segunda-feira, 12 de abril de 2010

a agenda

Numa papelaria familiar. O rapaz chega e vai direto para a balconista.

- Pois não?
- Oi, por favor, eu gostaria de uma agenda.
- Ah sim, temos esses modelos aqui.
- Não, eu quero uma agenda de 94.
- 94?
- Sim, eu preciso de uma agenda de 94.
- Mas estamos em 2010, senhor.
- Eu sei disso. Mas isso não muda nada.
- Não estou entendendo.
- Foi em 94. Parece que foi ontem.
- Senhor, eu vou pedir que o senhor se retire.
- Eu sei que você tem ai no estoque! Não é possível!
- Segurança!

O rapaz desfere um soco no rosto da moça, que cai atrás do balcão e começa a chorar alto.
Ele pula o balcão e sobe a pequena escada que leva para o estoque, na sobreloja.
Ao ver o segurança que fazia ronda na rua subir com velocidade a escada de madeira, o rapaz a empurra, fazendo-o cair em cima da balconista que estava a chorar.

As caixas com cadernos, lápis, cartolinas, estavam todas espalhadas.
O rapaz avista uma seção com agendas. Abre um sorriso. Para seu desespero, a única coisa que vê são variações coloridas da agenda de 2010, e umas 5 que sobraram do ano passado.

Ele senta-se no canto do cômodo. Encostado na parede, abaixa a cabeça. Retira do bolso interno do paletó uma fotografia de uma moça.

- Eu sei que você não vai me perdoar. Mas eu não consegui. Não consegui.

15 dias depois, de volta a seu quarto-e-sala, após uma moça ter pago a fiança e liberado o rapaz, ele, deitado na cama, sonhando, revira-se, e começa a gritar.

Uma moça, deitada ao seu lado, o acorda e o consola.
Ele levanta e pega uma pílula. Engole fazendo barulho.

- Como a gente pode ter saudade até das coisas que nos chateavam...
- Querida, desculpe.
- Não seja bobo. Isso não foi uma crítica. Eu já me acostumei com seus pesadelos.
- Eu não. Tem coisas que a gente não se acostuma.
- Vem dormir.
- Ok.

Ao lado da cama, na mesa de cabeceira, ela estica as mãos em direção a luminária. Em cima da mesa, uma agenda, sem capa, parece que feita caseiramente, marcando algum dia de 94.

Movimentos do escuro.
Sons surdos.
Vultos imperceptíveis.

Era a primeira noite depois do coma.


Um comentário:

  1. esse texto tá uma merda
    tem que ser re-re-re-reescrito
    talvez dê algum caldo

    ResponderExcluir