
uma mulher
a cara
o cabelo amassado
não enganam
que ela amou
ontem
o sol
na pele de lençol
altura da bunda
também deita
nela
eu mais desejo
que escrevo
estrelas no lençol
ela tampa a boca
com uma estrela
lá fora a obra
bate
aqui é só
pulsação
parece outra
cidade
parece
coração

perdida em sono
na boca do dia
me perco no corpo
nas curvas
desse bicho solto
largado
lagarto
na cama
espalhado no tempo
de uma sexta-feira
infinita

de leve
ainda dormindo
esboça um sorriso
vindo do sonho
o lençol respira
num ciclo
movendo estrelas
em pleno dia

na boca da cama
galáxias da cama
esparramado universo
fabricando verso
numa brincadeira
ainda dormindo
esboça um sorriso
é quase um mantra
de sonhos lindos
e sem pijama
só de calcinha
invade a retina míope
de um poeta

o meu desejo
na boca da tua pele
se faz primeiro
impulso
instinto
depois tela
depois palavra
depois mentira
depois invenção
depois verdade
depois mito
mais ou menos
nessa desordem
na boca do sentido
vem um leve grito
do seu gemido
mesmo ainda dormindo
escuto os sons
da madrugada
me vem idéias
loucas
nem tão loucas
de escrever-te
comigo mesmo
em tua pele
essa poesia
ensaiamos faz tempo

o pé descoberto
pra fora do lençol
uma parte do ombro
uma do joelho
atrás dos cabelos
e as mãos em pose
(um quadro cubista?)
água não se recorta
só flui
e o lençol

na boca do corpo
se esparrama
como rio de janeiro
em ínicio de junho
paredes abacate
a cama branca
travesseiro tropical
lençol branco
de estrelas
e um corpo
chocolate ao leite
doce
(com alguma pimenta, brasileira)
um corpo que se derrete
na boca de um poeta

eu mais desejo
que escrevo

quarta-feira, 30 de maio de 2012

corpofala

debaixo da pele
um outro tipo de pele
debaixo da carne
um outro tipo de carne
por entre o sangue
um outro tipo de sangue
por entre os fluidos
um outro tipo de fluido
por entre as energias
um outro tipo de energia
há algo além
e além
e além
nesse abismo
que somos
que estamos
que seremos agora

o corpo procura
a mente
procura
a consciência
sabe
sente

debaixo da mente
por entre a mente
somente
resta
nada

semente

aquele vazio
do sonho lúcido
angustiante
incrível

ainda sou fraco demais pra tanta liberdade

preciso de bases de pedra
como aquela circular, mesmo que flutue no abismo
está lá
é sólida
de pedras

ainda mais
ainda mais e mais profundo
imagens se formam
desaparecem
sons veem
e vão
não em vão
vulcões
de imagens-sons
no centro
vazio
da criação

não são palavras

palavras são depois
e o depois não existe

no limite das palavras
onde o som encontra o sentido
ou vício ou verso
o universo respira uma dança
por entre as costelas galácticas
por entre os sistemas solares
no escuro abismo infinito de estrelas

no limite das palavras
e para além delas
ainda há
ainda resta
ainda sobra
e não está no espaço
nem no tempo

nessa poesia maior menor inexistente
estamos nós
dançando em círculos
inventando órbitas
no globo ocular
para enxergar a valsa
que a alma dança no mundo invisível

de braços abertos
(eles vão até onde o universo vai)
de olhos abertos
(eles vão até onde o universo vai)
o horizonte em mim se faz abraço
se faz embalo
e deito suavemente em meu próprio olhar

durmo
sonho
vivo
não sei identificar
o que é sonho
e o que não é
e nem importa mais

so(u)(l)





domingo, 27 de maio de 2012

estromatólitos

na orla
brinquedos de luz
invertem o céu
o mar
se funde ao céu
logo ali
yoga
naquele escuro

um homem de mochila
enfrenta o mar
de pé
numa pedra

vim para as pedras
não para escrever
mas para ser escrito
por elas

poderia ficar horas
só olhando o jeito
que o mar bate na pedra
e cria espumas e sons
(de alguma forma isso me lembra nós dois nus)

vim para perto do mar
para entender suas origens

estromatólitos são seres de fontes
do tempo que quase não tinha tempo
(mas no filme parecia uma pedra de gelatina)

quanto mais olho o mar
menos me sou
e a poesia
fica sendo aquela coisa
como colocar máscaras
e viver em transe

moça
máscara
meu olhar
mundo
medo
espuma do mar
mulher
máscara
duna solar
planeta sade
javali selvagem
na lama
(essa foi djavan ein?)

e olha que eu nem precisei
inventar mitologias:
está tudo aí

as poses e cia.
poesia
índia do mato
ralando mandioca
os cabelos
o encontro do mar com o céu
de noite
os olhos
duas luas minguantes
em eclipse prismático
de algum lugar distante
os quadris
montanhas do rio de janeiro
a boca
fruta tropical
de um sábado-feira
(mulher bonita não paga e também leva!)
as coxas
canoas de árvores fortes
subindo seu rio
no delta do Nilo
no encontro das pernas
um porto seguro?
bahia?
vulcão em vulva
víbora
vício
ofereço em sacrifício
fluxo e precipício
black magic woman
making the devil out of me

o manoel chamaria de caracol de batom vermelho
o bandeira chamaria de porquinho-da-índia
o vinícius de morena
o caymmi de morena rosa
o caê de coisa linda
djavan de galáxia negra
o lô de ela
o drummond de pernas pretas
o murilo de visões do mar
o rimbaud de dérèglement de tous le senses
o carvalho de in the mood
o augusto dos anjos de estromatólito moreno
bilac de ourivesaria inca
bituca de o que será
jorjamado de gabriela
guimarães de diabo

cores, nomes
nomes
cinema
transcendental
biológico
sem lógica nenhuma
cores
sons
noite, dia
fome
força
fundo
cinema mudo
cores, nomes
mito

quinta-feira, 24 de maio de 2012

p.o.v

ol
ol
al

se você inclinar a cabeça pro lado esquerdo
vai ver 3 caracóis subindo a parede


sábado, 19 de maio de 2012

flui

ela me fez entender heráclito
numa mesa de restaurante a quilo
que nem era vegetariano
com flores de plástico
chão de ardósia
2 formigas no chão

no rádio tocava
garotos não resistem aos seus mistérios
e you're beautiful
belas sugestões!

não quis mostrar
o caderno, o diário,
mas consegui ler
assim de relance
algumas palavras como
silêncio, suzana, etc...

nesse pacto secreto
como aqueles de infância
sobre coisas muito banais
mas secretas
o trato era escrever sobre o almoço
e ela fez um poema
muito melhor

não devia ter lido antes...

o desafio era estar
ser
ao mesmo tempo sem deixar
de poesiar
como se faz
protegido pelas conchas
da escrita

e assim
por mais que véus e enfeites de plástico
cobrissem um pouco o espaço
como em filmes de Wong Kar-Wai
(ou o Carvalho - como costumava apelidar)
por mais que as banalidades
as apresentações
e modos sociais
inventassem algumas conchas

algum sonho tava ali
talvez sendo carregado por formigas
talvez pulsando alguma vida
nas flores de plástico
nos gestos
no sorriso
em lembranças inventadas

e já que se pode caminhar pelo mesmo rio
duas vezes
se a frase às vezes não encaixa
e nessa ondulação flutuante
das coisas que se descobrem no mar
pequenos tesouros
fragmentos de antigos naufrágios
até águas de outros rios
tudo flui

estou até rindo agora
pensando:
por mais que eu tente
esse poema não vai ser tão bom
quanto estar lá
(ou quanto o poema dela)

ah! pro escambau!

quem falou que a vida se separa em poesia e em vida?
já até me falaram isso

mas eu não acreditei



quinta-feira, 17 de maio de 2012

alive

looking trough the stars
up in the great black sky
I search the meaning of life
while my guitar gently cry
some lô borges songs
that my mother used to hear
when I was inside her belly
when the stars that I saw
were her flesh and blood and tears
looking trough the mirror
I see some strange lines
inside my eyes
they look like stars
up in the great black sky
and life suddently starts to
mean something in the way she moves
I see the sound of things
like the wind in my skin
I see the sound of you
coming in visions of my mind
looking trough the night
I dream about
some lô borges songs
that I used to hear
when the world was inside my belly
nine out of ten movie stars
make my cry
I`m alive
vivainda
vivaldi
vulva
vácuo
vapor barato
vamos dançar no escuro
no fim do mundo
no futuro
fugere urbens
fugere tudo

i`m alive

quarta-feira, 9 de maio de 2012

caracol de batom vermelho

você é um caracol
de batom vermelho

se enrosca fugindo do sol
e não escuta conselho

você é um caracol
labirinto de espelho

pode se ver um só
ou milhares de medos

você é morena
do cravo e canela

nem grande nem pequena
a altura dela

parece meu sonho antigo
que eu carrego acordado

combina muito comigo
uma mistura de fado

nunca ganhou poesia
a não ser do pai poeta

só pode ser fantasia
uma estória incorreta

como pode, menina
ninguém ter te escrito até ontem

se sei que por onde caminha
caracóis seduzidos se escondem?

como pode, menina
fugir pro casco espiral

sempre que o sol aproxima
por dentro constrói temporal?

você é um caracol-mulher
de batom vermelho

dança que nem a ginger
quando inventa de frente ao espelho

esse poeminha rimado
mal-rimado que nem de criança

parece algo quebrado
ritmo vai que balança

percebe que sonho acordado
nem preciso deitar e dormir aqui

você faz meu sonho sonhado
parecer como um filme de Berkeley

você é um caracol-criança
de batom vermelho flor no cabelo também

inventa do nada uma dança
que era só um cochilo num trem

me pede um cafuné num instante
no outro não sabe o que quer

você é um caracol-viajante
se enroscando no mundo que é

num mato perdido em minas
rasteja a memória no chão

cães, piques, meninas
tudo na palma da mão

conheço as estórias completas
conheço porque inventei assim

poetas são como profetas
escrevem o começo depois do fim

não tenha medo do sol
esse é meu conselho

você é um caracol
de batom vermelho

terça-feira, 8 de maio de 2012

percebe?

você
rima
comigo

percebeu
isso?

clube
manoel
vinil
infinito?

você

até
no
sonho

ou
eu
durmo
enquanto
vivo?

acho
até
engraçado

nem
te conheço
mas
conheço

nem
pergunto
e

entendo

meio
bituca
meio
caê
meio
almodovar
meio
sei lá

trem de doido!


segunda-feira, 7 de maio de 2012

puro barato

percorro
teu corpo
palavra
escorrego
pela sala
num canto
do pescoço

esqueço
o tempo
sussurrando
vento
num fio
de cabelo
arrepiado

as mãos
assumem
o corpo
num toque
torto
enquanto
o mundo
gira
ao redor
da tua camisa
lisa
solta

espera
um pouco
o gozo
preso
solto
na ponta
da boca
morna

e morde
a carne
quente
na suave
violência
de tornar
o corpo
um só

envolve
o ar
num gesto
bruto
seiva
elaborada
com o nosso
suor

escorre
sujo
um sonho
fundo
um deus
de carne
um louco
som

e presa
na parede
como
presa
como
ventre
livre
dentro
como
a tua pele
e pêlo
ímpar

descreve
com o dorso
interroga
a curvatura
da cintura
com cintura
consentindo
em sufocar
o grito
gemido
ao dar

a cara
à tapa
a nádega
a faca
a esfera
ocular
o eclipse
lunar
a própria
terra
enterrada
em seu
gozar

espera
mais um
pouco
e eu já
rouco
arranho o
corpo
com os
dentes
enquanto
torce
a cama
o tempo
o espaço
sideral

invade
em movimento
vulcão de dentro
percorre o corpo
palavra
torto
invade o tempo
por entre as carnes
por entre as pernas
invade os mares
as primaveras
e vem de um tempo
que nem era tempo
e vem com força
invade a moça
transforma tudo
inventa um corpo
de um só corpo
inventa um som
maior que o om
inventa a espera
o esperma
fecunda a terra
inventa o verde
que não se perde
fazenda viva
inventa a vida
em forma vulva
e vem molhando
em seiva sangue sublimado
em sonho já sonhado
inventa um corpo em rima
em cima um do outro
se faz de outra
inventa ruas
por entre as pernas
e grita nua
palavras xulas
inventa a puta
se faz de muitas
inventa um jeito
se dá sem medo
entrega o seio
a minha língua
inventa rimas
e num crescendo
aumenta o ritmo
o corpo inventa
caminhos vivos
em meio a líquidos
e superfícies
descobre a pele
desperta vícios
alucinados
o olhar em branco
lençol molhado
o sol é lua
no céu nublado
o ventre uiva
a céu aberto
invade o músculo
em tempestade
inventa o corpo
e parte em arte
cada pedaço
teu corpo arde
em brasa fria
e na barriga
eu bebo e paro
avanço e bebo
o nosso oásis
até os pêlos
dos teus cabelos
invento redes
invento tardes
e deito e canso
descanso e deito
e durmo e acordo
e acordo e sonho
em tuas redes
invento o grito
do teu gemido
parece um mito
de muito tempo

...

agora dorme
agora pulsa
transborda tudo
e ri de tudo
inventa a carne rubra
até o umbigo
e vibra a nuca
em ondas livres
o corpo em pane
um tsunami
passou por dentro
agora dorme
agora pulsa
dragão mais lento
sorrindo leve
inventa um sono
inventa um corpo
agora sem corpo
agora livre
depois do ato

puro barato


segunda-feira, 23 de abril de 2012

nas pedras do arpoador

mulher sentada olhando o mar
o mar deitado olhando a mulher
a espuma dançando na pedra
a pedra sonhando com a mulher
a mulher se fazendo pedra
montanhas do rio de janeiro
lugar qualquer
o sol na linha do horizonte
não existe mas acreditamos
que ele esteve lá
porque o fogo laranja
se apaga
na espuma do mar
que contempla a pedra
a mulher e a linha do horizonte
que não existe
mas está lá
no limite das palavras
ou no infinito

mulher abraça as pernas
não vejo o rosto
o rosto é o mar
um fogo laranja
some
atrás do mar
quanto mais some esse fogo
mais claro o poema
se forma
em espumas
que não posso ver

a vida inteira eu procurei
um momento como esse
em que uma mulher se faz pedra
a pedra grita mar
e a espuma vira palavra

nunca achei
nem vou achar
e isso não me basta

e a poesia vive

domingo, 22 de abril de 2012

cafuné

deita na rede
e nem tem parede

deita a cabeça
no meu colo
e nem tem solo

deita a pele
na minha pele
cantarola michelle ma bele
com sotaque minero

deita os olhos
no espelho
batom vermelho
e nem escuta conselho
de que vai chover

deita de leve os cabelos
nas mãos que dedilham concertos belos
e vem, de leve, arrepio nos pêlos
como gatos no cio quando se tenta vê-los
pulando telhados de madrugada

deita de leve no sonho
fecha os olhos, mulher
deixa acordar a menina que quer
mais nada

só cafuné

pé-de-vento

eu sempre fui pereba
no futebol
porque meu pé
era de vento

no pique
principalmente bandeira
e na corrida
era bom

fiquei pensando hoje
como faz
para plantar
um pé de vento

soprar na terra?
abanar um vaso?
tem que ser num lugar
arejado
aberto

é um trabalho um pouco
complicado

mas nas palavras
é bem fácil até

porque elas tem oco por dentro

que nem as pessoas
e as árvores

queria escrever um poema
que nem parasse no papel
de tão ventado

mas não seria uma experiência
concretista
com umas doideras
do tipo gullar, campos e tal

seria uma coisa
que você nem ia ler

só sentir aquele vento na cara
que nem quando você coloca
a cabeça pra fora do carro

numa estrada em minas
ou em qualquer parte onde haja
verde

eu queria escrever um vento
mas isso é impossível

então a poesia ficaria melhor mesmo
se você fosse viajar agora
e colocasse a cabeça

pra fora

mise-en-abyme

mora na palavras
uma arara
que repete a paisagem
sonora

carrega dentro do bico
um caracol maluco
que regurgita poemas
vindos lá do tempo
do manoel

fica lá
comendo e recomendo
pedaços de frases
de mil anos atrás

esse caracol
leva dentro do casco
um pedacinho de vento
que vivia em estradas
no interior do brasil

na poeira desse vento
voam cinzas de avôs
cinzas de índios
e fumaças de cigarros
que talvez o fernando pessoa
fumou

nesse grão de poeira
resta um silêncio gritado
que um poeta imaginou
e escreveu
e criou asas
e voou
e que hoje mora
numa palavra

seu desenho

seu desenho
nem é no papel
seu desenho
é feito no mundo
com giz e lápis
suas sombras
estão andando
nas paredes

faz uma casa
com um olho
no telhado
faz uma nuvem
saindo da chaminé
nuvem cigana
nuvem bêbada
de guaraná
com gelo e laranja

seu desenho
brinca com as cores
o céu é verde
o mar é amarelo
as pessoas estão juntas
seu desenho
é feito com o corpo
dançando na vida

deixa para trás
rabiscos
letras desconhecidas
e procura um sorriso
nas paisagens

com tinta nas mãos
nos pés
nos seios
vai desenhando um voo
feito de sonhos
na cabeça dos monstros
dos pesadelos feitos de concreto
dos prédios
caem papéis brancos
picotados
cai um no seu decote
e se perde

seu desenho
não sei se é real
seu desenho
é imaginário
mas eu acredito
e me pinto
como eu quiser

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Nuvens bêbadas



Essa história quem me contou foi meu avô, no aniversário dele de 90 anos. Ele era um velhinho saudável da porra. Com mais saúde e força que eu. Depois que fez 90, chutou o balde legal. Ou melhor, bebeu baldes e baldes. Sei lá, cansou. Quis aproveitar e encher a cara. Em 2 anos bebeu mais do que bebem numa vida inteira. Câncer no fígado. Já tinha vivido muito também. E bebido.
Eu estava indo para o colégio, estudava no Pedro II, um dos colégios mais tradicionais do Rio. O Nelson Rodrigues que tem aquela frase dizendo que foi o maior desgosto não ter estudado lá. Imagino que aquele uniforme das meninas, bem colegial, aquela saia azul, realmente tenha enlouquecido o inconsciente do Nelson. Enfim, eu estava indo para a aula, que era de tarde, quando ele me puxou pela camisa do uniforme e falando daquele jeito dele, me levou para um pé-sujo ali perto em São Domingos. Pé-sujo mesmo, daqueles de ovo rosa. Tinha dois amigos portugueses no bar. Eram os próprios donos, um chamado criativamente de Joaquim, o outro, seu irmão João. Tinham fugido da Europa depois da segunda guerra.
Já bem bêbados, eu também, o vô começou a contar sobre sua infância e lembrou da história do Fagundes Varela, o poeta que ele mais gostava e que acreditava ser sua reencarnação. Contou que Fagundes Varela era o poeta mais bêbado do Brasil, e que foi por causa dele que começou a beber. Na verdade, por causa de uma menina: Maria Clara Lopes. Ele costumava falar o nome dividindo bem as sílabas, quase como quem saboreia cada uma delas. Ma-ri-a-Cla-ra-Lo-pes. Para tentar conquistá-la, simplesmente copiava trechos, as vezes poemas inteiros de Varela. Ficou bastante tempo na biblioteca, às vezes roubava livros do poeta, ou rasgava algumas páginas e colava nas cartas de amor para Maria.
O que meu vô sempre contava quando estava bêbado: os últimos dias da vida do poeta Fagundes Varela. Eu achava engraçada aquela obsessão. Na mesa do pé-sujo, depois que Joaquim trouxe um pequeno bolinho de chocolate, com uma mísera velinha azul, e meu vô assoprou com um sopro falhado, brilhos nos olhos, começou a contar de novo.
Fagundes andava por Niterói na época. Era já um famoso andarilho. Não como um mendigo. Trajava-se de forma até elegante, mas sem dúvida desleixada, decadente. Meu vô também tinha a mesma espécie de vaidade desleixada. A última vez em que Varela se apresentou socialmente foi num evento memorável, na casarão hoje chamado de Solar do Jambeiro. Bem pertinho daqui do bar. Era o aniversário do dono da propriedade, o diplomata dinamarquês Bertholdy. Em comum, Bertholdy e Fagundes, tinham além de conhecidos da sociedade fluminense, uma figura em especial: Rosa Fernandes. A prostituta de luxo dos grandes burgueses e antigos nobres. Curiosamente, ouvindo meu vô falar, percebi que aquilo era muito mais importante do que a aula de literatura que eu estava matando no colégio. Passamos muito rápido pelos poetas românticos. Pouco se fala sobre Fagundes Varela, o que mais me interessava, justamente por ser tão pouco falado na escola e tão amado pelo meu avô.
Varela teve um romance com Rosa, que na época era a preferida de Bertholdy. Vô, já falando alto, gostava de falar sobre como imaginava as noites de paixão entre o poeta e Rosa. Disse que lembrava da puta com quem perdeu a virgindade. Na festa no casarão de Bertholdy, no salão principal, todos dançavam sobre aquele piso bem bonito, parecendo uma espécie de jogo de gamão, e os convidados rodando numa coreografia que acentuava o caráter lúdico da coisa. Ao fundo, sentado, Bertholdy agia como um deus jogando seus dados e apostando alto.
Meu vô contava aquelas histórias, e os portugas ficavam olhando, quase que de boca aberta. Tirando a preferência por cervejas ruins, das mais baratas, admirava quase tudo no vô. Era um grande orador. Lembro que pedi uma ajuda pra ele quando me elegeram orador de turma. Acho que fizeram de sacanagem, sabiam que eu gostava muito de escrever, mas tinha certa timidez em falar em público. As aulas com ele duraram 2 fins de semana, e ele resumiu em um verbo: beber.
De súbito, vô subiu em cima da cadeira. Esbarrou numa das garrafas, quase caiu, se eu não o tivesse segurado. Foi tentando subir sem pedir ajuda, ele odiava essa história de terceira idade. Se apoiou nos meus ombros com o braço e se levantou. Os poucos que estavam no bar viraram para olhar. Então ele recitou um poema. Eu já tinha ouvido ele recitar uma vez, na verdade, quando eu estava com dúvidas sobre como conquistar a Lidiane, uma menina do colégio.
Depois que vô faleceu comecei a ter esses sonhos. A gente nunca lembra como começa um sonho. Quando vemos, já estamos no meio da história. Estava no Solar do Jambeiro, na época do Fagundes. Andava primeiro pelo jardim. Olhava para as árvores, flores e ia mentalmente identificando seus nomes. Azaléia. Camélia. Nomes de mulher. Ia para o salão principal. Eu sonhava em preto-e-branco. Por que? Estou dançando uma música que parece Ernesto Nazareth. Vejo no chão o piso decorado em vários desenhos geométricos criando uma espécie de labirinto. Lidiane está vestida como uma dama da sociedade. Parece mais velha. Há um senhor pendurado no lustre. Joga espumante nos casais que dançam. Bertholdy vem em minha direção. Seu rosto vira o do meu pai. Traz uma caixinha de madeira nas mãos. Vem um medo grande de abrir a caixinha. Acordo um pouco suado.
No enterro do vô, nem chorei. O sofrimento de meses com o câncer amortecia a gente.

Um dia conversando com o Marcelo Beauclair, professor de redação do colégio, fiquei surpreso e desacreditei quando ele apontou um erro grande de anacronismo, falando sobre o meu avô, o Fagundes, o Solar e tal. Disse que o Fagundes morreu em 1875, ao sair de uma festa, pelas bandas perto do jambeiro, sim, mas bem antes de Bertholdy residir no local. Me corrigiu também dizendo que Ernesto Nazareth também não poderia estar sendo apreciado naquelas festas da sociedade. Seria mais correto historiograficamente ouvir um Chopin. Aquilo tudo me pegou de surpresa. Fui ingênuo em acreditar no vô? Passei algum tempo remoendo isso. Ler os diários dele e fuxicar nas coisas que ele deixou ajudava para distrair. Eis que caído atrás da última gaveta da escrivaninha de madeira, encontro uma caixa. Parecia ser bem velha. Uma espécie de deja vu. Mas não lembrei do sonho nessa hora. Abri. Estava vazia. Na hora me veio um pensamento meio idiota, mas legal. Foda-se o que é verdade. Foda-se se o que o vô falou está errado, ou é invenção. Se não fosse a invenção não existiria a poesia.
Decidi levar comigo as cinzas do vô, naquela mesma caixinha de madeira. Não sabia o que fazer com aquilo, mas sabia. O jardim do Solar do Jambeiro parecia o mesmo de sempre. Por mais que a casa, hoje museu, parecesse um tanto quanto morta e mumificada; a terra, as plantas e flores, existiam e viviam ali. Perto de uma azaléia, olhei para os lados. Ainda estava sol. Os guardas estavam longe. Abrí um pequeno buraco, na terra ao lado da planta, coloquei cuidadosamente a caixa ali. Tentei pensar em alguma reza, pensamentos positivos, alguma coisa assim, mais mística. Olhei o relógio: 16h. Ah, foda-se, o vô gostava mesmo era de poesia. Lembrei de alguns versos do Varela:


“Minh'alma é como um deserto
por onde o romeiro incerto
procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
que sobre as valgas palpita
queimada por um vulcão!”


Depois dessa silenciosa cerimônia, com os olhos ainda abertos, e um pouco lacrimosos, imaginei uma festa da época antiga da casa, e meu vô lá, dançando no salão, girando com as damas da sociedade, conversando com seu amigo Fagundes, Nazareth ao piano tocava Odeon, Lidiane de saia azul do Pedro II dançava um twist, no quarto ao lado meus amigos jogavam playstation, escravos serviam a todos vestidos de terno e carregando nos pés algemas de metal, as prostitutas dançavam can-can, eu tomava absinto com cachaça, e Bertholdy ao fundo, olhando tudo como um deus olha suas criaturas, e acima da casa, o Jambeiro crescia cada vez mais, olhando aquela coreografia de corpos com olhos de árvore, e acima do Jambeiro, as nuvens olhavam aquela cena imaginária, como poetas bêbados vivendo eternamente.

domingo, 25 de março de 2012

alguma coisa acontece no meu coração

num passado, não tão além, queimarei meus cadernos, como hendrix sacrificou sua guitarra.
aproveito para me queimar também.
se você quiser, pode entrar na fogueira santa.
o que importa é renascer das cinzas de uma civilização.
construir outro tempo.
sem espaço.
dentro do agora.

Queimem os cadernos


Do meu avô pouco sei além do que ficou nos seus diários e cadernos. Não sei se metade das histórias são fictícias. Nossa última conversa foi um pouco confusa, como todas as últimas conversas. O alzhaimer já avançava. Em um devaneio, ainda com um resto de pão com requeijão no canto da boca, me perguntou: “Nando, quem sou eu?”.

A notícia veio por telefone. Complicações respiratórias. Fui até Barbacena. Aquela cidade me trazia lembranças. Andei muito de rolimã nas ladeiras. Matei alguns passarinhos. Olhei por debaixo das saias das meninas.

Em seu inventário, o relevante:
- 1 carteira de identidade: nome: Juvenal Barros. data de nascimento: 23/07/1918
- 1 passaporte.
- 1 óculos de miopia.
- 47 cadernos, entre eles diários.
- 1 poupança no Bradesco totalizando R$8.000,00.
- 1 vitrola quebrada.
- 3 discos de vinil: 1 de Cartola, 1 de Paulinho da Viola e 1 do concerto de Brandenburgo n: 5, de Bach.
- 2 malas de viagem, contendo: revistas pornográficas velhas, bilhetes de trem, mapas, canivete suíço, algumas roupas.
- 1 espingarda calibre 22.
- 1 isqueiro prateado com as iniciais gravadas – “J.B.”

A enfermeira do asilo me contou algumas estórias. Disse que meu vô estava ficando assanhado. Tinha até bolinado outras enfermeiras. Num dos cadernos, encontro: “a vida de um homem se resume a encontrar a mulher certa.”. Ele era um romântico.
Só deixou um recado para a família: “queimem os cadernos”.

Quando era menor, envolveu-se numa briga da escola, por causa de uma garota, que lhe marcou permanentemente com uma cicatriz no lábio superior esquerdo, deixando-o mais saliente. Sobre esse causo, achei anotado: “...ele era mais forte do que eu, um brutamontes. Amália depois disso aceitou passear comigo na praça.”

Tenho passado esse mês lendo as anotações dos cadernos e diários. Convivi pouco com ele. Ler essas estórias é como talvez entrar na mente dele. Suas frases curtas tinham alguma poesia. Começava a me fascinar:

Ontem vi minha mãe. Era bonita! Não lembro o nome dela. Hoje eles fizeram bolo de fubá!”. Ou: “Sonhei que estava de novo beijando Rosa, em alguma estação de trem. Era Paris?”. Os escritos, mais do fim, alternam entre o naif do alzheimer, a confusão de idéias, e momentos pungentes de extrema lucidez:

Minha família não existe pra mim. Não me interesso. Minha vitrola quebrada tem mais valor. Isso me dói mais do que a doença.”. A gente nunca sabe exatamente porque escreve. Se meu avô fez questão de pedir para que queimassem os diários, parte dessa vontade minha de remexer nessas coisas pode ser um misto de homenagem e vingança. Decidi finalmente escrever um livro. Inventar o meu avô a partir do inventário. O livro abre numa estação de trem.

sábado, 17 de março de 2012

um poeta morreu

soube que um poeta morreu. toda vez que morre um poeta nasce uma prosa. uma rosa no apartamento, ou no asfalto. em breve serei eu a morrer também. e você que está lendo (ou não) o que escrevo (ou não). assim como a morte é a certeza da vida, a poesia é a incerteza. a morte de um poeta é uma espécie de buraco negro.  suspensas as leis do universo, emanam-se do escuro infinito as leis do verso. como que cega, a noite tateia as montanhas. a cidade parece dormir. ao fundo, bem no fundo da paisagem, consigo ouvir os sonhos da cidade que dorme. uma sinfonia de lembranças, riscando o céu negro com perfumes doces. mais ao fundo, uma criança tem um pesadelo. tem medo de morrer. acorda seu pai, assustada. minha filha, tudo não passou de um pesadelo, vai dormir. o cão também dorme. sonha com pulgas e ossos. as pulgas do cão sonham com circos na china. a china está já acordada, no horário do almoço. um moço na china escreve um poema. desenha um poema com ideogramas. idéias sem peso. não há gravidade na china. e aqui está tão noite que as palavras também dormem. as palavras sonham com poetas.

terça-feira, 13 de março de 2012

Notas encontradas no futuro

fragmentos datados de 13 de julho de 2037 - arquivo pessoal


I

Por acaso, assistindo a uma entrevista num video na internet de Patch Adams, o médico-palhaço mundialmente famoso após o filme, interpretado por Robin Williams, um intenso desejo de finalmente escrever um livro tomou conta de mim. A visão da arte como medicina para a sociedade caduca e doente, compartilhada por outro mestre que admiro, o cineasta e tarólogo Alejandro Jodorowsky, parecia criar forças, ou melhor, despertá-las de um sono há muito tempo dormido.

II

Por volta dos onze anos senti que era poeta.

III

Depois de ler A Invenção de Morel, e de ter visto os filmes do Chris Marker, notadamente o La Jettee, volta aquela sensação incrível de como seria intrigante escrever uma estória com um pano de fundo de ficção científica. Seria uma maneira eficaz de engajar o leitor, para, durante a trama, tecer observações e filosofar mais profundamente, sem nenhuma culpa de talvez ser chato.

Eu sei que teria que envolver alguma coisa em relação ao espaço-tempo. Algo que criasse um ambiente surreal.

Nessa salada doida, de alguma forma eu poderia tentar conjugar:

- memórias autobiográficas da infância.
- a minha relação com meu pai.
- reflexões poéticas.
- reflexões filosóficas.
- a questão dos sonhos lúcidos.
- achar uma maneira intrigante de desenvolver cenas de sexo.

IV

Realmente, o assunto mais intrigante que experimentei na prática: sonhos lúcidos. E a experiência com ópio no jazz da praça Tiradentes na quarta-feira de cinzas... Um misto desses dois. Um ponto de partida mais eficaz seria o de um livro de contos, linkados por essa temática, ou estilo. Ou personagem. Enfim, as conexões são feitas pelo leitor. Se forem bem escritas. Algo de Twilight Zone. Um cotidiano comum de onde irrompe o inexplicável. Escrever um livro imaturo mesmo. Para perder a virgindade da prosa.

Pode começar assim: Sempre conversava com amigos sobre sonhos, e um dia, seguindo a instrução de um deles, decidi começar um diário de sonhos.

V

Essa coisa de fragmentar por um lado é praticidade e por outro é preguiça.

VI

            Assim como o Keith Johnstone fala sobre Impro, vou seguir o conselho de dizer pra mim mesmo – vou escrever um livro medíocre. Partir de clichês. Assim a gente se solta mais e não precisa ser genial. Acho que vai ser bom para a produtividade da coisa


VII

Decidi. Vai ser um livro de contos. Contos que tratam de uma mistura de psicomagia, twilight zone, poesia e palhaço. Cada conto estimulando a imaginação. Decidi também organizar a minha agenda de tarefas pessoal. Sempre reservar momentos de leitura e escrita diária. Usar menos internet. O próximo passo é me relacionar mais e melhor com as pessoas, como fala o Patch Adams.

VIII

O mote, a unidade, pode ser justamente: a transformação do mundo através da poesia, do olhar poético. Como podemos olhar diferentemente as coisas e mudar nossas vidas. Não deixa de ser um livro como de auto-ajuda, mas com um viés literário e não tão declaradamente místicos como livros de Paulo Coelho e afins.

IX

Um dos contos pode ser baseado nas tardes dentro da kombi do marcos. As aventuras, as descobertas, os pensamentos daquela época.As apreciações roqueiras. As lutas corporais. Os causos do próprio marcos. O cd do Fênix. Mas teria graça isso tudo? Como escrever isso de modo diferente do que simplesmente contar? Aliás, qual o problema de simplesmente contar? Tudo não se baseia na velha arte de contar estórias? Como nossos ancestrais, desde o início da humanidade, em volta das fogueiras?

X

Finalmente entendo o que faltava para eu ter mais gosto e vontade de escrever prosa. Ler.

XI

Penso que um mote bom seria uma espécie de diário. Uma reportagem poética. No sentido de experimentar na prática coisas e relações interessantes para escrever não sobre, mais por sobre aquilo tudo experimentado. Como fala o Castello no Ribamar. Acho uma boa idéia. O que poderiam ser essas experiências? Algo do tipo do Patch Adams? Algo do tipo drogas? Algo do tipo sexo?

XII

Numerar os capítulos dá um prazer de avançar, uma sensação de que se está andando para frente. Mas queria mesmo era experimentar o livro-jogo como aqueles da adolescência. Não conhecia Cortazar, Borges. Então para mim o legal mesmo era o livro-jogo de RPG. Você podia escolher qual caminho tomar. Cada caminho correspondia a uma página. Pode ser o caso pensar em um livro desse tipo.