sábado, 2 de junho de 2012

a boca da cama


o ventilador
na boca da cama
nem engana
o calor
ela me olha
na cama
na boca de
uma mulher
a cara
o cabelo amassado
não enganam
que ela amou
ontem
o sol
na pele de lençol
altura da bunda
também deita
nela
eu mais desejo
que escrevo
estrelas no lençol
ela tampa a boca
com uma estrela
lá fora a obra
bate
aqui é só
pulsação
parece outra
cidade
parece
coração

perdida em sono
na boca do dia
me perco no corpo
nas curvas
desse bicho solto
largado
lagarto
na cama
espalhado no tempo
de uma sexta-feira
infinita

de leve
ainda dormindo
esboça um sorriso
vindo do sonho
o lençol respira
num ciclo
movendo estrelas
em pleno dia

na boca da cama
galáxias da cama
esparramado universo
fabricando verso
numa brincadeira
ainda dormindo
esboça um sorriso
é quase um mantra
de sonhos lindos
e sem pijama
só de calcinha
invade a retina míope
de um poeta

o meu desejo
na boca da tua pele
se faz primeiro
impulso
instinto
depois tela
depois palavra
depois mentira
depois invenção
depois verdade
depois mito
mais ou menos
nessa desordem
na boca do sentido
vem um leve grito
do seu gemido
mesmo ainda dormindo
escuto os sons
da madrugada
me vem idéias
loucas
nem tão loucas
de escrever-te
comigo mesmo
em tua pele
essa poesia
ensaiamos faz tempo

o pé descoberto
pra fora do lençol
uma parte do ombro
uma do joelho
atrás dos cabelos
e as mãos em pose
(um quadro cubista?)
água não se recorta
só flui
e o lençol

na boca do corpo
se esparrama
como rio de janeiro
em ínicio de junho
paredes abacate
a cama branca
travesseiro tropical
lençol branco
de estrelas
e um corpo
chocolate ao leite
doce
(com alguma pimenta, brasileira)
um corpo que se derrete
na boca de um poeta

eu mais desejo
que escrevo

quarta-feira, 30 de maio de 2012

corpofala

debaixo da pele
um outro tipo de pele
debaixo da carne
um outro tipo de carne
por entre o sangue
um outro tipo de sangue
por entre os fluidos
um outro tipo de fluido
por entre as energias
um outro tipo de energia
há algo além
e além
e além
nesse abismo
que somos
que estamos
que seremos agora

o corpo procura
a mente
procura
a consciência
sabe
sente

debaixo da mente
por entre a mente
somente
resta
nada

semente

aquele vazio
do sonho lúcido
angustiante
incrível

ainda sou fraco demais pra tanta liberdade

preciso de bases de pedra
como aquela circular, mesmo que flutue no abismo
está lá
é sólida
de pedras

ainda mais
ainda mais e mais profundo
imagens se formam
desaparecem
sons veem
e vão
não em vão
vulcões
de imagens-sons
no centro
vazio
da criação

não são palavras

palavras são depois
e o depois não existe

no limite das palavras
onde o som encontra o sentido
ou vício ou verso
o universo respira uma dança
por entre as costelas galácticas
por entre os sistemas solares
no escuro abismo infinito de estrelas

no limite das palavras
e para além delas
ainda há
ainda resta
ainda sobra
e não está no espaço
nem no tempo

nessa poesia maior menor inexistente
estamos nós
dançando em círculos
inventando órbitas
no globo ocular
para enxergar a valsa
que a alma dança no mundo invisível

de braços abertos
(eles vão até onde o universo vai)
de olhos abertos
(eles vão até onde o universo vai)
o horizonte em mim se faz abraço
se faz embalo
e deito suavemente em meu próprio olhar

durmo
sonho
vivo
não sei identificar
o que é sonho
e o que não é
e nem importa mais

so(u)(l)





domingo, 27 de maio de 2012

estromatólitos

na orla
brinquedos de luz
invertem o céu
o mar
se funde ao céu
logo ali
yoga
naquele escuro

um homem de mochila
enfrenta o mar
de pé
numa pedra

vim para as pedras
não para escrever
mas para ser escrito
por elas

poderia ficar horas
só olhando o jeito
que o mar bate na pedra
e cria espumas e sons
(de alguma forma isso me lembra nós dois nus)

vim para perto do mar
para entender suas origens

estromatólitos são seres de fontes
do tempo que quase não tinha tempo
(mas no filme parecia uma pedra de gelatina)

quanto mais olho o mar
menos me sou
e a poesia
fica sendo aquela coisa
como colocar máscaras
e viver em transe

moça
máscara
meu olhar
mundo
medo
espuma do mar
mulher
máscara
duna solar
planeta sade
javali selvagem
na lama
(essa foi djavan ein?)

e olha que eu nem precisei
inventar mitologias:
está tudo aí

as poses e cia.
poesia
índia do mato
ralando mandioca
os cabelos
o encontro do mar com o céu
de noite
os olhos
duas luas minguantes
em eclipse prismático
de algum lugar distante
os quadris
montanhas do rio de janeiro
a boca
fruta tropical
de um sábado-feira
(mulher bonita não paga e também leva!)
as coxas
canoas de árvores fortes
subindo seu rio
no delta do Nilo
no encontro das pernas
um porto seguro?
bahia?
vulcão em vulva
víbora
vício
ofereço em sacrifício
fluxo e precipício
black magic woman
making the devil out of me

o manoel chamaria de caracol de batom vermelho
o bandeira chamaria de porquinho-da-índia
o vinícius de morena
o caymmi de morena rosa
o caê de coisa linda
djavan de galáxia negra
o lô de ela
o drummond de pernas pretas
o murilo de visões do mar
o rimbaud de dérèglement de tous le senses
o carvalho de in the mood
o augusto dos anjos de estromatólito moreno
bilac de ourivesaria inca
bituca de o que será
jorjamado de gabriela
guimarães de diabo

cores, nomes
nomes
cinema
transcendental
biológico
sem lógica nenhuma
cores
sons
noite, dia
fome
força
fundo
cinema mudo
cores, nomes
mito

quinta-feira, 24 de maio de 2012

p.o.v

ol
ol
al

se você inclinar a cabeça pro lado esquerdo
vai ver 3 caracóis subindo a parede


sábado, 19 de maio de 2012

flui

ela me fez entender heráclito
numa mesa de restaurante a quilo
que nem era vegetariano
com flores de plástico
chão de ardósia
2 formigas no chão

no rádio tocava
garotos não resistem aos seus mistérios
e you're beautiful
belas sugestões!

não quis mostrar
o caderno, o diário,
mas consegui ler
assim de relance
algumas palavras como
silêncio, suzana, etc...

nesse pacto secreto
como aqueles de infância
sobre coisas muito banais
mas secretas
o trato era escrever sobre o almoço
e ela fez um poema
muito melhor

não devia ter lido antes...

o desafio era estar
ser
ao mesmo tempo sem deixar
de poesiar
como se faz
protegido pelas conchas
da escrita

e assim
por mais que véus e enfeites de plástico
cobrissem um pouco o espaço
como em filmes de Wong Kar-Wai
(ou o Carvalho - como costumava apelidar)
por mais que as banalidades
as apresentações
e modos sociais
inventassem algumas conchas

algum sonho tava ali
talvez sendo carregado por formigas
talvez pulsando alguma vida
nas flores de plástico
nos gestos
no sorriso
em lembranças inventadas

e já que se pode caminhar pelo mesmo rio
duas vezes
se a frase às vezes não encaixa
e nessa ondulação flutuante
das coisas que se descobrem no mar
pequenos tesouros
fragmentos de antigos naufrágios
até águas de outros rios
tudo flui

estou até rindo agora
pensando:
por mais que eu tente
esse poema não vai ser tão bom
quanto estar lá
(ou quanto o poema dela)

ah! pro escambau!

quem falou que a vida se separa em poesia e em vida?
já até me falaram isso

mas eu não acreditei