segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
coisas que a gente às vezes inventa
domingo, 22 de janeiro de 2012
plano de fuga
tinha um pequeno
plano de fuga
colocar algumas coisas
na mochila da escola
e não ir para escola
e não voltar
vendo aqueles programas
de sobrevivência extrema
no descovery channel
lembro de como era
muito mais lírico
o critério para escolher
os itens de extrema necessidade:
podia ser alguns pacotes
de biscoito foffy
figurinhas de colar
um cortador de unha
(porque tinha um pequeno canivete sem corte,
mas era um canivete)
um pedaço de cadarço, como corda
duas cuecas
um short tactel para poder molhar
duas camisas
um casaco
água
caneta e um caderno
veja só
um caderno
talvez
desde esse tempo
eu já tivesse percebido
que a poesia
é um item
de extrema necessidade
para a sobrevivência
na própria selva
que somos
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
relógio escangalhado
que veio quebrado
é um relógio
que tem o chaplin
uma imagem dele
dentro das engrenagens
de uma máquina
em tempos modernos
quando eu coloquei
as pilhas nele
ele começou a andar
mas os ponteiros
esbarravam uns nos outros
e o tempo não passava
ficava emperrado
e o chaplin lá rindo
no meio das engrenagens
outro dia
quando fui olhar as horas
sem querer
sério mesmo
o relógio estava
andando prá trás!
depois eu fui entender
que o relógio servia
para não marcar o tempo
ele tinha virado
como diz o manoel
- um objeto bom pra poesia
quando as coisas escangalham
ficam muito boas para poesia
então desde então
eu deixo o relógio lá
escangalhado mesmo
na minha parede
do escritório
toda vez que eu quero
olhar as horas
ver se estou atrasado
se tem algum compromisso
se vou perder a carona
o relógio
inútil
com o chaplin rindo
me lembra que o tempo
não existe
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Rui de Paquetá
Um dia, fumando e olhando a janela, viu dona Lorena, a nova vizinha. Ela estava regando as mudas de violeta. Os dois se olharam. Lorena fechou a cortina.
Assistindo Faustão, Rui foi pegar uma cerveja na geladeira, escorregou e caiu. Com o traseiro doendo, observou um objeto brilhante envolto de poeira embaixo da geladeira.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
bola de gude
o cinema da janela existe.
não quero ir de barca, porque quero chegar.
eu ia lhe chamar, enquanto a barca não corria.
mas o coração pulou no vão central, junto com a suspensão.
alguém ronca alto, e baba.
vejo uma mulher grávida, mas não quero sair do lugar.
hoje eu to egoísta praca.
pernas brancas, pretas, amarelas.
meus deus, pra que tanta distância.
eu só queria ser e ter todas as pernas.
e caminhar todas as distâncias.
porque me chamaste sol
se sabias que o sabiá sabia assobiar?
mundo mundo pequeno mundo
cabe dentro da bola de gude do olhar
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
sábado, 1 de outubro de 2011
corvos e girassóis

ao terminar o espetáculo
uma senhora, com uma expressão confusa no rosto
me perguntou:
- o que você entendeu?
um pouco embaraçado com a situação
respondi, em tom leve:
- então, senhora, acho que é mais para
sentir.
e a senhora:
- ah, é né, é dança contemporânea...
eu poderia ter dito pra ela uma frase que o manoel de barros
sempre fala:
"poesia não é para compreender, é para incorporar."
até porque,
se a razão fosse capaz de nos fazer experimentar
o mesmo que os mistérios do sentimento, das sensações e da imaginação,
pra que a arte?
livremente inspirado na vida e obra de van gogh
esse espetáculo íntimo do dançarino e coreógrafo márcio cunha
acompanhado pela presença da também dançarina renata reinheimer
percorre pinceladas fortes
a força e beleza do gesto
o desespero a loucura a solidão
o sublime ato de criar
e destruir-se enquanto
talvez enxergamos melhor
quando não temos visão
e uma obra de arte
faz sumir o artista
no seu transe
para que o espectador
veja, sinta, ouça, toque, cure-se (como em tommy - the who)
se kurosawa faz a gente entrar em van gogh
(clique aqui para ver um trecho do filme "Sonhos")
corvos e girassóis pode fazer a gente entrar
em nosso van gogh
o movimento dos dançarinos parece querer se fixar no tempo
enquanto o espaço some
o enquanto dos dançarinos parece querer se fixar no espaço
movimento e tempo somem
o tempo dos dançarinos parece querer se movimentar no enquanto
os dançarinos somem
e é na repetição que o transe irrompe
"repetir, repetir, até ficar diferente. repetir é um dom do estilo."
manoel de barros
a começar pelo começo:
enquanto mexem, remexem, giram, tiram do lugar, colocam de volta, procuram O lugar para organizar algumas cadeiras no espaço - peter brook diria que eles estavam criando o espaço vazio, tão vital para criar-se um espetáculo propício para a imaginação e interação com o público
-
os dançarinos convidam alguns espectadores para assistirem a apresentação
dentro do palco, em algumas cadeiras de palha, cadeiras de van gogh.
já esse movimento nos diz sobre a concepção da obra
vamos entrar
e, cada cadeira e cada espectador, com sua posição na cena, e seu ângulo e ponto de vista diferente, joga a nossa imaginação para visualizar e sentir de outros pontos também
como será que ele ali está vendo? e aquela moça ali? e esse rapaz sentado na minha frente?
o que cada um vê?
fernando pessoa deveria chamar-se fernando pessoas, como disse o ferreira gullar,
já que o homem precisava ser sempre outros (todos precisamos)
"não ser, é outro ser." manoel de barros
então somos convidados a sermos outros, para assim nos vermos melhor
e nesse jogo de pontos-de-vista, nosso olhar vai sendo direcionado, pela força gigantesca de minúsculos gestos, ou até mesmo de sensações (gestos internos) ao mesmo tempo que é jogada para ver a explosão do corpo, em gestos largos
- será que a gente consegue atingir o sublime pelas coisas mais banais? (os orientais diriam que sim, e todo artista universal também)
e o repertório de movimento não chega a ser extenso, virtuoso.
com poucos elementos, assim como poucas cores em van gogh, mas cores primárias, complementares (homem e mulher, autor e obra, claro e escuro, corvos e girassóis),
rima de corpos, criação de figuras imaginárias no espaço, linhas e curvas, ritmo,
e principalmente,
gra
vi
da
de
atingimos o EU
caímos em si
ao sermos outros
em corvos e girassóis
se uma obra não mostrar o homem para o homem
não sei pra que serve
ou pra que não serve.
a poesia é um inutensílio poderoso, de tão suave.
viva marcio cunha, renata reinheimer, e toda a equipe desse belo espetáculo.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
injeção
quando eu era pequeno
que tive uma crise de asma
e tive que tomar
injeção
nas mãos
hoje, na médica
tossindo e respirando mal
ela perguntou
- você toma injeção?
eu disse que não gosto não
e contei a estória
da injeção
nas mãos
ele me receitou um xarope
lembrei do bandeira
do lance do pneumotórax:
- o que resta é ouvir um Led Zepellin III.
domingo, 25 de setembro de 2011
domingo, 18 de setembro de 2011
frango de padaria
na padaria da esquina da minha rua
tinha uma máquina de frango
aquela que fica girando
e quando a gente pedia
um frango
pro cara da padaria
ele vinha
abria
e cortava
com uma tesoura
eu lembro que eu queria ser esse cara
para poder cortar os frangos
com tesoura
domingo, 14 de agosto de 2011
falsa valsa
mas o que sinto é verdadeiro
desço de velib
na madrugada veloz
uma garrafa de vinho
canta na madrugada amarela
não sei se estou na Grécia
na Renascença
na Revolução
alguém no escuro fuma um charuto
cubano
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
minha lua
no horizonte céu sol e lua
civilização
passa o carro
passa tempo
passa vento
eu vejo a cidade passando
passeando no rodopio
dessa bicicleta
dessa fantasia
passam reis e estátuas
passam sociopatas
os cavalos das carroagens
e os cagos dos cavalos
de mil anos atrás
eu não quero saber
da história com h maiúsculo
eu só preciso continuar
passando o tempo
passando a marcha
passando pelo rio
rápido
como
Sena
o rio passa por mim
a bicicleta me pilota
a torre me escala
os reis me decoram nos livros
estou vivo no passado
com caixão e tudo
meu caixão é feito de asfalto
(não estou em paris e nem estou ouvindo caetano)
eu quero sorrir na calçada
para uma prostituta
que usa meia-calça rasgada
parece que a cidade está dormindo acordada
numa festa de formatura
há milênios atrás
passa um mendigo com as calças arregaçadas
a garrafa de vinho
tinto
a garrafa bebe o bêbado
corre! corre! corre!
eu pego velocidade
na decida do rio
perto, quase junto
o vento tenta me alcançar
consegue! eu vejo as luzes da minha imaginação
elas não me alcançam
pode ser uma chuva que vem ai
pode ser
foda-se
a lua está em cima
a lua está em mim
foda-se
eu corro mais rápido do que essa cidade gira
numa valsa sangrenta de cem anos
uma foto tira um chinês
um crepe faz um africano
com a própria massa
da civilização
C I V I L I Z A Ç Ã O !!!!!!
eu quero vender pastel na índia
comprar escravos
e fazer palácios de areia
e pisar em cima
e mijar em cima
você ouviu a civilização chamando
na estação de metro?
você ouviu o som
que as flores minuciosamente colocadas
entre uma linha e outra
você ouviu?
passa o tempo
rodopiando na minha correia de metal
a roda gira na direção da rotação da translação da terra sobre o céu
a terra é o centro do meu universo
e ela pedala na minha cabeça
carregando os sons
e o sol
nas mãos
posso encontrar poeira das estrelas
no seu sapato de duzentos anos
cheio de promessas de danças tradicionais
e de poemas românticos
posso encontrar escondido num armário de madeira
que a tataravó de algum rei esqueceu de abrir
eu pedalo
em cima dos telhados
atropelo um carrasco que tirou minha cabeça
na revolução passada
ele tem um sorriso de quem comeu um kebab
ontem de manhã
os árabes vão fazer um cruzada ao contrário
o tempo não passa
na minha bicleta
eu posso ver o meu futuro
sentado na calçada
fumando os jornais
não sei das notícias do brasil
nem quero saber
eu quero saber de civilização
anotações de viagem 1
dá para entender
é aquela saudade de casa
ou do que inventamos que era
nossa casa.
escrever me traz para casa
e me afasta dela
escrever é como viajar
para bem longe
carregando sua casa
dentro
acho que desacostumei
a escrever com caneta
digo, escrever no papel
acho que já acostumei
e acho mais prático
e rápido
escrever no computador
a vantagem do papel é escrever em qualquer lugar
a vantagem do computador é não escrever em qualquer lugar
a vantagem do lugar é não escrever em qualquer
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quando eu fizer 26 anos
vou me dedicar à pintura
como Van Gogh.
tomara que eu não corte minha orelha.
gosto dela.
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dentro de um pub inglês
calor
humano
- a bebida é fundamental para o inglês
um ser teatral por natureza
deve ser chato o frio
então se bebe
para tentar
lembrar o jeito que se é
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edimburr
os pássaros gargalham.
----------------------
o cinema é só uma continuação natural do trem
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no vondelpark (não sei escrever)
o sonho dos pássaros
é sonhar acordado
um cão late no fundo
os cães aqui só obedecem
ao dono
as moças falam
é também
mais elegante que
francês, pode parecer estranho
mas é
escuto o segredo
dos pássaros
as moças portuguesas
com certezas
sobre o mundo
ficam voando no verde
é saudável
lulu se perdeu da dona
(vamos chamar o vento)
o sol resiste
as pedras
estão
em cima
do rio
o rio está debaixo
da pedra
quando eu inverto
(manoelizo)
a tarde permanece
na aranha
acho que entendi
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amsterdã
começou
com 2 caras
e um cão
num barco
na chuva.
---------------------
escrever é algo que só se pode
fazer sozinho
mas a poesia é contato
com o mundo
de fora e de dentro
perder o dente numa briga de rua
jogar no bicho
escrever o nome de Deus em vão
escrever é algo que só se pode
fazer
e se eu fechar os olhos,
Paris ainda é um carrossel
que gira
em torno de Deus
em torno do poeta
ouvindo no fone
heavy metal
uma mulher está vestida de
tigre
um pai de família
tem um coração em chamas
tatuado na perna
aqui as coisas são longe
tudo é tão longe
a gente nem andou na rua direito
tem sempre, no mínimo,
umas quatro línguas sendo
faladas ao mesmo tempo
não sei por que
pensei nos EUA
no velho oeste
domingo, 7 de agosto de 2011
tudo
http://www.youtube.com/watch?v=Cr_fsGEW2-A
e consigo ver tudo
de novo
e consigo ficar cego
de tanto ver
e consigo ficar livre
de tanta prisão
e consigo ficar leve
de tanto peso
e consigo ficar firme
de tanto vento
e consigo ficar sóbrio
de tanto sonho
e consigo ficar jovem
de tanto velho
e consigo ficar sombra
de tanto sol
e consigo ficar apaixonado
de tanto ódio
e consigo ficar breve
de tanta pausa
e consigo ficar febril
de tanto frio
e consigo alcançar o céu
de tanta terra
e consigo encostar nas estrelas
de tanta distância
e consigo ficar cego
de tanto ver
domingo, 10 de julho de 2011
embriagado
e fica só o silêncio
do que não foi dito
e nunca será
forma
desenho
rabisco
de um sonho quase sonhado
de uma quase noite
entre mundos
restos de uma chaminé
pedaços de uma estrada
passeando nas nuvens
chuvendo nadas
lavouras arcaicas
de muito tempo
movimento de estar parado
no meio de uma estrada
no meio do nada
sinto como se a noite me engolisse
para dentro do seu dia
meus olhos fecham-se
dentro da noite neles
o estômago revira
almoços de ontem
o sol aquece o amanhã
o sol brinca com o amanhã
atrás das montanhas de meu país
parece que a cidade está dormindo
o ronco dos motores já parou
fica uma saudade de quando eu serei menino
fica uma saudade de você
dormindo em mim
domingo, 26 de junho de 2011
Onde? - prosa (resposta ao poema)
----------No tempo em que estagiei na Ancine, apenas seis meses, o que mais me intrigava era a poesia. Foi pouco tempo mas tempo suficiente para muitas coisas. O prédio da agência está localizado em frente ao Palácio Gustavo Capanema, o marco modernista por onde sempre gostei de pegar uma brisa. Drummond trabalhou lá. O Ministério da Educação nos anos Vargas era baseado ali. Gostava de ficar imaginando como seria voltar ao passado e encontrar pelas esquinas do Rio, pelos bares do centro, os poetas que tanto admiro - Drummond, Vinícius, Murilo Mendes, Manoel de Barros (sim, o "poeta do pantanal" morou muitos anos no Rio), Gullar, Bandeira... - assim como o Woody encontrou em filme os seus ídolos no "Midnight in Paris".
----------Do meu escritório burocrático, do meu cubículo, a realidade só poderia fazer sentido não fazendo nenhum sentido, ou seja, através da poesia. Foi o período mais fértil poéticamente falando. Ou período mais prolixo (onde eu produzi e incentivei a produção de mais lixo). Escrevi em torno de 40 poesias por mês. A razão ou desrazão é simples. O trabalho era organizar planilhas no Excel, um típico trabalho de estagiário. Não havia nenhum desafio, nenhuma necessidade específica, nenhum requerimento intelectual. Talvez ensinando chipanzés a mexer no Excel, se sairiam melhor que os humanos - apenas, é claro, ofertando uma banana para cada planilha consolidada. Minh`alma de poeta não poderia se contentar com esse tipo de batente. Até porque a poesia precisa ser inútil. (Se bem que, pensando agora, todo burocrata do serviço público tem grandes chances de se tornar poeta - já que seu trabalho, em grande parte, se resume a buscar formas de não-trabalho, formas de ser inútil. Vai ver uma das razões de grandes nomes da literatura nacional pertecerem a esse tipo de emprego - Drummond, Vinícius, Guimarães Rosa, João Cabral... a lista continua).
----------Até que um dia, por incrível que pareça, realmente encontrei Drummond andando pelas ruas da Cinelândia. De início achei que apenas um sósia. Mas não. Era ele mesmo. O poeta por excelência. Aquele que a gente estuda no ensino fundamental e médio. O mundo mundo vasto mundo. O e agora josé. Drummond andava como quem procurava algo. Sem saber o que perguntar, como abordá-lo, apenas cutuquei seu ombro esquerdo, por sinal ossudo como conhecia em fotografias. Ele virou atordoado. Era ele mesmo. Perguntei se ele gostaria de tomar um chopp e conversar sobre poesia. Para minha surpresa, não só aceitou como mostrou-se animado para a conversa. Ou para o chopp. Eu disse que pagaria.
----------Foi então que todos os dias, eu encontrava algum poeta. Andando pelas ruas da Cinelândia, como o Drummond. E em cada encontro conversava sobre poesia, sobre o processo de cada poema, sobre o que inspira, o que é importante para o poeta... Eram conversas deliciosas. Aprendi muito nesse tempo. Ir para o trabalho já não era tão maçante, porque eu sabia que no fim do expediente, encontraria um poeta, tomaria um chopp com ele, e dividiria estórias, poemas, causos, coisa que sempre sonhei.
----------Vinícius era um grande parceiro. Fazia questão de pagar os chopps. Que eu tomava, já ele admirava um bom scotch. Fomos ao puteiro juntos. Nunca me esquecerei. Uma mulata, até bem bonita, sentou-se no colo do poeta. Cantou uma canção, supondo ser de Vinícius. Ele riu, e fingiu que era mesmo dele. Um verdadeiro poeta. Na saída, ele pegou na minha mão e disse: o melhor remédio para a dor é o whisky. o segundo melhor é uma mulher. o problema é misturar os dois. a dor fica maior.
----------Já com o Manoel foi diferente. A gente costumava pregar peças nos outros poetas. Coisa de traquinagem mesmo, criancice. Ele era um fanfarrão, mas muito tímido. Numa vez pusemos tachinhas na cadeira do João Cabral. Dizem que depois ele escreveu sobre o lance da palavra pedra. O Manoel gostava mesmo de brincar. Mas tímido que era, precisava de alguém como eu para concretizar o que imaginava, as artemanhas. Ficava olhando os cantos sujos da parede, atrás de lixos e conversa com mendigos e bêbados da rua. Gostava muito do Sêo Tonho - um bêbado que morava ali perto do Capanema. Costumava pagar uma pinga para ele, depois do expediente. Uma vez o poeta me disse: o Tonho é fazedor de mentiras. gosta de inventar coisas com o lixo para poder ser poeta. o Tonho é capaz de criar um automóvel a partir de uma lata. Ele até já se jogou na frente do bonde só para teatro. Ser artista é esse ato suicida.
----------Foram tardes e noites incríveis. Grande parte do que escrevo hoje é só de memória daquele tempo. Outro dia fui na Biblioteca Euclides da Cunha (BEC - que fica no Capanema) e achei um pequeno bilhete dentro de um livro bem velho do Drummond:
- "Pagar o chopp que devo para o Taiyo."
----------O poeta é um ser de princípios, po.
outros pontos
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Pessoas - ou argumento para a descoberta da pessoa que não me é por ser-me
o modo como se dá a sucessão do Dalai-Lama:
uma comitiva de monges
carregando alguns objetos pessoais
do antigo sacerdote
juntamente com outros objetos semelhantes porém
sem terem pertencido ao Dalai,
óculos, túnica, lápis...
3 de cada.
os monges seguem uma carta-testamento
indicando através de uma charada
o local possível da reencarnação do mestre,
onde lá estará uma criança
um menino
que escolherá corretamente os seus antigos objetos
espalhados com os outros
de nenhum valor.
ele saberá, por instinto, por intuição.
ele reconhecerá."
- escritos achados numa ostra (1888)
foi assim, numa livraria do rio de janeiro
que fui-me saber o sábio que não era
ao achar que sabia de tudo
sendo eu apenas um garoto de onze anos
com nenhuma vivência mais emocionante
e por isso mesmo, com toda a experiência do mundo
imaginada.
foi uma imagem?
foi alguma palavra?
lembro apenas de pegar o livreto com as mãos
e reconhecer o objeto
como sendo meu
enquanto eu não me era.
"Fernando Pessoa - Poesias" - um pocket book.
na capa, uma caricatura, de um homem de óculos
com o rosto magro como o meu
com o rosto que seria meu daqui há 30 anos
e que ainda já deixou de será
pois fiz operação: não sou mais míope nos olhos
(sou n`alma e na poesia - enxergar só de perto)
reconheci as palavras como se fossem minhas
escritas naquele futuro que já passou.
porque diabos um moleque de onze anos se interessaria por um texto daquele?
foi o que? as frases? a falta de sentido?
algo sobre o mar? sobre o fingir da poesia?
a poesia em mim começou tentando fazer falar um fernando pessoa
e talvez tenha funcionado justamente por eu ainda não me ser
(como continuo não me sendo)
(não quer dizer que minha poesia funcione - a não ser para não-funcionar, que é sua função básica)
(não quer dizer também que a poesia é minha)
desconhecer-me passou a ser um hobbie que ocupava as aulas de matemática.
ainda hoje reconheço fórmulas de báscara pelo poema que estava escrevendo
enquanto o professor nos fazia decorá-las.
já é madrugada, meus olhos cansados não querem fechar o poema
o poema está nos meus olhos,
mas queria que estivesse nos ouvidos
ele segura com força minha pálpebra
e grita seu esforço de dizer alguma coisa não dizendo nada
gritando silêncios com uma força descomunal
já é quase outro dia
e ainda pergunto
por que dentre todos os livros, revistas, quadrinhos,
por que diabos fui pedir para minha mãe comprar
"Fernando Pessoa - Poesias"?
por que me fizeste conhecer esse tipo de incapacidade
crônica de expressar o tempo?
se sabias que não era Tu, sendo eu mesmo nem eu?
se sabias que eu seria Tu?
antes, na adolescência, era mais fácil simplesmente sentir
o abandono das coisas, pessoas, a solidão de perceber as mudanças
a solidão de perceber.
antes era mais fácil chorar páginas dos óculos.
antes eu dizia ser eu mesmo Álvaro de Campos, Caeiro, quando quisesse.
era só ser.
hoje é preciso não-ser.
o que muda um pouco a gravidade da situação.
é preciso inventar um abismo dentro de mim
no lugar do abismo que já não existe
e acreditar nele
e ter medo ao se jogar
e se jogar
e não cair
e não cair.
seriam essas vozes que me vem perto do ouvido
alguma sombra esquecida
algum segredo
que não cheguei a contar?
sinto sua presença agora
sinto um arrepio na costela
que percorre a coluna, a espinha e me deixa o couro cabeludo elétrico.
é você?
são vocês?
sou eu?
somos ninguém?
pego o metro lendo sobre você
e acabo lendo poemas meus e a minha estória de vida.
foi esse o teu segredo?
ser todos
sendo ninguém?
é essa a coisa da poesia?
fazer ser o que não é
não-sendo o que se é?
hoje, ontem, sei lá
seria apenas uma data
mas na tua astrologia
de extrema importância
é o início de um poema
que você fez questão de destruir - sua vida -
para ver o nada que na realidade era
como as coisas jogadas fora
que o Manoel separa com as palavras.
ontem admiti que você tinha mais importância para mim
do que o Manoel. e nem foi duro ou doloroso dizer isso.
eu sou mais importante para mim do que Manoel.
sendo eu você e você nada. sou-me nada, mas não admito isso.
não gosto dessa estória de niilismo, de botar para baixo, melancolia negativa.
acredito numa melancolia positiva.
o problema é esse.
sinto que já sou outro.
não sou mais o Pessoa que era. ainda bem.
seria mais fácil simplesmente desacreditar de tudo
e cometer o suicídio, alegando a incapacidade de viver e a falta de sentido das coisas.
seria pós-moderno, ou sei lá!
mas eu não sou pós-moderno - não entendo nem os românticos, não entendo nem os clássicos,
não entendo as pinturas rupestres!
se tudo o que a civilização construiu desmoronasse agora
eu gostaria de estar lá
chutando os escombros
cantando e dançando
descobrindo de novo
como fazer o fogo.
atribuindo mitos e fazendo sexo.
seria mais fácil colocar para baixo
mas eu sou outros, de outros tempos, de nenhum tempo.
tenho esperança na poesia.
não preciso do álcool, do absynto, da cocaína, do ópio...
não precisamos mais disso...
o Manoel de Barros é a maconha da minha geração.
ouviu? (falo comigo no espelho, comigo, Fernando Pessoa, me escutas?)
já não sinto o frio na barriga como morte.
sinto como vida.
sinto, logo existo.
amo, logo existo.
poesio, logo...
não há lógica na poesia
não há espaço cartesiano, capacidade de definir algo,
poesia não é tradução de sentimento
é impossível traduzir um sentimento em palavras
é invenção
poesio, invento um existir...
para que?
"há metafísica bastante em não pensar em nada"?
preciso tocar o céu com a mão suja de poemas.
só assim poderei enxergar o mundo limpo.
reconheço nessas palavras o ser que escrevi.
já não consigo ouvir o porvir o orvalho
já não consigo escrever
mais
nada
quinta-feira, 26 de maio de 2011
estranho
você primeiro não vê.
então tenta relatar o que você não está vendo.
e nem consegue!
a poesia talvez seja o lugar
onde o êxito vem
em não alcançá-lo.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
ainda tenho coisas para dizer
se cortar é apenas um detalhe, vira pintura imaginária dentro da minha caverna
sou o que fiz até agora e o que poderei fazer um dia
mas sou mesmo apenas o que sou agora
isso é pertubador
tudo o que fiz na vida
já não existe mais
a não ser que eu invente
a sua existência
lembrando
lembrar seria viver agora
uma invenção do que aconteceu?
assim como costumo lembrar
de tudo o que poderei fazer
das mil e uma faces que terei
de todas as minhas vidas futuras
se a vida bastasse
a poesia faria sentido
e não faria
delírio
convite da chuva
a noite convida a entrada para o mundo das imagens
e o homem pisa em seu rosto como se negasse a chuva e o frio
algumas pipocas molhadas alimentam pombos
ou alguns pombos alimentam as poças?
seria o centro do rio um rio sem centro?
perdido em pensamentos sombrios, o homem esbarra num cão
não
era um homem
no chão
enrolado com um plástico preto
em posição fetal
emitindo um latido molhado pela chuva
um cigarro fuma um magro de olhos esbugalhados
e as cinzas do prédio se confudem com a fumaça que os carros
respiram
a noite convida a entrada daquele mundo de imagens
algum passante deixa cair uma moeda de vinte e cinco centavos
um celular toca, é a mulher, hoje ela vai chegar mais tarde do trabalho
escorrega pelas fachadas dos prédios
um líquido escuro
e os bueiros bebem-no como cerveja importada
deixando bigodes de espuma
no vão entre ruas
a chuva aperta e começa a machucar um pouco o couro cabeludo
arranhando a paisagem como se limpasse o asfalto da pele
um táxi freia em cima da linha de pedestres
poderia ter atropelado alguém
poderia ter sido eu
mas não, hoje é o meu dia, minha noite
disse a imagem na poça no chão.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
camera obscura e poesia

assim como a camera obscura, mecanismo interessante de tão banal,
a poesia trata não de imitar a natureza como ela é, e sim,
de invertê-la.
esse pensamento pode parecer simples, e é!
por isso a gente pode ficar pensando bastante sobre ele.
(estou plagiando meu mestre José Carlos Monteiro, mas tudo bem)
então, quando for escrever seu poema, lembre-se de inverter as imagens.
enxergar tanto uma coisa até sê-la.
(já falou o Manoel de Barros)
olhar tanto para uma coisa até não ser.
(já falou o Pessoa)
o processo é bem simples. é preciso ser objetivo. ter uma objetiva (você) e uma camera
obscura (o lugar onde o poema aparecerá). o que vai aparecer é a natureza invertida.
(ou seja, poema)
invertida: no sentido de voltar para dentro. meditação.
domingo, 1 de maio de 2011
a dama e o vagabundo
e eu o vagabundo
ela, caravana
dentro do meu mundo
ela só fascina
e eu sou um problema
eu só tenho a rima
pra fazer poema
ela tem cabelos
cacheados
deslizando pela face
pequenos tubos
onde ensaio
a experiência de amar
ela pensa
que a vida é ao acaso
como um jogo de dados
que alguém vai jogar
costuma ler sobre tudo
e se entrega às palavras
como quem vai no mar
esconde um segredo profundo
mas tão lá no fundo
que nem sabe onde está
gosta das coisas mais simples
que um vagabundo
pode complicar
viaja com os olhos no escuro
olhando para dentro
do globo ocular
percorre com as mãos o futuro
num gesto suave
fazendo ninar
se olha no espelho e não enxerga
a beleza do traços
de filme noir
precisa dizer todo o dia
para alguém da família
o lugar onde está
é a pequena do ninho
e sem um carinho
não pode ficar
dorme abraçada no frio
e acorda no cio
querendo acasalar
como uma gata de raça
se cobre e se enlaça
e só falta miar
merece todas as estrelas
e todos os poemas
que lua inspirar
mas essa dama foi logo
gostar de um vagabundo
seja o que for!
pois essa dama escreve
em linhas bem tortas
uma estória de amor
terça-feira, 26 de abril de 2011
carona
e um poema sem nexo desce pelas paredes
atinge um ponto crucial
debaixo do travesseiro
e investiga as camadas vitais por dentro da nuca
lugares nunca dantes notados
formas-pensamento em rodopio
um cavalo de gelo
chove lá fora
dentro do avesso
e um poema sem pressa
pede passagem
empurra as memórias como lâminas
de um barbeador aleatório
cortando fios do passado
e eu esqueço
de onde irei para onde fui e quando sou
um jardim de ouro
outro tempo
dá até para sentir a batida
de limão
fazendo efeitos
sonoros
na minha retina
(ela é feita das viagens por onde não visitei)
pode pedir carona
terça-feira, 12 de abril de 2011
pontos importantes que, antes de mais nada, é preciso falar aqui já que estamos tratando de poesia contemporânea
segunda-feira, 11 de abril de 2011
longe, longe, longe
terça-feira, 5 de abril de 2011
para um amigo
segunda-feira, 28 de março de 2011
as funções do silêncio
segunda-feira, 21 de março de 2011
quarta-feira, 16 de março de 2011
fotografia que estourou e só posso ver a mim mesmo
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
desperto
lista
polisnização
sábado, 19 de fevereiro de 2011
era uma vez um homem que se apaixonou pela coerência
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
era uma vez um homem que se apaixonou
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
domingo, 2 de janeiro de 2011
trecho de uma conversa
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
canto
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
papel encontrado no chão de uma rua imaginária
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
Sonho Lúcido
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Onironauta - 1
Sonho do dia 22 de novembro de 2010.
Na estrada SP-RJ. No ônibus.
O sonho era um filme.
Tinha voz off narrando.
Como se fosse um diretor, um narrador.
As partes iniciais eu lembro pouco.
Sinto como se 2 cenas tivessem sido desenvolvidas, algo como um barco a vapor, mas logo depois o narrador (eu) disse que não era esse o filme.
Estou num trem ou ônibus. Uma mistura dos dois.
Como se fosse um ônibus bem longo. Pessoas dentro.
Um cara com terno está olhando aquele quadrado de ventilação, parece que tem uma mulher de vestido lá. Ela parece que recita um texto teatral.
Pergunto para um dos comissários de bordo: o que é aquilo?
Ele responde que depois eu vou entender, que eles estão ensaiando.
Sinto como se eles fossem de uma cia de teatro que faz teatro em lugares públicos.
(pensando bem, isso tem a ver com o Peter Brook que eu tava foleando)
Um dos comissários era o Romério, meu antigo inspetor da escola.
Ele estava distribuindo cobertores e explicando que era pelo EFEITO .... não lembro o nome do efeito, mas era semelhante ao filme A ORIGEM.
Um pequeno fone de ouvido, localizado no apoio do assento, quando colocado, você começava a ouvir o sonho e entrava nele. Comecei a entender o porque do cobertor. Vi exemplos de outras pessoas, sentindo frio, e como num filme, entrei na subjetividade delas e vi que no sonho estava nevando.
Acho que coloquei o fone.
Uma rua, semelhante a da capa do disco Wish You Were Here do Pink Floyd, uma pessoa vestida com o corpo de um pássaro (mas a carne do pássaro estava assada, estava como se fosse para comer e os olhos piscavam, os olhos tinham vivacidade) e no chão ele ia interagindo com uma outra pessoa vestida de pássaro.
O mais impressionante é que tocava uma musica, com letra em português e violão dedilhado:
“tua pele.......
tua .....
manoel de barros...” a letra eu não lembro, mas era bem elaborado...
o pássaro então bica a cabeça do outro pássaro no chão e arranca-a desvendando uma cabeça (que era a do meu personagem no sonho) mas a cabeça estava virada ao contrario e sorria...
percebi que estava num sonho, a musica continuava em fade, vi de olhos fechados o ônibus que estava, com a mesma textura granulada do sonho/filme e abri os olhos, com a musica rolando ainda e sumindo em fade!!!!