quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

canto

caminho por uma rua deserta e para minha surpresa encontro um homem.
não há absolutamente nada ao nosso redor. nem neblina, nem escuridão.
esse homem me acena e chego mais perto. prazer, me chamo eric satie.
eu conheço você, gosto muito de suas músicas. obrigado. quero te mostrar
a minha mais nova composição. então ele abriu os braços e um piano de cauda
apareceu na sua frente, e ele começou a tocar uma melodia distante. a melodia
de fato estava distante, como que se não estivesse saindo desse piano, e sim de
algum lugar bem distante. tanto que havia uma dessincronia entre o gesto dele
e o som. foi quando a melodia me levou, entrando debaixo dos meus pés, para
longe dali. era um campo florido, mas as flores eram cabeças de pessoas com
kokares indígenas de penas coloridas. elas, como girassóis, sorriam em direção
aos raios solares. quando cheguei no lugar, carregado pela melodia, as cabeças
começaram a cantá-la e fiquei preso, sem conseguir me mexer. dessa vez, a melodia
me circundava e girava sobre meu corpo, criando um campo de força que, como
uma corda invisível, me mumificava naquela metáfora. fui enterrado junto das cabeças.
aos poucos sinto os pequenos insetos daquela terra roxa se alimentando de meu
corpo melódico. vou me dissolvendo em notas musicais que penetram a lama.
o que sobra é minha cabeça, agora ornada em flor. canto

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

papel encontrado no chão de uma rua imaginária

não se pode entrar no mesmo rio duas vezes
não se pode entrar no mesmo rio de janeiro
não se poda as entranhas do riso
não se pode entrar no mesmo siso
não se pode
si
perder
de si

então escrevo essa carta
direcionada para o passado
enquanto a memória do futuro
nos lembra do que estamos vivendo agora

nada permanece
mas como seria
poder lembrar de tudo
se os poderes nos fazem amnésia
e a cada dia somos mais esquecidos

escrevo essa carta para me lembrar
de que alguém escreveu essa carta

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

lá fora o sol está tão forte que até acho que é o sol
(e não o que eu acho que é o sol)

as árvores com suas folhas de verdes de diferentes cores
parecem explodir de tanto verde

pingam gotas do ar-condicionado do vizinho de cima
na beira da minha janela
(ou seria da beira da minha visão?)

o tempo está abafado
uma estufa de cidade

a cidade quase não respira
está de boca aberta na paisagem

seria interessante notar que essas ilusões
me enclausuram no calor de segunda-feira
mesmo que o tempo não exista

talvez o calor seja essa mania de sentir que o eu existe
e seja toda a energia desperdiçada nessa tarefa árdua
de existir o que não-existe

percorro livros
percorro ruas
as pessoas caminham segurando pastas, mochilas e pesadelos.
carregam correntes entre eles mesmos
pesadas
imperceptíveis

e os laços mais sutis se perdem
na confusão dos sinais

além do bem e do mal
e além da poesia
poderemos esperar um pouco mais esse ódio?

espremer os cravos da nossa face mental
e enxergar as impurezas do branco?

na sala alguém vê videoshow
um passarinho canta lá fora
vejo mosquitos, ouço crianças aqui embaixo
sinto calor

domingo, 5 de dezembro de 2010

Sonho Lúcido

acordar para as possibilidades do sonho.
dar um passo além no vazio.
perder o medo de não-ser.
entregar-se ao nada.

acordar no sonho.
perceber o mundo a sua volta
que está dentro.
entrar para dentro desse espaço que é você.
que você é.
que você não existe.

acordar para as páginas que caem dos olhos,
descer e subir escadas
elevadores

rostos antigos tão familiares agora.
lugares conhecidos pelo desconhecido.
estar fora do corpo
que não é você.

estar no universo que é você.
estar consciente no sonho.
questionar a realidade e aumentar a lucidez.

caminhar nos abismos.
enfrentar os monstros.
cortar atalhos.
encontrar pedras no caminho.
perceber.

ser sem pressa.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Onironauta - 1

Sonho do dia 22 de novembro de 2010.

Na estrada SP-RJ. No ônibus.

O sonho era um filme.

Tinha voz off narrando.

Como se fosse um diretor, um narrador.

As partes iniciais eu lembro pouco.

Sinto como se 2 cenas tivessem sido desenvolvidas, algo como um barco a vapor, mas logo depois o narrador (eu) disse que não era esse o filme.

Estou num trem ou ônibus. Uma mistura dos dois.

Como se fosse um ônibus bem longo. Pessoas dentro.

Um cara com terno está olhando aquele quadrado de ventilação, parece que tem uma mulher de vestido lá. Ela parece que recita um texto teatral.

Pergunto para um dos comissários de bordo: o que é aquilo?

Ele responde que depois eu vou entender, que eles estão ensaiando.

Sinto como se eles fossem de uma cia de teatro que faz teatro em lugares públicos.

(pensando bem, isso tem a ver com o Peter Brook que eu tava foleando)

Um dos comissários era o Romério, meu antigo inspetor da escola.

Ele estava distribuindo cobertores e explicando que era pelo EFEITO .... não lembro o nome do efeito, mas era semelhante ao filme A ORIGEM.

Um pequeno fone de ouvido, localizado no apoio do assento, quando colocado, você começava a ouvir o sonho e entrava nele. Comecei a entender o porque do cobertor. Vi exemplos de outras pessoas, sentindo frio, e como num filme, entrei na subjetividade delas e vi que no sonho estava nevando.

Acho que coloquei o fone.

Uma rua, semelhante a da capa do disco Wish You Were Here do Pink Floyd, uma pessoa vestida com o corpo de um pássaro (mas a carne do pássaro estava assada, estava como se fosse para comer e os olhos piscavam, os olhos tinham vivacidade) e no chão ele ia interagindo com uma outra pessoa vestida de pássaro.

O mais impressionante é que tocava uma musica, com letra em português e violão dedilhado:

“tua pele.......

tua .....

manoel de barros...” a letra eu não lembro, mas era bem elaborado...

o pássaro então bica a cabeça do outro pássaro no chão e arranca-a desvendando uma cabeça (que era a do meu personagem no sonho) mas a cabeça estava virada ao contrario e sorria...

percebi que estava num sonho, a musica continuava em fade, vi de olhos fechados o ônibus que estava, com a mesma textura granulada do sonho/filme e abri os olhos, com a musica rolando ainda e sumindo em fade!!!!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

escribir

fecho meus olhos - e ainda continuo de olhos abertos
mas continuo escrevendo - a escrita é parte do olhar
e continuo vendo - minh`alma está a venda
mas com ojos libres - cuba libre

una chica está sentada - yo soy a chica
espera su madre e su padre - yo soy la madre e lo padre

yo espero que dios
apareçå em mi poema

vou escrever até que deus apareça no meu poema

quando chegar ao ponto
de atravessar as paredes
e cortar o tempo
com os dentes

continuarei a escrever
até que deus apareçå no meu poema

no tengo nada

sento-me num banco
em frente a uma das casas
de Pablo Neruda

não me interesso muito
por Neruda

chega uma mulher
com aparentes 30 e poucos anos
diz que é estudiante
que trabalha com medicina
para Síndromes de Down
eu sei que é mentira
e digo que no tengo nada

voltando a Neruda
não me interesso muito
não quero saber tanto
o discurso que a guia turística
vai querer me vender

poesia não se compra
se troca, e eu não tengo nada

o que me interessa
aqui
em frente a uma das casas
de Pablo Neruda

é o calor do sol
e o frio da sombra

é a inocência das crianças
com suas vozes anasaladas
chateando a tranquilidade do lugar

me interessa o canto
de alguns pássaros
que sobrevoa
o ar lento de Santiago
quase como palavras suaves
sussurradas dos Andes

o problema do turismo
é o condicionamento do olhar
é dar preço
às coisas da vida

quando o que é mais valioso
pode ser peidar, livremente,
sentando num banco
em frente a casa de Pablo Neruda
e sentir o seu cheiro
pútrido
subindo pelas narinas
alcançando as raras nuvens
até sumir nas estrelas
da próxima noite
onde provavelmente
espalhados pela galáxia
nossos restos mortais
- pó e cia. -
encontraram com os do poeta
e juntos
numa composição natural

serão poema

Tantos tontos

são tantos tontos
tantos tantras
todos tão tudo
que a gente é melhor ficar
mudos
não falar nada
ficar
mundos
são tantos tontos
tateando o escuro
que entortam tudo
tornando o tato
um tarot telúrico
de toscas figuras
desfigurando fundos
são todos tontos
são todos mortos
em seus casacos de pele
humana
e normose

tantos tontos
portando nomes
pra que tanta perna meu deus
se eu não sabia que eu era deus?
pra que tantos nomes meu deus
se sou somos o mundo e são se somos sei?

tantos todos
formigando pernas
pra que tanto tanto meu deus
se sabias que eu era o mundo?

todos recitando o mesmo texto
o mesmo tênue sêmen
o mesmo sentido
o mesmo sentimento
sem sentimento
todos tantos tontos
um turbilhão de sábios

é melhor a gente ficar mundo
não falar nada
falar o nada
seria falar
é melhor mesmo falar o pior
do que melhor falar
falar o pior também é poesiar
é elevar o baixo e rebaixar o elevado

quem poesia reequilibra o desequilíbrio constante desse segundo eterno

sábado, 6 de novembro de 2010

sueño lúcido

os passos até o infinito
se extendem dentro de mim
em espirais
e palavras se convertem
ao zen-budismo
sem emitir som
sal
só sim

caminhando dentro desse abismo
me viro o avesso
e vejo o mundo transvisto
faz parte de um sonho

lúcido

e nele te convido
para sonhar compartilhado

o sonho dos deuses

que somos

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

La Danza de la Realidad

extender o imaginário
através dos 4 operadores matemáticos básicos:

somar, subtrair, multiplicar, dividir.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Pacìfico: primeiras impressiones

se continuar a pisar
no Oceano Pacífico
pela primeira vez
sempre pela primeira vez
poderei supor que ele só existe
quando eu o piso

o que significa que
o Pacífico só existe
se eu existir
(o fato é que eu ñao existo
ai fica difícil o raciocínio).

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

espanto

vejo que faz tempo que não escrevo alguma poesia.
não é uma questão de escolha, apesar de ser.
se o Gullar fala que poesia tem a ver com o espanto,
confesso que tenho me espantado, mas não tenho sentido
a necessidade de escrever o espanto.

às vezes podemos até viver o espanto sem precisar escrevê-lo para amplificá-lo.

em certos momentos da vida, a poesia ajuda a desorganizar o desorganizado da vida,
ou simplesmente registrar em fotografias sem filme aquilo que não foi vivido.
à partir da escrita se vive.

da vida também. (era esse o caso para eu não ter escrito nada nesse tempo todo - que nem é tanto tempo assim, mas pra mim é)

penso novamente na utilidade da poesia. não tem nenhuma. aparente.
criar alguma utilidade para a poesia é trabalho de poetas, ou seja, leitores de poesia, que não precisam escrever nada, mas viver alguma poesia e gerar sentimento, afeto, movimento interno estando parado, esses issos.

estou feliz agora, vou embarcar numa viagem para o Chile.
conhecer a casa de Pablo Neruda, um poeta que não conheço.
espero anotar mentalmente frases, e tirar fotos sem filme também.
poesia é sempre uma viagem para um lugar que nunca antes sempre iremos.
lugares bem distantes dentro da gente.
anotar os costumes desse lugar, em relatos objetivos de paisagens que não viu, é tarefa do poeta.

é engraçado como o simples ato de escrever gera mais escrita.
como aqueles palhaços de festa infantil que vão tirando um imenso fio de papel da boca.

(é que nossas estranhas entranhas não tem fim propriamente dito, dizer o fim é infinito)




quarta-feira, 13 de outubro de 2010

como?

hoje estava andando na rua quando fui abordado por uma senhora. ela parecia ter uns 80 anos. usava um cachecol verde e tinha uma verruga no meio da testa. com uma voz rouca me contou:
eu sei o seu futuro.
como?
você é o menino que eu vi quando estava andando na rua há muito tempo atrás. você usava uma calça jeans e mascava chiclete. eu lembro quando você, com uma voz baixa me contou:
eu sei o seu passado.
como?
você é a senhora que me abordou há poucos segundos atrás. parecia ter uns 80 anos. usava um cachecol verde e tinha uma verruga no meio da testa. com uma voz rouca me contou:
eu sei o seu presente.
como?
você é o menino que eu vejo quando estou aqui andando na rua agora. você usa uma calça jeans e masca chiclete. eu vejo você, com uma voz baixa me contando:
eu sabia o seu presente.

como?

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

filme "poesia"

acabei de ver o filme chamado "Poesia"
que passou no festival do rio.

faltou poesia no filme.

no filme, o professor de poesia
ensina poesia.

faltou desexplicar.

no filme, o professor de poesia
diz que é preciso inspiração,
que ela vem do coração,
que tem que esperar bastante
e rezar e implorar para ela
vir.

faltou desinspirar.

poesia não tem inspiração nenhuma.
faltou colocar a turma para olhar o mundo como uma criança
(ele até tentou desexplicar uma maça, mas não tentou sê-la)

faltou ser os objetos, ao invés de vê-los bem.

faltou terminar o filme trazendo vontade de viver.

eu não quero poesia que dê vontade de morrer.

eu quero poesia que dê vontade de viver.

eu quero filme que dê vontade de viver.

eu não gosto de filme que termina com suicídio.

eu gosto de filme que termina com nascimento.

o filme é muito bom.

mas falta muita coisa.

falta muito para se poesiar.

essa falta é que nos move.

poetas,

humanos,

carnes silenciosas de tanto gritar a invenção da vida

terça-feira, 5 de outubro de 2010

aberta

a luz apaga
o silêncio se contamina
de respiração
crescente
rua vazia
lua
minguante
enquanto o tempo
escorre pelos joelhos
bambos
numa dança
do desejo

transe

a luz continua apagada
mas acesa a atenção
alerta
os pêlos
o frio abraça o morno
e debaixo das pernas
aqueço
o hálito fresco
a língua do tato
recita estímulos
no pulso
primordial

esquecemos o tempo
esquecemos as roupas
as máscaras arcaicas
retornam
e ornam a cama de retratos
de deuses e animais
miados
uivos
gritos de dor
um suspiro no umbigo
rígido
flexível percorrer dos abismos
labirintos de corpo
entrelace no espaço
entre
no espaço

entre

o silêncio contamina o gozo
de rouquidão atrasada
em batimentos de um samba
louco
percepção alterada
a fala se resume em toque
se desreprime em verbo

até se tornar carne

simplesmente
palavra

simplesmente
a..b..........e........r.......t.................a

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

na estrada


foto de Ana Pas.

um pedaço de saco plástico de um supermercado antigo
já não tem mais o cheiro da fruta e só carrega consigo
um pedaço do vazio que assopra dessa areia e chão batido
ao passo que passa pelo meu pensamento e esbarra perto
dos pés descalços e alça voo por centímetros e até metros
acima desse barro eu paro e sento em cima do banco em pranto
solitário, silencioso, atento

percebo que esse saco plástico sou eu mesmo
voando ao vento
e agora crendo
que a vida é feita pra voar
eu invento
um novo canto
que altere as linhas melódicas do horizonte e da paisagem
em miragem tênue do que existe e do que não entendo
o saco plástico agora está solto no vento e de dentro
de mim de todo esse silêncio que me envolve e dissolve
o ar suspenso em névoa amarela e alaranjada como os olhos
novos da amada antiga
um pedaço de saco plástico de um supermercado antigo
um pedaço de vazio que assopra de dentro desse chão batido
fabrica em mim um sopro e suave sol sustenido
e eu penso em minha mãe
em meu pai

no teu sorriso

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Processo Criativo - reflexões sobre fazer poesia (ou ser desfeito por elas) - parte 3

Conversando ontem com meu amigo escritor Rafael Sperling, enquanto tomávamos açaí (foi-se o tempo do absinto) eu percebi que estou encontrando uma maneira de me despistar. Ou seja, sair de esquemas automáticos da escrita, sair dos vícios de linguagem e buscar verbos novos para se perder. Para me despistar, começo a escrever mais em prosa. Alongar o texto, fugir do verso, versando de outro jeito, mas sem deixar de ser poema pra mim.

É uma coisa que recomendo: quando sentir-se seguro na escrita, ou sentir que achou um estilo, sentir que os textos estão fluindo bem numa linha, tente o caminho oposto, mude a própria linguagem e não-objetivo da escrita.

Nesses últimos textos, ando em busca de entender meu processo de escrita, compartilhando com vocês e comigos, enfim, conoscos, esses issos e nadências aparentemente impenetráveis do poema. O exercício tem se mostrado enriquecedor.

Encarar a poesia como um exercício diário foi de grande importância para o meu empequenamento. Por empequenamento quero dizer a percepção poética de que o mundo é maior do que você, de que você é maior e mais do que você, e de que você que inventa o mundo e você.

Os músculos poéticos vão ficando cada vez mais fracos para a sensibilidade, ao contrário de uma ginástica física.

Nesse ponto, o ócio é muito importante.

As coisas que não importam são fundamentais.

domingo, 26 de setembro de 2010

Processo Criativo - reflexões sobre fazer poesia (ou ser desfeito por elas) - parte 2

Não existe algo como a poesia.
O que existe é a atitude poética sobre o mundo.
Uma atitude poética.
Por atitude poética eu digo um olhar enviesado, uma tentativa-de, um constante alerta para o que não importa, uma constante criação de personagem, e dramatização contraditória do mundo.
O que diferencia um texto qualquer, ou qualquer outra obra de arte, de uma poesia é a atitude poética.
Não é preciso escrever para se ter atitude poética.
Porque ela é o próprio viver em estado alterado pela poesia.
No caso, escrever ajuda e faz a manutenção da atitude poética.
Porque nada é o que parece,
porque "as coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis..."
e outros desaprendizados que o manoel complica melhor.

Será preciso inventar as coisas
será preciso realmente sê-las
para se ter a atitude poética.

Quando a atitude interna transborda
precisa ser liberta em forma de palavra, imagem, sons, gestos, em suma,
imaginação: imagem em ação.

Quando estou dentro de um trem ou ônibus, ou até carro, percebi que estou no cinema:
imagem em ação pela tela da janela. Imagem em movimento,
e eu parado no mesmo lugar de nunca.

Uma das características da poesia, além do barato que ela dá,
é o movimento parado que ela gera dentro da gente.

Estou descrente na política tal qual ela se afirma no cenário atual do Brasil.
Para mim, a atitude poética,
é a única salvação para dar continuidade e desenvolver
a invenção do nosso país

a partir da invenção da vida.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Processo criativo - reflexões sobre fazer poesia (ou ser desfeito por elas)

A vontade de escrever não é necessariamente a vontade de poesiar.
Ela é no sentido de compartilhar com o mundo (primeiramente consigo mesmo)
um sentimento, uma sensação, um insight, algo completamente vago, ou concreto,
como atravessar uma rua ou pensar em deus.

Quando escrevo um poema, não há um processo único, pelo contrário.
Cada poema é um processo. E cada processo experimentado gera um poema.
Pode-se começar pelo poema, ou pelo processo do poema.
Quando digo começar pelo poema digo por uma frase. Geralmente é uma frase.
Às vezes imagens. Imagens precisam ser torcidas em palavras até sair um líquido
espesso chamado egosma. A gosma que é só minha.

Depois dessa frase, algo vai seduzindo a imaginação e a sensibilidade, em direção ao caminho que a poesia vai tomando.

A vontade de poesiar tem mais a ver com um momento de beleza, de silêncio, de iluminação.
Nem sempre temos um papel ou computador a mão. Nesses momentos, eu prefiro tirar fotografias mentais, para depois, observando-as com cuidado, elaborar os poemas como descrições objetivas de fotos que não tirei.

A questão básica de um poema, pra mim, é o seu impulso inicial.
Ele começa com um impulso, algo propulsiona a primeira leva de frases e versos.
É uma força que precisa ser incontrolável. No começo. Depois vai sendo domesticada pela
razão enviesada que é essa da releitura e reescrita dos poetas (que eu não tenho bem desenvolvida).

Algo que me persegue é essa minha voz interna ditando as poesias para mim enquanto escrevo.
Essa voz é de um ator teatral, interpretando o texto, que eu psicografo de mim mesmo. O ator sou eu também, assim como o público que está ouvindo.

Às vezes um poema vem como canto, ouvimos a melodia dele. Nesse caso, o trabalho maior é não perdê-la da memória e ir inventando harmonias com as palavras para compor o resto da música.

Tenho uma mania de terminar com frases fortes, de efeito, algo com cara mesmo de conclusão.
Deve ser mania de quem pensa dramaticamente os textos. Finais cíclicos são interessantes, mas geralmente são melhores quando fecham o ciclo um pouquinho diferentes de como o abrem. Não sou muito fã de poemas bem estáticos, onde não há transformação. Nesse caso, sigo o jodo quando diz que a arte tem que ser um remédio e não um veneno. Mesmo que o remédio seja amargo e mostre a miséria do mundo.

Quem diz não conseguir fazer um poema está mentindo.
Não se consegue fazer um poema.
O poema, a poesia, fazem-te.

Portanto o problema principal dos que dizem não serem poetas, ou não terem coragem de mostrar os escritos é uma vaidade tremenda: acham que estão construindo, quando na verdade estão sendo fecundados.

É preciso se fazer mulher para poesiar. Alargar o ventre e a vagina para as palavras duras entrarem e jorrarem seus prazeres. Todo o poeta é meio viado.

Já tentei muitos processos de fazer poema, e continuo tentando.
Pensar em estruturas musicais.
Pensar em linguagem cinematográfica.
Pensar em alegorias.
Pensar em ponto de vista.
Pensar holisticamente.
Pensar em não pensar.

A poesia é um labirinto. Que não tem centro. Nem saída.
O desafio é continuar tentando não sair desse labirinto.

Descobrir a paz de ser
que a passagem de um estar

não procuro saída para a poesia.

dorme

dorme
a cidade
como um cão
de barriga pra cima
enquanto sonha
com um bife
daqueles de desenho animado

dorme
a menina
como uma gata
de ladinho no sofá
enquanto ronrona
com um blefe
de fazer carinho no pescoço

dorme
o poeta
como um leão
enjaulado na poesia
na obrigação de não fazer
que o prende
ao tentar
exprimir o mundo
enquanto o mundo

dorme

a voz da billie holiday

eu quero chorar
mas não consigo
porque ela chora por
mim
e pelo mundo

a vida é uma merda mesmo.

você caiu do céu
com asas negras e tortas
e a gente cuspiu
na sua cara

mas você cantou
e voou
sem asa mesmo
sem forças, que não a dor
sem brancura, inocência, sem nenhuma imagem poética
anglosaxônicaromântica

mas você cantou
mas você cantou
mas você cantou

sua dor
é a dor
do amor
é a dor
do não-amor
é a dor

da dor.

tchau

digo adeus
ao que nunca foi
meu

pelo menos
nem eu
me fui

dou adeus
pra figura do eu
na janela do ônibus
escolar

adeus
eu
vou-me embora para

onde o vento faz a chuva
onde tem mulher bonita
onde eu não posso morar

adeus
poesia
adeus
minha vó
adeus

eu quero ir embora
dormir numa carona
e acordar no mesmo lugar
de nunca
andar parado
com os pés na estrada
suja de barro e fantasia

digo adeus
aos meus medos

tchau inocência
tchau manoel de barros
tchau pessoa
tchau bituca
tchau lô
tchau glauber
tchau mãe
tchau vó
tchau pai

eu só preciso de mim mesmo
para descobrir que não existo

e cultivar esse segredo
de inventar infinitos
dentro de um
poema

tchau tristeza
eu quero ser filiz

terça-feira, 21 de setembro de 2010

"Vento Lírico" - crítica do livro da poeta Mari Coli

*****

À julgar pela capa do livro, o leitor já tem a ambiência poética necessária para desenvolver sua sensibilidade nessa aventura pelo rio de palavras de Mari Coli: uma menina, em preto-e-branco, carrega uma garrafa d`água de vidro, deixando o conteúdo cair, enquanto corre para dentro de uma casa em ruínas.

Poeta de sensibilidade ímpar, com um olhar fotográfico para as coisas, Coli começa o livro pelo título, destacando a importância da natureza. uma atitude notadamente romântica. em que os sentimentos ganham repercussão nos fenômenos naturais e vice-versa, algo que veremos em quase todos os poemas do livro.

Vento que às vezes nos lembra de frases...

A importância da poética mineira-universal do Clube da Esquina se faz presente, como uma suave neblina sobre esse rio palavral. Aliás, não seria de todo mal rebatizar o livro com esse outro elemento: a água:

"despertar pro mar
despertar pro cio

nem mais ócio nem receio
meu seio agora se ocupa de delírios

tão rápido o desejo enrijece
outro desejo irriga"

Uma das características principais da poesia de Coli é a maneira líquida na qual seus poemas são estruturados, bem como o próprio funcionamento orgânico da poesia se estabelece pela fluidez de rio, de córrego, até cascata, queda.

A sensação que fica é da ligação inquebrantável dos átomos de água, ao ler suas palavras, percebemos que a coesão entre elas é impossível de ser quebrada, cada palavra está no seu lugar e dá as mãos, numa corrente fluida, à sua anterior e sua próxima, formando um rio, por onde o leitor é jogado e navega.

"não importa quem eu escolha

sou sempre a última a chegar

é porque venho de longe

e tem sempre água no caminho

meu lugar é além

meu ofício é temporário

meu tempo está suspenso

sim, tenho ao meu alcance

nuvens, cores, ventos

tenho passado e tenho futuro

mas só tenho amor
e só tenho presente
se eu inventar"

É nessa metáfora, tornada concreta pela própria natureza de suspensão com ondas de tensão que a poesia de Mari Coli provoca no leitor, que nos aproximamos melhor da obra ainda pouco reconhecida no cenário literário, mas de grande valor poético.

Outro prisma é justamente a fotografia.
Depois de 2 anos em viagens pela América Latina, fotografando com sua máquina Laica, Coli enfrentou uma daquelas situações epifânicas que transformam a vida de maneira brusca: numa sessão de fotos com descendentes de nativos incas no Peru, teve seus filmes roubados por narcotraficantes. Numa típica trama mirabolante policial, os traficantes confundiram os rolos dos filmes com um outro carregamento de cocaína, também colocado em rolos de filmes para despistar as autoridades. Enfim, o que se sucedeu foi um insight crucial para a poeta.

- Como seria fotografar sem filme?

Começou a elaborar seus poemas enquadrando sentimentos como quem se posiciona diante do real para tirar uma foto sem filme. O que é revelado é exatamente nada. Ou seja, poema.

Em "Vento Lírico" temos a criação de um gênero literário híbrido, uma espécie de foto-poema.
Interessante notar a relação contraditória entre os dois fundamentos da poesia de Coli: ao mesmo tempo líquida e fotográfica.

A fotografia, como diz Benjamin, é uma ilusão de movimento através do princípio da persistência retiniana, ou seja, acreditamos estar vendo um movimento contínuo, mas o que temos são fragmentos congelados de imagens, sendo projetados tão rapidamente que percebemos como um movimento fluido.

A poesia do livro surpreende e surpreenderá ainda mais, pois assim como fotografar um rio, a cada segundo estaríamos fotografando outro rio, como tão belamente recomendou o filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso: não se pode entrar no mesmo rio duas vezes. (quanto mais fotografá-lo, como faz Mari Coli)

O que fica, ao percorrermos esse rio, é a imagem do tempo passando pelos lados, e a certeza de encontrar, num horizonte próximo, mas distante, como todo horizonte o é, o grande oceano de todas as poesias.

"Lembrança Impossível


“And I wondered if a memory is something you have or something you've lost”

O cheiro da casa
E das cortinas
É lembrança que eu conheço
Mas que só se rememora
Se o cheiro é novamente sentido

A casa foi demolida
As cortinas, talvez, dadas
E ornam a sala de outra casa

Quando sonho
Com sorte
Posso entrar novamente na casa
E me enrolar nas cortinas
Fazer delas um casulo
E me sufocar contra o tecido

Mas sentir o cheiro delas novamente
Isso é impossível"

domingo, 19 de setembro de 2010

Pão Nosso da Poesia

caminhar na beira do abismo
perto do abismo
na ponta dos pés
devagar
olhando o horizonte
se aproximar da distância
percorrer o caminho da distância
que une os fragmentos de nossas vidas
percorrer a caminhada tranquila
correr parado no mesmo lugar de nunca
devagar
e sempre
continuamente percebendo as mudanças
no interior das paisagens
no canto da chuva
continuamente rompendo liberdade
e prendendo-a com algemas quebradas

romper a paralisia com movimento nulo
romper a saudade com memória do futuro
romper o silêncio com um grito mudo
romper o medo com um espelho rompido

enxergar para além do que não se vê
ouvir os sons que vêm das cores das palavras e até do ser

poesia não precisa ser um ato religioso
religar ao Uno
religar ao Todo
religar a Si mesmo

mas é

poesia pra ser verdadeira tem que inventar um Deus
e sê-lo
e crucificá-lo
e carregar a sua cruz
e sentar-se na árvore
e atingir o nirvana
poesia pra dizer algo
tem que calar

para sonhar
tem que acordar

para alcançar
tem que se dar distância

na poesia
o movimento é estar parado
é conscientemente estar inconsciente
e aproveitar somente os erros

para acertar o errado

poesia é estar errado
é torto
é esquerdo
é esqueleto sem forma
e causa sem efeito

será preciso enxergar as ligações entre os seres
a eterna
invisível
infinita

ligaçãoentreumapalavraeoutraassimcomoentreumseredeus

amém

sábado, 18 de setembro de 2010

aejertxfhjcxrtyxty

arrepio na espinha

você não sente cosca?

seu processo criativo é muito morgado, taiyo.



acho legal anotar frases assim desconexas, sabe?



essa poesia foi feita agora

essa frase foi feita agora

mas eu fui feito amanhã



meu presente embrulhado com fitas elásticas da imaginação



vaginação

imagem



é depiladinha tua vergonha

que chega a ser orgulho



compre fita crepe



what the fuck?



(risos)



calcinha rendada púrpura

rosa púrpura

cair

o

rosa púrpura do cair

o



(por que todas as análises de filmes têm que ser homoeróticas?)



o

----------

o



(escreva na linha pontilhada a sua tara)



pro meu mundo ficar odara eu só preciso de:



- chocolate alpino

- barato de transa

- manoel de barros

- kubrick

- sorriso cativante

- meia calça rasgada

- e5656u56udrthghjc

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

desverde

os prédios daqui de cima
cimentam a minha poesia
do cinza mais puro
da mais pura alquimia
em fazer ver de ouvir
em fazer ouvir de ler
algo que só pássaro
ou outro qualquer ser
que não este humano
demasiado humano
pode transcender com palavra
e assumir os vôos sem asa
de um pássaro imaginário
num céu imaginário
que é todo o meu real
e nada

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Encontros com Taiyo Omura

Aline - Lendo os teus poemas, a gente fica curioso: de onde vem a poesia?

Taiyo - Pode ser que ela venha dos seres que não somos, mas dos quais não conseguimos fugir. Pode ser.

Aline - É... e você é muitos seres?

Taiyo - Carrego dentro de minha mochila não só livros e cadernos de aula. Guardo também algumas máscaras, que uso dependendo da ocasião social. Outras eu não uso. Outras me usam. Tem uma que é um espelho, é uma máscara no formato do meu rosto, mas é um espelho. Essa eu uso quando quero me mostrar, sabe, coisa de vaidoso mesmo.

Aline - Coisa de quem é de leão, como nós. Diga, você se mostra muito na poesia? Se coloca nela?

Taiyo - Às vezes é como sexo. Eu gosto de ficar por cima das palavras, roçar nelas e variar na metida, pode ser rápido, mas lento também é bom. Eu gosto quando as palavras gozam enquanto estou dentro delas. Elas ficam muito molhadas de mim. E eu delas. Mas com elas por cima também é ótimo. Quando elas cavalgam em cima de mim, tenho vontade de abrir os braços e voar, como Pégaso.

Aline - Hummmm... eu sinto uma coisa meio mítica na sua poesia, por falar nisso.

Taiyo - Deve ser porque, pra mim, a poesia é inventar os seus mitos. E inventar O mito. É contar a sua história e a História pra você. É verdadeiramente um ato mentiroso de encontrar-se com o seus tempos: digo seus por uma razão simples: a desrazão. Isso me lembra Chris Marker, no filme La Jetée, onde o personagem viaja no tempo, pela memória, ou seja: ele vai tanto para o passado quanto para o futuro. temos todos os tempos dentro de nós. temos a memória do futuro. É desse mito que eu falo. É dele que eu bebo.

Aline - Falando em cinema, o que você busca nele? Você é discípulo do meu Jodo?

Taiyo - Sou. Sou discípulo do Jodorowsky no sentido de acreditar no cinema, ter fé nele. Quando o mestre diz que o cinema está doente, e que estamos doentes, está correto. Eu procuro no cinema um remédio para as minhas doenças e para as doenças do mundo. Tem uma que não dá pra curar e nem quero, que é a poesia. Todas as outras doenças podem ser curadas, inclusive e principalmente pelo cinema. A poesia é uma doença que cura... interessante isso.

Aline - E quando que a poesia te infectou?

Taiyo - Acho que foi quando eu li Pessoa.

Aline - Eu gosto de pensar que o nome dele é Fernando Pessoas.

Taiyo - O Gullar disse a mesma coisa. O Pessoa na verdade é Pessoas. Ele tem dentro dele todos os sonhos do mundo. Ser poeta é isso, não caber em si mesmo. A vida não basta.

-----------------------------------------------------
Primeira parte do encontro com a artista Aline Barcelos,
quando fui entrevistado no ano que vem.

primeiro homem

em algum momento
o primeiro homem do mundo
fez um poema
e tudo foi partindo dali
a energia
condensada num gesto
desforme primavera
espalhando sêmen
nas coisas primitivas
e trazendo deus
no florescer das estações

e desse vento
vindo vivo vasto e verbo
inventou a primeira mulher
já com lágrimas
sexo
e perdão

essa mulher era ele mesmo
fantasiado de real
era seu próprio sonho
acordado
era de sua carne
intocável
era eva
hera
erva
feita do mais puro negro
de de dentro de si mesmo
uma sombra com luz

e quando os gestos se completaram
a incompletude do humano
em ambos
fez-se divindade

e nasceu o sol

e uma flor

e eu sorri

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

o movimento de ficar parado

o vento passa
na janela dos meus olhos
o ventre aberto
e ela passa
com asas abertas
na janela do apartamento
o vento descobre
a cortina da memória
e nos conhecemos
fora do tempo
o vento e espaço
entre ela e eu
o vento sou eu
flutuando acima do som
de um sussuro suspenso no chão
o vento e escuridão
de quando eu abro os olhos
eu só vejo de olhos fechados
o vento na minha mão
na janela do desejo
um retrato onde se pode
ver perfeitamente
nada

uma janela escancarada
por onde o vento venta
enquanto o tempo tampa
promessas de um passado
eu caio sem rede
num chão que é céu nublado
enquanto me desoriento
com seu vento na parede
do seu quarto

o vento passa
o tempo passa
parado

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

poesiar como quem voa

não sei porque
mas me veio uma vontade de querer voar
no meio do poema

e eu abri os braços
e transei

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

transar como quem voa

não sei porque
mas me veio uma vontade de querer voar
no meio da transa

e eu abri os braços
e gozei

mandar freud tomar no cu

acabei de ler um poema de meu amigo Álvaro Juvenal - http://cinzasdapoesia.blogspot.com/
e uma grande satisfação vem na cara da minha alma.

satisfação sexual
como só poemas podem lubrificar de gozo
minhas palavras duras

satisfação palavral
como só o sexo pode luar
meu pau

satisfação pessoal
como só Pessoa
pode enfiar o dedo no cu da razão
(junto com o Manoel)

satisfação ingênua
como só ver as primas nuas
e olhar debaixo das saias do pedro segundo pela rampa
e passar a flauta doce na bunda das meninas indo pra aula de música

satisfação infantil
de pular em piscina de bolinhas
de tirar o brinquedo de outra criança
de tirar meleca
de mijar no pique-esconde

satisfação maconhal
de estar aqui agora vivendo o presente sem tempo
com alguma coisa de malandra
permeando as coisas todas em nada

satisfação amigal
de falar merda
de falar da vida
enquanto o apocalipse inunda de vertigem e violência um mundo caduco

satisfação poetal
de ler um amigo
muito mais poeta
porque brinca com as palavras
como quem enfia o dedo no cu

de freud


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

aqui

e a vida mais uma vez recorre aos breves mistérios que ocupam a paisagem eterna da noite em nossas almas

alguém toma uma coca
barulho de janela se abrindo
cães chamam seus ecos
na rede globo um anúncio
um calor no ar como se fosse chover amanhã
um avião passa riscando o ar com som
alguns grilos morrem ao fundo
a cidade está quieta
quase dormindo
você está em algum lugar

eu estou aqui

teu corpo

teu corpo
não é como uma nuvem metafórica
que pode ser
e também não se curva
pela geografia feminina
dessa cidade maravilhosa
não silencia como a lua
e nem pertence aos encantos do outono
como um orvalho faminto
sugando as lágrimas da chuva

teu corpo não é feitiço nem doença
não se espalha pela grama como formigas
nem tem a extensão como a de um pássaro inventado
sem asas e sem perdão

teu corpo não é de virgindade
não é como o tempo escorrendo de relógios
nem como a lógica escorrendo de ralos em poemas
não inventa primaveras com o gesto
nem se comunica com fumaça em línguas de índio
como silêncios gritados de passados ínfimos

teu corpo não é como o cinema mudo
não ficciona o movimento incerto
não emociona como um mendigo feliz

teu corpo não é como outra coisa
que não o teu corpo

teu corpo é como teu corpo
e nem como ele é

teu corpo é teu corpo

sólido
imperfeito
humano

corpo de mulher

abismo revisitado

eu tenho como sina
me fazer poema
e provar a cada dia
que a vida não vale:
queima

cada dia uma reza
uma fantasia
me fazer poema
rir como quem rima
ser como um poema
ver de olhos livres
cor e alegria
me fazer cinema
sinestesia
e provar a cada dia
o doce amargo
do santo seio
suspiro

pular do precipício
mesmo sabendo
que não tem mesmo abismo

nós

no claro da noite
no rastro do invisível
no sistema lunar
no brejo das almas
no porto adormecido
no velho menino
no sonho acordado
no beijo partido
no feliz aniversário
no foco da neblina
no olho do furacão
no meio do redemoinho
no silêncio gritado
no sol sustenido
no meio da rua
no disco de vinil
no prato vazio
no gole frio
no trabalho forçado
no discurso político
no passo apressado
no assunto esquecido
no vigia noturno
no mundo girando
no mundo da lua
no pedaço de bolo
no átomo partido
no lindo absurdo
no relógio quebrado
no jogo da vida
no baralho cortado
no vaso de flores
no vaso sanitário
no são francisco
no armário embutido
no quadro de horários
no vicente celestino
no banheiro da escola
no azul do mar
no azul do cu
no capacete preto
no formigamento do pescoço
no soluço de vinho
no gosto de vidro
no corte no pé
no sonho cicatrizado
no desenho do dragão
no gosto de vertigem
no sabor da morte
no vermelho vivo
no mindinho do pé
no perigo na esquina
no clube
no cativeiro liberto
no tênis sujo
no canto do quarto
no canto
no quanto
no quase
no nada
no nome
no novo
no livre
no fado
no sonho não sonhado

em tudo aquilo que vejo
me sou e não me caibo

em tudo aquilo que cheiro
me sinto e não me faço

em tudo aquilo que toco
me cego e não me abro

em tudo aquilo que como
me sacio e não me basta

em tudo aquilo que nada
aquilo tudo em que nada
tudo aquilo que nada em
nada que em aquilo tudo

poesia é perder é perder poesia
nos
nós

terça-feira, 24 de agosto de 2010

dobradura

ao dobrar a esquina
bem ali no meio da calçada
esbarrei num homem apressado
que era eu

e como se dobrasse um poema
as palavras, trocadas, agora
indefiniam-me melhor do que nunca
que eu me fosse

e como se dobrasse uma música
as pausas, agora compassos e desritmia
repercutiam no vazio da minh`alma
como um silêncio gritado
que eu seria

e como se dobrasse horizontes
as gaivotas alteravam suas rotas
em zigzagues de pollock
brincando de arte com os raios de sol
sombras de nuvens metafóricas
que podem ser

e como se dobrasse minha coluna
esparramando os braços sobre a geografia feminina
dessa cidade
eu faço origami
de mim mesmo

e fica um pássaro
com asas de palavras.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

gravidade

de olhos fechados
caminhando na ponta dos pés
sorrateiramente entrelaçamos nossos corpos
à procura de um silêncio azul por de dentro das vertigens
e vamos reconhecendo a memória do futuro, voando aqui no longe
por entre bandeiras de tripas e trinados vocalises enfeitando o chão celeste
e vamos descobrindo américas e cangotes onde a felicidade inventa limites em gorjeios
e vamos colorindo os sons com o toque áspero de um beijo perfumado de nadas roubados
como escravos construindo pirâmides ao contrário, nós entramos no barro da terra em plena madrugada

e cantamos um samba
e dançamos um samba
na ponta dos pés
no abismo

mesmo sabendo
que não tem abismo

só queda.

sábado, 21 de agosto de 2010

aniversário do blog - 2 anos

agora que me dou conta:
esse blog tem exatos 2 anos.
está fazendo aniversário hoje.
olhando para trás, para o primeiro post, percebo o quanto ele mudou
o quanto eu mudei.
eu texto eu mesmo.
é engraçado ver esse percurso todo,
2 anos escrevendo com uma certa regularidade
dão uma certa intimidade com o eu texto.
mas é sempre um mistério e sempre uma descoberta
das américas e cangotes.
percebo que me repito muito
isso é estilo.
não faz mal.
depois de 2 anos, que fazer?
como manter ainda o interesse nesse casamento com as palavras?
se bem que não é um casamento comum.
é meio aberto para o dentro.
e aberto meio para fora.
como um olho de onde sai uma pessoa de de dentro.
tempo tempo tempo tempo.
piscar e o poema passa.

recomendo pra todo mundo:
escreva. tenha um blog. escreva regularmente.
claro, não é porque escreveu que está bom.
mas escrever está além do bem e do mal.
e lá de onde tem o nada
é que vem o eu texto.
um bom poema é tão nada
tão transparentemente opaco
que só dá pra ver o leitor
vendo o mundo
vendado.

engraçado ver o primeiro post desse blog,
como eu não tinha idéia de onde chegar.

e consegui chegar!
no não lugar!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

brincando de arnaldo antunes mas podendo depois reescrever, mudar o título e virar uma poesia mais com cara de poesia séria

as coisas que valem a pena são de garça.

as coisas que valem a pena são de

graça

as coisas que valem

só graça

sogra

S.A

as coisas

que estão no vale

são as garças

voar no vale é de graça

voar pra valer

que nem a garça

faz

fax

faxina

as coisas que valem a faxina

são de graça

as coisas que valem

a rima

são grátis

são

loucas

são loucas, tá?

deu.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

elefantes em posições de yoga

é muito difícil fazer um poema
porque é preciso usar uma força descomunal
com as palavras
para juntar corpos tão díspares quanto contrários.

(força descomunal é força fora do lugar-comum)

(você pode até usar o lugar-comum
contanto que ele esteja fora do lugar)

um soco dócil.

um beijo do sol.

um céu aqui no meu pé.

ontem descobrirei.

Uma breve estória do eu finito

Minha vida começou quando comecei a escrever.
Essa frase.
Antes dela não havia luz nem barro.
Não havia nem mesmo o tempo verbal.
Só havia o desverbo.
E seres invertebrados começaram a andar por de sobre,
roçando nas letras e nos pequenos abismos.
Choveu fininho e depois muito.
O sol beijou no rosto de uma ameba
e ela floresceu virgem um verso
de poema.

Minha vida começou quando flores e eu
nos abrimos para o sol penetrar.
Ele umedeceu o chão dos silêncios
com saliva quente e multidão.
A gravidade insistiu em cair sobre nossos
.............................centros...............................
deslocando o peso das frases para o
...............................................................fim
como..................em
...........elefantes......posições
................................................de yoga
se desequilibrando em pluriversos paralelos.
Do primeiro gozo ao cair no chão cresceu um
poema.

Minha vida começou quando terminou.
Como terminou
modificou-si-chão
Onde terminou
movimentou-si-em-vão
O quê terminou
coisificou-si-tão
Quem terminou
identificou-si-não
poema.

Começar um poema é começar a viver.

sábado, 14 de agosto de 2010

cair

tropeçar
cair
jogar o umbigo no teto
terreiro
tropeçar
olhos fechados
jogar a coluna no teto
cair no céu
olhos abertos
cair em sol
tropeçar
em cima de tua
terra e vista
cair
novamente cair
relembrar o que não viu
sonhar com teu cheiro
travesseiro
abismo
sentir o perfume
laranjanela
ela caminha
cair do silêncio
cantar
uma aquarela
segundos intensos
segundas intenções
terceiro sol
cair
a noite
em si
tropeçar no abismo de ser
feliz
pedalar a madrugada
num sorriso num pé
pisar o terreiro
sagrar
sangrar de si
em cima do céu
chorar
cair
tropeçar numa pedra
no caminho
uma pedra
espirro de poeta
espinho
cair
novamente e novamente
cair
inventar um destino
cair
cair


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

mapa

escrevo um soneto com meu corpo
e percebo que não é um soneto
já que não tenho forma
nem conteúdo

sou todo nada.

escrevo um soneto com meu corpo
e bebo lágrimas da lua sem copo
direto no gargalo do galo da noite
gauche na garganta um grito entalado

sou todo nada.

escrevo um poema com meu sangue
mas não serve
porque poema que é poema
não coagula

sou quase tudo errado.

escrevo um silêncio com berros
acasalando socos com borboletas
acasalando formigas com bombas atômicas
acasalando olhos de moscas com boings 747

sou enquanto não me sou.

escrevo sinceridades falsas
sobre tudo o que não sei
sobre eu e você
sobretudo: nada

soumos eus e voceus numa jangada.

escravo com meu corpo
de palavras cativadas

escracho - SKASHOW - SCJAJREUH - SCRSJFCO
esterco - 01111100001101000100110100111000101111110100010010010

escrevo com meus medos
pesadelos mais sonháveis que a vida

escrevo com meus nadas
naus e as náuseas
de navegar por mares ias
como quem navega bacias
quentes de barrigas lisas
meninas

escrevo com meu desejo
de querer tudo ao contrário

odut oa oirártnoc aroga

só te prometo uma coisa:

minto

mato

meto
---------------------
não tenho mapa
a não ser meu corpo




sábado, 7 de agosto de 2010

Paraty

Não sou Manoel de Barros.
Não posso ser Manoel de Barros.
Não posso querer ser Manoel de Barros.

À parte isso, tenho em mim sonhos molhados de peixes e vaginas.

Queria ter 7 anos, mas tenho.
Admiro cães vadios que se lambem sem dar bom-dia.
Sou irresponsável para ser vadio.

Poesia pra mim já nasce com recheio de minhas porcarias.
Seria preciso enxugá-las com minha reza e meu orgasmo.
Mas tenho preguiça de não fazê-lo.
Acabo começando sem começos, como aquele mágico decadente tira papel infinitamente da boca: sou prolixo e pró-lixo.

Ontem me chamaram de prolixo.
Chorei
de emoção.
Os poetas que eu mais admiro sempre foram profissionais de lixo:
são os maiores consumidores daquilo que a civilização descarta.

Prefiro um cão que um fernando henrique cardoso.
Prefiro um doido sem botas que um acadêmico.
Prefiro um churros no chão que um charuto cubano.

Palavra que não se faz de trouxa não merece meu desrespeito verbal.
Eu gosto quando elas vem rebolando, se insinuando todas, mexendo seus quadris silábicos.
As palavras são assanhadas para poema.
As imagens roçam suas vergonhas em mim procurando acasalar com minhas palavras duras.
Eu só digo sim.
Sou facinho pra poema.

O silêncio que vem de mim fica cantando música caipira numa viola sem corda.
(talvez por isso eu fico rouco)

Não posso fugir dos seres que não sou.
Só me resta recolher na beira de meninas os amores que perdi
e fazer um pequeno barco de papel para conquistar cangotes e américas.

Não posso fingir que me sou.
Palavra de poema é quase de teatro: tem que ser ridícula pra falar de amor
e tem que amar a vida pra falar de tragédia.
Quem não tem rima só pode rir de si mesmo.



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

salva me saliva

(o maior perigo é se tornar amigo das sombras que dançam nas praças vazias
cheio de cores de amores e sobrenomescheiro de novas formas de odoresadoro o seu cheiro de dendê e de doença////é minha crença esse ritmoque a vida caminha apressadanas trilhas do meu silêncioinvisto nabolsa de valores ínfimos.........

um átomo de surpresa
subo em cima da mesa
nego o negro do sangue
e sambo em cima da reza):

salva minha saliva
salva a dor e a tristeza
canta um sonho distinto
cospe em cima da mesa

salva a sua promessa
de não ter mais certeza
acho a vida tão linda
nua em cima da mesa

salva a dor do pecado
sal e amor numa praia
particular o recado
de aplaudir essa vaia

salva a sua canela
feito um doce gelado
beijo de sobremesa
beiju caramelado

come a fruta madura
se lambuza de fado
louca lua minguante
parece um c ao contrário

cães dormindo na rua
e eu sonhando acordado
tudo virando nada
fumaça de baseado

salva as mães africanas
com seus bons requebrados
cor de pele profana
coração degredado

salva a porta dos mares
onde dançam os deuses
quero os risos solares
perco os sisos e feudos

adoro o seu cheiro de vida
sublimando a certeza
quero a dança da morte
viva em cima da mesa

joga um charme na praça
arde em chama sem brasa
brasil nas palmas das mãos
fode os sonhos em vão

joga à sua maneira
yoga televisão
joga uma capoeira
cai e se joga no chão

planta uma bananeira
come manga com os pés
sobe na goiabeira
cidade toda ao revés

canta e dança uma musa
usa e abusa de mim
faz um pecado nos USA
salva a dor de ser assim

cataclisma urbano
roubando marias de mim
um ciclista sem pernas
contornando o jardim

salva a linda menina
salve olinda também
salve a dor do prazer
e o prazer que não vem

salve a bola de gude
presa no seu olhar
universo amiúde
alaúde solar

vou cagar nessa estrada
poesiar meu amor
choro bandolins de lágrimas
fujo de onde for

mija numa parede
muro das lamentações
está tão longe da gente
escreve em mijo "perdão"

salva me saliva de sonhos
sonha e salva a cidade
sabe que eu nunca minto
só quando digo a verdade

saiba que eu nunca minto
só quando digo a verdade

domingo, 1 de agosto de 2010

lista preu me lembrar: salvador/semcine/uff

- odara medley no ônibus, com baixolão, durando uns 15 minutos, entrecortando com sossego, e passando o chapéu em algum posto de parada de estrada com uma velhinha colocando 30 centavos depois de dizer depois eu coloco mais é que eu to apertada

- música infinita

- filmes nigerianos! (peido, gente que rouba coisas, pés elefantíacos, MULEQ CAPETA!)

- filme holywoodiano no ônibus: num fode!

- não tomar banho

- aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhh (fine) aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah (final de teorema do pasolini)

- uma velha coroca não sabendo falar sobre glauber/pasolini

- samba, suor, falta de cerveja, bundas, cabelo afro, negras fortes, rebolar, a origem do povo brasileiro

- cheiro de dendê e mijo

- nova schin

- ficar preso no próprio corpo / mágica de colocar a moeda no cutuvelo

- acarajé: R$2,50

- festa no praia dos livros: festa numa livraria: dança afro e caribenha/eletro!

- elevador lacerda não tem graça

- o cachorro falando "ação" - filme do pasolini

- michelange quay - cineasta maneiro pra caralho do haiti que falou com a gente e que curte glauber, godar e pasolini - o cara é lelepípedo e não sabe

- roger é um treco doido

- tradutores simultâneos: não fode! (o maneiro foi a torre de babel mesmo! francês, inglês, espanhol, italiano até português!)

- não fode!

- sessão de 4 horas: "eu gostaria de chamar a equipe...": não fode!

- filme da helena - "desbundante"

- simone spolladore nua - deus existe e é um escultor e poeta

- selinho na Helena Ignez - musa do cinema brasileiro

quinta-feira, 22 de julho de 2010

velhos sapecas


hoje voltando do remo parei a bicicleta na frente de uma lanchonete para tomar um açaí e enquanto estava colocando a corrente dois velhinhos, bem sapecas, me pararam, um perguntou ela é toda de alumínio? eu respondi que sim e ele perguntou se podia levantar, pegou nas mãos o guidão e levantou e fez uma cara é é boa! uma dessa pra mim ia ser boa, essa tá bom pra velho! ae o amigo dele me mostrou a parte de cima da mão direita e disse ó aqui isso aqui é que eu fui atropelado quando tava andando de bicicleta, e me mostrou uma cicatriz grande, um risco meio branco-cor de pele. eu falei caramba foi por aqui? e ele é. ae o amigo dele, com uma cara bem sapeca, olhou pra mim e disse sem sair som da boca, só gesticulando com a boca, ele é barbeiro...

quero ser um velho sapeca
pegador
esportista
zuador

que nem esses




dedico esse poema ao Seu Adyr, remador ilustre do Clube de Regatas Guanabara, e ao barco canói aberto batizado com o seu nome.



quarta-feira, 21 de julho de 2010

um poema de taiyo omura

se não posso voar por palavras
que seja pela vida
e vício e verso.

descubro nos olhos de um cão a incerteza que me move.
aquilo que as paredes calejadas do edifício onde não moro sussurram no meu paladar diz mais sobre o meu paladar do que as paredes.
meu paladar só sente as cores de música quando durmo acordado.

se não posso voar pelo céu
que seja pela onda do pensamento.

preciso escrever menos num poema,
mas consigo.
conseguir me impede que eu faça.
o desafio me move parado.
a inércia de andar me estimula ao cansaço.
eu tenho até medo de sair desse escuro.
eu tenho até vergonha de não me expor.

o silêncio das palavras pode ser ensurdecedor.

por isso eu canto, danço e faço programa.
p
e
d
r
a
q
n
ã
o
r
o
l
a
c
r
i
a
l
i
m
o

PAH!

(geralmente eu termino com uma frase de impacto)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ditado - nota R

Rio de Janeiro, 12 de julho de 1996
Taiyo Jean Omura

1- macaco

2- retaurantes X restaurante

3- panela

4- árvore

5- casa

6- jornau X jornal

7- gato

8- lipeza X limpeza

9- rato

10- trabalio X trabalho




precisa prestar atenção nos sons parecidos,
quero ver melhoras no próximo, ok?

ass: professora Vilma

domingo, 18 de julho de 2010

como é que se fala?

é bost?

que?

- pousti

bost?

- pousti!

ah, tá

então vou bostar lá aqui no blogue

o poema anterior era um poema

era uma vez um blog
chamado limitedapalavra
ele vivia sozinho
porque linguem nia ele
foi intão que um dia
era uma vez
que alguém falou
pra escrever alguma coisa
sério

mas ae num deu
porque poesia
é é essas coisas que nego faz pra mulher e tals

- pára porra! num é a sua vez
e tu também ta roletrando, num vale

mas voltando
então um dia desses
o blog resolveu se irritar
e bater com o pé no chão

- poesia num é porra nenhuma!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

aviso aos meus 3 leitores assíduos

vou parar de escrever nesse blog por um tempo.
ser mais seletivo na postagem.
chega de poeminhas babacas.

abraço.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

costura

azul azimute
polca pouca
bairro barro
vermelho ver melhor
joga yoga
trança trance
azul asas
balão ballroom
vento vem tu
azul ao sul
rouca rock
gorjeio de passos
passeio de pássaros
bem-vindo benigno
ao sul dos sentidos

(o rolling stones me ensinou a mexer com o hemisfério sul)

um canto encanto adão tapado mão
um canto da esquina
do quarto calado
linha de nylon
new york e london
linha do equador
cintura do mundo
prefiro a sua
nas minhas mãos impuras de tão calejadas de ruas

ruas rugas
fuga de putas
vermelho ver melhor de noite é pra quem tem saudade de dia
diazul diamarelo diabonito

diadorim

te adoro teatro
do absurdo absorvente
sorvete sou vedete
cadete do exército
exercício de rima
rinoceronte creonte
das tragédias gregas latinas
tina é a cachorra do dan tadinha tá velha já

já são meio-dias
como dividir um dia ao meio
se a terra não é redonda
nem tem alguém para comê-la
a terra não é uma pizza
com sobremesa
como dividir um dia ao meio
se nós fazemos parte dele?

seria dividir a si mesmo
num banquete sobre a mesa
eu prefiro coração
de poetas
que bundas
de burocratas
creta tebas
e outras cidades imaginárias

onde eu durmo acordado e sonho em pé
de cabra
de brasa
de pravda kino pravda
kino-glaz

agora é hora de comer

domingo, 11 de julho de 2010

E assim, no meio da madrugada, vem um canto que eu cantava com as vísceras, depois de saber que...

ÁHA!!!, UHÚ!!!,

HOJE O PÁTIO É NÓOSSOU!!!

ÁHA!, UHÚ!,

HOJE O PÁTIO É NÓOSSOU!!!

ÁHA!, UHÚ!,

HOJE O PÁTIO É NÓOSSOU!!!

(uns 13 muleques gritando cuspindo um gordinho com uma bola fudida emoção de copa do mundo e de saber que os grandes não vão encher o saco no pátio é todo nosso pra jogar e se metidar pras meninas de repente no final rola até um porradobol quem sabe)

sábado, 10 de julho de 2010

estrela cadente

era de noite e olhei pro céu.
isso foi agora, daqui a pouco.
vai passar uma estrela cadente
eu vi e fiz um pedido
pedi pra que eu pudesse voltar no tempo
antes de passar a estrela
para poder fazer um montão de pedido
que eu não sou bobo nem nada
e agora passou uma estrela no céu
fiz um pedido
se eu puder pedir pra voltar
a um milhãozíssimobilhonésimo de tempo
antes da estrela passar
eu posso aproveitar e fazer outro pedido
na hora eu invento
e olhei e passou!
uma estrela cadente
vou fazer um pedido
fiz
foi agora
antes vai passar uma estrela
eu tava sentindo depois
que ia
e olha a estrela cadente

chão

pego um lápiz.
risco no chão um círculo. ao redor de mim.
de dentro dele pulo. para cima. mas caio de novo.
algo não me deixa simplesmente voar. é o círculo.
apago.
desenho um quadrado.
um quadrado tem quatro cantos, bem como o elevador.
só que quando a gente fica num, só tem três.
então na verdade o quadrado tem sempre três lados.
anotei isso com caneta preta no meu braço, acho que é importante.
(sei lá, vai que cai na prova de geografia?)

apago o quadrado. já aprendi.
desenho uma casa.
dentro dela tem pessoas, eu sei que tem, não precisa desenhar.
qual o nome?
acho que eles não são de ficar falando com gente estranha.
devem ser de outra cidade.

apago a casa, eles foram morar em outra, não tem problema.

deito no chão e desenho o contorno do meu corpo.
levanto e olho. dou tchau para mim. mas não recebo tchau de volta.

- é que eu sou tímido.

me puxo pela perna até ficar de pé.
você é da minha altura!

pronto chega já brincamos.
apago meu contorno. fica o chão ali. só o chão.
mas tem algo diferente.
parece que o chão tem vida ou coisa assim.

foi o chão que me ensinou que eu não tinha limites.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pensar/fazer kynema/somnema




durante a própria filmagem do filme que o Grupo Lelepídedo de Criação está realizando, algumas questões vem à tona:

- liberdade.

muitas vezes o processo de realização impõe um resultado estético.
um filme de grande orçamento, dependendo de várias empresas, tendo que responder pelos seus argumentos, não pode se dar a liberdade de filmar o que quiser, de dizer o que quiser.

trazendo isso para a realidade subdesenvolvida de jovens da classe média que somos, com recursos digitais bons, e uma certa irresponsabilidade, os métodos possíveis de se realizar um cinema realmente surreal, que tenha impacto e vigor, não podem deixar de serem pensados/feitos, não necessariamente nessa ordem: pré-produção, produção, pós-produção canônicas.

afinal, o que é um filme?

na idéia?
tudo começa com a vida. o que você viu ontem dentro do ônibus vindo para o rio?
com quem você ficou? o que uma árvore te contou? em quem você vai votar para presidente do brasil?

no tema? o presente.
mostrar não só a fome de comida, mas principalmente, a de idéias.
mostrar que não queremos nem a faca, nem o queijo, mas a fome.

no enquadramento? a função da câmera varia de acordo com a desfunção mental. quanto menos razão melhor.
uma câmera pode ser sujeito, objeto, divindade, corpo humano, pensamento, som, invensom.

todos os mestres podem ser seguidos. dialogar com eles.

na movimentação de câmera? pesquisar o tempo.
e a câmera estática? pesquisar o espaço.

no som?
o som falaremos mais no somnema

na música?
a música como ruído produzido ao se jogar coisas que não existem na tela.
a música como a criação de um universo que não existe mas a gente acredita.
a música como manipulação invisível do sentimento de um tijolo.

- enorgia: energia/orgia.

é preciso alongar e aquecer a voz para filmar.
usar as expressões do corpo.
usar as inexpressões da alma
beijo, gozo, sexo.

engendrar a câmera dentro de um ritual de movimento e repouso e repetição
a câmera tanto pode ser a fogueira como a roda ao redor dela.
o importante é não registrar uma visão. ser uma visão. e ser um tato.

filmar com olhos vendados uma luta sexual.
uma suave violência.
o câmera morde o cangote da atriz e geme junto com ela.


- poética da antropofagya das aculturas

nosso herói nunca foi herói nem ator
nossa câmera tem miopia - que é a minha utopia
não enxerga de longe - é preciso estar perto, junto, colado, se movimentar junto
lutar junto, suar junto, entrar no ritual, desnudar a câmera é enxergar de perto - CLOSE: abrir.

ele é índio tomando coca-cola.
para nós é até branco. multicores. incolor.

no CineOP vimos um filme filmado por uma tribo indígena falando de um ritual.

esse índio, com sonhos americanos, é um sujeitobjeto dos nosso cinema.
assim como a visão que temos do índio que mora dentro da gente. não somos índios,
nem europeus, nem africanos, nem brasileiros. não somos nada. não podemos querer ser nada.

a parte isso temos em nós todos os sonhos do mundo.

- montagem barreana.

utilizar os preceitos de barros: tudo que não invento é falso.
nada pode ser inventado que já não tenha sido pela vanguarda soviética e sua classificação extensa
das impossibilidades do kynema em ter limites.

o montador é uma criança de aproximadamente 3 anos que nunca tocou na areia do mar.
o programa de edição é um tecladinho CASIO de brinquedo, que faz sons engraçados.
é preciso batucar para ter ritmo.
uma criança batucando um filme.

uma criança que come um filme e planta outro através da máquina-corpo, cagando numa tela.

- somnema.

o som é 50% de um filme.

o som é uma tela.
a tela é um ambiente acústico.

será preciso criar imagens através do som.
será preciso criar sons através da imagem.

no próximo artigo, mais sobre o somnema.




flavia doria

seus palavrões desamplificados pela sua figura pequeno-singela-bela saem como ópera de grilos masturbando folhas presas em grades de sol



poema inspirado numa fotografia tirada por uma menina pequenina mas com grande nada poesial dentro. ela me mostrou essa foto amanhã. na foto, em preto-e-branco, dá pra se ver bem nada.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Zoubri Tudho Quin Naun Vemmws Kun Ahs Mauls

depois de duas noites mal-dormidas
acordo mal-acordado
e mal acordo o acordado
que era acordar todos os dias

depois de tuas febres e tuas frias
mãos calejadas de sonhos
inventando outros olhos castanhos
e ver pelo tato tuas ruas e vias

agora com o desejo liberto mias
de cima do teto cuspindo utopias
do ventre, do sexo, em gozo diário

embora pudesse dormir não dormias
queria descobrir o que se escondia
do lado de lá da noite que é claro

segunda-feira, 5 de julho de 2010

o mundo mudou

noite solar no quintal da sua casa
tem torresmo e quiabo
deus e o diabo

eu preciso esvaziar minha mente
até falar a verdade
até sobrar
tudo

tudo que eu vejo me move
tudo que é silêncio
eu ouço

esvaziar o coração até sobrar mangue
a cada hora que passa
uma hora passa
e eu só sei o que são as horas
quando desmonto um relógio
e vejo que quebrou
mas não vejo o porquê

meu sonho se perdeu pelos mitos
e quero ele de volta para poder voar

pegadas de curupira na calçada principal
perfume de colchão
teu mystério me chama
no silêncio que de dele emana
um bebê a cada beijo
um gole da bebida: desejo

quero partir para o oriente
e sentir o que se sente
quando se sente
o nada

noites quentes
os grilos já masturbam o orvalho
os homens se recolhem no recanto de seus lares
as moças se aprontam para sair e conhecer
homens
os cachorros uivam em busca dos donos
um mendingo chora por dentro

e um emo chora por fora
borrando a maquiagem preta

o mundo mudou
num é mais simples

mas eu queria ele simples

domingo, 4 de julho de 2010

sexta-feira, 2 de julho de 2010

fotografia que eu tirei sem filme

as listras do sol na persiana enfaixam o corpo dela
era para ser um simples sábado
mas era hoje
olhando seu corpo listrado de sol
ela mumifica um futuro
onde será rainha
de suas próprias emoções

e lá fora
a gente caça sonhos em pipas

segunda-feira, 28 de junho de 2010

#6

o cobertor se mistura com a lua
que mistura com a tua pele
no chocolate quente

a espera do esperma
morning sun ----------O´´´

*um segredo só pode ser contado duas vezes

o espelho da estrela
onde vemos sua estréia
o esterco e a esquadra de Colombo
o estranho e o ninho
de pombo

vo ar - - - - ali - - - - - - lá - - - - - - pousou um pensamento feito cago

longe posso ver minha descoberta aqui
teus olhos revirados
olhinhos de bola de gudi

o cobertor se mistura com a tua pele
a minha pele é cobertor?

não sei se é pé
ou se é não
minha mão só enxerga no escuro de poemas bem claros
no desentendimento eu clarifico o que não quero te dizer

o corpo
,,,,,,,,////torto

reconhece os limites do mundo através dos grãos de poeira que dançam na tua janela

posso jogar volei com a tua
meia?

camisas, sutiãs, cuecas, ah, um livro legau
anarquitetura / camamesa de jogar

o corpo se mistura com a lua minguante
desmilingua
numa língua inventada

sexta-feira, 25 de junho de 2010

original é voltar às origens - estudo de poesia através do não-aprendizado

A primeira aula de poesia começou assim:
o professor entrou na sala cumprimentando os alunos
"adeus, tchau"
tirou do bolso um giz negro
e escreveu no quadro:
"NADA"
em letras garrafais e ilegíveis.

Sentou-se em pé
e perguntou:
"o que vocês estão lendo aqui?"

um nerd com dados de rpg nas mãos disse
"NADA!" e abriu um sorriso desprezível

ao que o professor:
"sai de sala
e sai da aula
você não está apto"

o nerd chutou os dados no chão
de raiva
e deu 6 - 6 - 6.

o professor perguntou, então, para a menina
cricri
chatonilda, aquelas cricri que responde tudo antes
ao que ela disse:
"está escrita uma palavra, fessor"
e abriu um sorriso sem mostrar os dentes
e fez o tique nervoso dela
que era piscar os olhos borboleteando.

o professor a expulsou também
ela saiu chorando
dizendo que ia processar a escola e o professor.

o professor tô nem ai.

até que por livre e expontânea avontade
um maluco doidão lá da turma
aqueles que não penteiam o cabelo
e toma banho só aos domingos
pra paquerar as moças
esse maluco levantou o braço altão lá
querendo responder o fessor.

"diga ae, aluno, sabe a resposta?"

"sei sim fessor"

"então, qualé?"

então o maluco se levantou pra dizer
como todos faziam para responder as perguntas
mas
simplesmente ficou calado.

é, calado. num falou porra nenhuma.

nesse instante a cabeça, o olho e o coração de todos os outros alunos
explodiu de gozo, de raiva, de medo, de fome.

o professor abriu um sorriso suburbano
e disse:

"você não deu a resposta. parabéns."
ao que se matou, pegando um poema e cortando sua garganta.

o aluno doidão
sozinho na sala
com os cadáveres
lembrou daquelas aulas de português do primário
onde falaram de uma tal antropofagia.
intão tá, comeu o célebro do fessor.
o olho de um colega seu cego
e o coração da menina que gostava.


foi assim que nasceu o primeiro poeta.